O que revelam as fotos de Kim Jong-un cavalgando em monte sagrado na Coreia do Norte

As viagens do líder norte-coreano até o Monte Paektu são conhecidas por precederem os principais anúncios

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Kim Jong-un estava acompanhado por sua esposa e altos oficiais militares

Kim Jong-un estava acompanhado por sua esposa e altos oficiais militares

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A Coreia do Norte divulgou fotos de seu líder, Kim Jong-un, andando mais uma vez a cavalo no sagrado Monte Paektu. O movimento é cheio de simbolismo: as viagens anteriores até a montanha precederam grandes anúncios.

É a segunda vez em menos de dois meses que o líder norte-coreano é visto sobre um cavalo branco na montanha. Nas imagens mais recentes, ele aparece acompanhado por sua esposa e altos oficiais militares.

O último passeio a cavalo ocorreu quando a mídia estatal informou que haveria uma rara reunião dos líderes do partido no final deste mês para discutir "questões cruciais" sobre "a situação alterada internamente e no exterior". Não foram divulgados mais detalhes sobre o que seria discutido.

Kim estabeleceu um prazo até o fim do ano para os EUA oferecerem mais concessões para salvar as negociações sobre o programa nuclear norte-coreano. Em um comunicado divulgado na terça-feira (03/12), o governo da Coreia do Norte disse que cabe aos EUA escolher o "presente de Natal" que quer receber de Pyongyang.

O que sabemos sobre a viagem?

A Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA), que é estatal, divulgou na quarta-feira várias fotos de Kim, sua esposa e altos oficiais militares montando cavalos brancos no Monte Paektu, coberto de neve.

A agência informou que Kim visitou os "locais de batalhas revolucionárias" perto da montanha antes de chegar ao cume.

Antes, ele havia informado que subiu o pico de 2.750 metros a cavalo em meados de outubro.

Na última viagem, ele lembrou aos norte-coreanos "sempre viverem e trabalharem no espírito aguerrido de Paektu", segundo a agência. Kim disse que isso é importante no momento em que "os imperialistas e inimigos de classe fazem uma tentativa mais frenética de minar as posições ideológicas, revolucionárias e de classe do nosso partido".

Divulgação de imagens do líder cavalgando no Monte Paektu costumam preceder anúncios importantes

Divulgação de imagens do líder cavalgando no Monte Paektu costumam preceder anúncios importantes

KCNA/AFP
 Kim pediu aos norte-coreanos que trabalhem para 'defender as gloriosas tradições revolucionárias'

Kim pediu aos norte-coreanos que trabalhem para 'defender as gloriosas tradições revolucionárias'

AFP/KCNA

"É a determinação e a vontade consistentes de nosso partido de defender e levar por toda a eternidade as gloriosas tradições revolucionárias que têm suas raízes no Monte Paektu", acrescentou.

Qual é o simbolismo?

O Monte Paektu tem um lugar especial na identidade do país: um vulcão ativo, é considerado o local de nascimento do pai de Kim, Kim Jong-il, e serviu como uma base militar importante para seu avô Kim Il-sung, o líder fundador da Coreia do Norte.

O pico da montanha, situado na fronteira com a China, é considerado um lugar sagrado no folclore coreano. Acredita-se que é o local de nascimento de Dangun, o fundador do primeiro reino coreano há mais de 4.000 anos.

Kim Jong-un no Mount Paektu em outubro

Kim Jong-un no Mount Paektu em outubro

AFP

Isso também é parte da propaganda que glorifica a família Kim, que se diz descendente de uma "linhagem do Monte Paektu".

Michael Madden, especialista em Coreia do Norte, disse à BBC que "cavalos e as cavalgadas têm um grande simbolismo na cultura coreana em geral e na cultura política (da Coreia do Norte) em particular".

Os cavalos aparecem na mitologia coreana por meio de Chollima, um cavalo com asas que percorre pelo menos 400 km por dia, e Mallima, um cavalo que pode percorrer longas distâncias a velocidades extremamente rápidas. Referências a ambos foram usadas na condução de construções econômicas no país, disse Madden.

Ele acrescentou que, andando a cavalo, Kim também estava aludindo às "origens de Kim Il-sung como um combatente da guerrilha, que é uma maneira de evidenciar as referências 'antiimperialistas'."

O que isso poderia significar?

Analistas dizem que a visita ao monte pode sinalizar os preparativos para uma postura mais conflituosa.

"A mensagem está pronta, 'será um grande ano para nós'", avaliou o professor John Delury, da Universidade Yonsei, em Seul, em entrevista à agência de notícias Reuters. "Não será um ano de diplomacia e cúpula, mas sim de força nacional."

Ele acrescentou que a reunião dos líderes do partido também foi significativa. "Esta não é uma reunião padrão", disse ele, explicando que foi a primeira vez que esse encontro ocorreu duas vezes em um ano durante a gestão de Kim.

Rachel Minyoung Lee, analista do site de monitoramento NK News, disse que a decisão de realizar a reunião antes do fim do ano "indica sua forte determinação".

"Considerando o anúncio da plenária do partido e a visita ao Monte Paektu juntos, a 'resolução' parece ser que a Coreia do Norte não vai ceder aos EUA e que continuará resistindo apesar das dificuldades", disse ela à Reuters.

As negociações nucleares entre a Coreia do Norte e os EUA foram paralisadas, com Pyongyang buscando mais concessões para voltar à mesa. Pyongyang deu aos EUA até o final do ano para acabar com sua "política hostil" ou disse que seguiria um "novo caminho".

Donald Trump esteve com Kim Jong-un na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias neste ano

Donald Trump esteve com Kim Jong-un na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias neste ano

Reuters

Os EUA pediram a Pyongyang que se desfaça de uma porção significativa de seu arsenal nuclear antes que as sanções econômicas sejam flexibilizadas.

Especialistas disseram que é improvável que os EUA façam novas propostas que satisfaçam a Coreia do Norte.

Na terça-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu que Kim desnuclearize o país.

"Agora, temos as forças armadas mais poderosas que já tivemos, e somos de longe o país mais poderoso do mundo, e esperamos não precisar usar isso. Mas, se precisarmos, vamos usar", disse, de acordo com a Associated Press.

Quais foram as outras vezes em que Kim subiu a montanha?

Kim teria subido a montanha várias vezes no passado, muitas vezes antes de fazer grandes anúncios. Isso inclui uma viagem à montanha em 2017, que ocorreu algumas semanas antes do discurso de seu ano novo, em que ele sugeriu uma suavização diplomática com a Coreia do Sul.

Kim Jong-un no monte sagrado em 2015

Kim Jong-un no monte sagrado em 2015

EPA

No ano seguinte, ele fez uma visita conjunta à montanha com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in.

A visita de dois meses atrás provocou especulações de uma mudança na estratégia de negociação nuclear de Pyongyang.