Guerra civil na Síria: veja a cobertura completa
Internacional O que são armas químicas? Sete pontos para entender esta ameaça

O que são armas químicas? Sete pontos para entender esta ameaça

Na Síria, um suposto uso dessas armas no início de abril motivou um ataque aéreo ordenado por Estados Unidos, França e Reino Unido

Armas Químicas

Síria não tem estrutura para tratar vítimas

Síria não tem estrutura para tratar vítimas

Reprodução/Reuters

O uso de armas químicas está no centro de grandes polêmicas e disputas internacionais. O ataque contra o ex-agente russo Sergei Skripal no Reino Unido, no início de março, é um exemplo.

No ataque, foi usada a neurotoxina Novichok, na ação que foi considerada a primeira utilização de armas químicas em território europeu desde a Segunda Guerra Mundial.

A retaliação da primeira-ministra britânica Theresa May, ao expulsar 23 diplomatas russos do Reino Unido, dá uma dimensão da gravidade desse atentado.

No Oriente Médio, a Guerra da Síria, que já dura mais de sete anos, ganhou um novo episódio no último dia 7 de abril, quando um suposto ataque com armas químicas teria acontecido na região de Douma, o último bastião dos rebeldes que que lutam contra o presidente Bashar Al-Assad. 

Estados Unidos, França e Reino Unido acusaram o governo sírio de ter sido o mandante do ataque contra sua própria população. A ONU atribui pelo menos 35 usos de arma química por forças sírias durante o confronto desde 2013, quando Assad assinou a convenção internacional que impede o uso desse tipo de sustância.

A Síria negou que o ataque tivesse existido. A Rússia, que apoia o governo Assad na guerra, afirmou que o ataque foi “encenado” pelo Reino Unido para justificar uma possível retaliação.

Os líderes dos três países do Ocidente, Donald Trump, Theresa May e Emmanuel Macron se juntaram e organizaram um ataque contra a Síria que aconteceu na última sexta-feira (13). Segundo eles, o ataque visava justamente destruir esses depósitos de armas químicas.

Mas por que as armas químicas geram tanta comoção na Comunidade Internacional? O R7 conversou com a toxicologista e especialista em armas químicas Camilla Colasso, que respondeu sete perguntas-chave sobre o tema.

O que são armas químicas?

As armas químicas são substâncias químicas que já existem e são empregadas no uso industrial. A diferença é que uma arma química é utilizada para atacar e fazer sofrer uma população civil ou um inimigo externo.

“Esse tipo de arma é um produto químico que causa morte ou que é, no mínimo, tóxico”, explica Colasso. 

Para fazer uma diferenciação mais precisa entre as substâncias químicas usadas para ferir a população das mesmas substâncias que são usadas na indústria, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) afirma que uma arma química pode ser definida como a junção do dispositivo utilizado para dispersar com o produto químico tóxico.

"pensando em ataques contra civis, essas armas causam dor, injúria, provoca um choque muito grande para quem é vítima e para a sociedade como um todo", esclarece.

Quais são os tipos de armas químicas?

As armas químicas são divididas em cinco grandes classes:

*Neurotóxicos: São substâncias artificiais criadas especialmente para agir no sistema nervoso central da vítima. Essa é a classe mais letal de armas químicas, segundo Colasso. O Novichok utilizado para envenenar o ex-agente russo Sergei Skripal e sua filha Yulia é um exemplo de arma química neurotóxica. O gás sarin — que na verdade é um vapor — foi utilizado contra a população da Síria, conforme informações de organizações de direitos humanos. "Esses são os mais letais", completa Colasso.

*Sufocantes: Esses produtos agem causando o sufocamento no organismo afetado. Gás cloro e fosgênio são dois exemplos de armas químicas dessa categoria. Segundo as organizações internacionais, o gás cloro tem sido altamente utilizado na Guerra da Síria.

*Vesicantes (ou bolhosos): Essas substâncias específicas agem principalmente nos olhos e na pele da vítima. Eles causam bolhas características que doem muito e podem incapacitar a ação de um inimigo, no caso de um confronto. "As bolhas provocadas são muito difíceis de serem tratadas quando estouram e doem demais. Essas armas não matam, mas deixam as pessoas completamente debilitadas", garante Colasso. Essas armas também podem provocar cegueira. O gás mostarda é um exemplo de arma química vesicante.

