O que se sabe sobre a decisão de Maduro de fechar fronteira com o Brasil

Presidente diz que ato é uma resposta ao apoio do governo brasileiro à oposição venezuelana; ação foi tomada a dois dias de data marcada para a entrega de ajuda humanitária armazenada na fronteira.

Presidente diz que ato é uma resposta ao apoio do governo brasileiro à oposição venezuelana; ação foi tomada a dois dias de data marcada para a entrega de ajuda humanitária armazenada na fronteira.

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Maduro afirmou que fronteira da Venezuela com o Brasil ficará fechada 'total e absolutamente, até novo aviso'

Maduro afirmou que fronteira da Venezuela com o Brasil ficará fechada 'total e absolutamente, até novo aviso'

BBC NEWS BRASIL/ AFP

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ordenou o fechamento da fronteira com o Brasil a partir da noite desta quinta-feira (21).

"Decidi, no sul da Venezuela, a partir das 20h deste 21 de fevereiro, que ficará fechada total e absolutamente, até novo aviso, a fronteira terrestre com o Brasil", afirmou Maduro em reunião com o alto comando militar.

A medida foi tomada dois dias antes da data anunciada pela oposição venezuelana, liderada pelo presidente autoproclamado Juan Guaidó, para a entrega de ajuda humanitária armazenada em diversos pontos da fronteira da Venezuela com a Colômbia e o Brasil.

Segundo a Polícia Militar de Paracaima, em Roraima, na fronteira com a Venezuela, o trânsito de pessoas entre os dois países ainda está aberto.

O fechamento da fronteira, informaram os militares da cidade, é esperado para as 20h locais (21h de Brasília), em linha com a declaração de Maduro sobre o tema. 

A Polícia Militar disse que ainda não tem mais informações sobre o local em que o bloqueio da fronteira será estabelecido, e ressaltou que não registrou movimentações atípicas em Pacaraima. Não está claro também se o trânsito de pessoas será interrompido.

O governo de Roraima informou que a fronteira com a Venezuela permanecia aberta às 17h (horário de Brasília). No horário, o governador Antonio Denarium estava reunido com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sobre o que deve ser feito em relação à ajuda humanitária que o Brasil planeja enviar para a Venezuela.

Procurada pela BBC News Brasil, a Presidência da República brasileira afirmou que não se manifestará sobre a decisão de Maduro.

Envio de tanques à fronteira e condições precárias para os moradores

Na noite de quarta-feira (20), Américo de Grazia, deputado da Assembleia Nacional venezuelana pelo Estado de Bolívar, publicou no Twitter fotos de quatro tanques de guerra em ruas de Santa Elena de Uiarén, cidade venezuelana na fronteira com Roraima. Grazia integra o partido La Causa R, que faz oposição a Maduro.

"O #Usurpador tomou militarmente #StaElenaDeUairen para impedir a entrada da #AjudaHumanitária aos #Venezuelanos. Não obstante os povos indígenas Pemones de #LaGranSabana com a Alcaldía e o Ciudadanos tornarão real a solidariedade. Juan Guaidó Presidente."
Em entrevista à BBC News Brasil, ele reafirmou que os veículos estavam sendo enviados para a fronteira, e que outros quatro tanques foram deslocados para a região nesta quinta.

Grazia afirma que o fechamento da divisa vai agravar as condições do lado venezuelano, que depende da importação de alimentos brasileiros. Ele diz que Santa Elena de Uiarén já enfrenta uma situação precária, sem eletricidade nem serviços telefônicos operantes, e que muitos moradores têm sobrevivido graças a doações de brasileiros. 

"Há muita inquietude e incerteza na região. Havia grande expectativa do povo venezuelano pela chegada da ajuda humanitária retida na fronteira", diz o deputado.

Segundo ele, o fechamento também vai prejudicar o abastecimento das bases militares venezuelanas na região. "Na maioria dos quartéis, os soldados comem frango, verdura e arroz que vêm do Brasil. Se não houver tráfego, não haverá comida também para os quartéis."

Provocação americana com ajuda humanitária

Maduro indicou que também está considerando fechar a fronteira com a Colômbia e que a decisão sobre a fronteira brasileira se deu por causa do apoio do Brasil aos planos da oposição.

O presidente afirmou que a ajuda humanitária, que foi enviada pelos EUA, é uma "provocação" e que os planos da oposição são um "pobre espetáculo" para fragilizar seu governo.

"Esse é um show montado pelo governo dos Estados Unidos com a complacência do governo colombiano para humilhar os venezuelanos. A Venezuela tem os problemas que qualquer outro país pode ter", afirmou Maduro em entrevista à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) neste mês.

Segundo ele, "os Estados Unidos tentaram criar uma crise humanitária para justificar uma intervenção militar".

Os caminhões enviados pelos americanos estão atualmente estacionados perto da ponte Tienditas, que continua bloqueada por tropas venezuelanas.

A crise na Venezuela

Em janeiro, Maduro foi empossado para mais seis anos de mandato após eleições realizadas em 2018 - amplamente contestadas pela oposição e por vários países e órgão internacionais.

Naquele mês, a crise política se acirrou quando Guaidó se proclamou presidente encarregado da Venezuela e teve sua legitimidade reconhecida por mais de 50 países, entre os quais o Brasil.

O isolamento internacional de Maduro se acentuou no início deste mês, com quase duas dezenas de países da União Europeia também reconheceram Guaidó, entre eles Alemanha, França e Espanha. O mesmo ocorreu com a maioria dos países latino-americanos integrantes do Grupo de Lima, exceto o México. 

A crise econômica da Venezuela tem provocado dificuldade de acesso da população a produtos básicos, inclusive a alimentos. A inflação, os altos preços e a perda do poder aquisitivo dos venezuelanos têm gerado bastante obstáculos para comprar esses produtos.
Oficiais do Exército foram encarregados de distribuir petróleo, arroz, café e outros alimentos básicos, bem como papel higiênico, absorventes e fraldas.

Apesar do apoio de líderes militares, a história é diferente nas patentes mais baixas.

A maioria destes militares teve de enfrentar a penúria econômica da Venezuela, assim como todos os cidadãos comuns no país. Ao contrário dos altos oficiais, os escalões inferiores sofreram com falta de combustível, escassez de alimentos e hiperinflação - e há um crescente descontentamento.

Um dos principais efeitos da crise é a saída de venezuelanos do país. Segundo a Agência de Migração da ONU, cerca de 2,3 milhões de pessoas deixaram a Venezuela nos últimos anos, o que equivale a 7% da população.