Atentado químico no Japão deixou 12 mortos

Atentado químico no Japão deixou 12 mortos

Agência Japonesa de Defesa/Getty Images

*Agentes sanguíneos: Esses produtos são todos à base de cianeto e foram os agentes tóxicos utilizadas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Colasso explica que essas substâncias causam falta de oxigenação nas células e assim o corpo entra em pane. Dependendo da quantidade de gás, a vítima morre em poucos minutos.

*Toxinas: Essas substâncias são características por serem extraídas de microorganismos. Existem dois tipos de toxinas usadas como armas químicas. As primeiras são as saxitoxinas extraídas de cianobactérias e algas marinhas e as segundas são as ricinas, extraídas de semente de mamona.

Desde quando as armas químicas são usadas em conflitos?

O primeiro uso militar de armas químicas em grande escala que se tem notícia foi na Primeira Guerra Mundial. A Alemanha utilizou cilindros de gás cloro para evitar o avanço das tropas francesas.

Posteriormente, os aliados também passaram usar esse tipo de armamento. Naquele período, a principal substância utilizada foi o gás mostarda.

Depois disso foi criado o Protocolo de Genebra, em 1925, que impedia o uso de armas químicas em batalha.

Isso não foi o bastante, tanto que durante a Segunda Guerra Mundial o cianeto foi utilizado pelos nazistas e os japoneses também fizeram experiências químicas e biológicas contra soldados australianos.

Na Guerra do Vietnã, os Estados Unidos empregaram o desfolhante conhecido como agente laranja contra a população Vietnamita.

Na década de 1990, a Guerra Irã-Iraque também teve o emprego desse tipo de armas. Um atentando utilizando gás sarin deixou 12 mortos e atingiu pelo menos 6 mil pessoas no metrô de Tóquio em 1995. 

A Opaq surgiu em 1997 com a proposta de destruir as armas químicas que restaram desses conflitos.

Quantas armas químicas existem no mundo?

De acordo com a especialista é impossível ter certeza de quantas armas químicas existem no mundo.

A situação é ainda mais complicada porque muitas dessas substâncias podem ser facilmente criadas, como é o caso do sarin. Esse gás venenoso não é comercializado, mas com a matéria-prima adequada, é possível produzi-lo em um quintal.

Quais sintomas?

Cada classe de arma química produz uma reação específica no corpo humano. Colasso esclareceu os principais sintomas dos dois principais armamentos que teriam sido usados na Síria nos últimos sete anos: o gás cloro e o sarin.

“O cloro provoca a sensação de que tem alguém pisando no seu peito”, relata. É um aperto muito forte no peito e caso a pessoa não seja tratada imediatamente, morrerá em pouco tempo.

O sarin, por sua vez, provoca muito suor e salivação na vítima. É comum que as pessoas espumem pela boca e tenham tremores musculares.

Outros sintomas do sarin é que ele deixa a visão da pessoa atingida turva e causa ânsia de vômito e convulsões. As crianças tendem a ser mais afetadas.

Como identificar um ataque químico?

A maioria desses agentes são quase impossíveis de identificar quando dispersados na atmosfera. "Eles são como inimigos invisíveis", define Colasso. A exceção fica por conta do cloro que faz o nariz, olho e a garganta arderem.

"Na Síria, as pessoas vivem um cenário de guerra, onde toda hora tem bomba caindo, toda hora explosão. A pessoa não consegue imaginar que em uma dessas explosões vai ter um gás", explica a especialista. "É perverso o uso da arma química porque você não tem como fugir, não tem como se esconder", lamenta.

O problema é que quando uma população identifica que está sendo vítima de um ataque químico, o primeiro ímpeto é o de correr.

Como esses gases se dispersam com facilidade, quanto mais a pessoa corre mais inala o gás e mais envenenada fica. 

As vítimas podem ser tratadas?

Em um contexto controlado e de normalidade, com uma infraestrutura adequada é possível salvar uma vítima de um ataque químico, como acontece com Sergei e Yulia Skripal. Yulia, inclusive já apresentou melhoras no tratamento que recebe no Reino Unido.

Tendo em vista, no entanto, o cenário da guerra da Síria, essas pessoas tendem a sofrer mais porque, muitas vezes, não há sequer médicos e enfermeiras suficientes para prestar a ajuda necessária, muito menos hospitais adequados.

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