Internacional Olimpíadas: esportes e geopolítica competem lado a lado 

Olimpíadas: esportes e geopolítica competem lado a lado 

Jogos foram palco para disputas que tinham um contexto maior do que o objetivo de conquistar um lugar no pódio 

  • Internacional | Fábio Fleury, do R7

Disputas geopolíticas já foram travadas até mesmo numa final de pólo aquático, como em 1956

Disputas geopolíticas já foram travadas até mesmo numa final de pólo aquático, como em 1956

EFE / Olympic Photo Association - Arquivo

Desde que o Barão de Coubertin criou as Olimpíadas da Era Moderna, em 1896, sempre foi complicado separar a política das competições. São 125 anos de alianças, boicotes, manifestações e até atentados que ocorrem na principal competição desportiva do mundo.

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Na Olimpíada de Tóquio, que começa na próxima sexta-feira (23), haverá um foco ainda maior nos atletas devido à ausência de público por conta do estado de emergência no Japão pela pandemia de covid-19. Essa situação pode abrir o caminho para manifestações individuais e até protestos mais numerosos.

Para a psicóloga Katia Rubio, pesquisadora de Jogos Olímpicos e professora da Faculdade de Educação da USP, esse será um dos pontos mais interessantes a se observar nas competições.

“Os atletas foram proibidos de fazer qualquer manifestação no pódio, mas não em outros locais. Eles poderão se manifestar, vamos ver como isso vai acontecer e como será recebido. Acho que como os jogos vão ficar muito restritos às arenas, é possível que esse espaço seja disputado com muito desejo por todos.

Para ela, a história das Olimpíadas está intrinsecamente ligada à geopolítica e ao contexto global na qual elas são realizadas.

Competição x cooperação

O episódio mais recente disso aconteceu nos Jogos de Inverno de PyeongChang, na Coreia do Sul, em 2018. Na época, buscando uma maior aproximação, as delegações das Coreias do Norte e do Sul desfilaram juntas na abertura e no encerramento, competiram como uma só nação e montaram uma seleção conjunta para a disputa do hóquei no gelo feminino.

Essa tentativa de cooperação resultou em uma candidatura conjunta de Seul e Pyongyang como sedes dos Jogos de 2032.

“A partir do momento que os Jogos são uma competição com caráter nacional e um atleta não pode se inscrever individualmente, as questões geopolíticas interferem, desde a realização deles em si. Essa vinculação entre o Estado nacional e o atleta leva a essa relação”, explica ela.

Em 1920, lembra a professora, a Alemanha foi impedida de disputar os Jogos de Antuérpia, na Bélgica. “Foi o primeiro boicote olímpico, logo depois da 1ª Guerra Mundial, porque os belgas não queriam que os alemães entrassem no país. A história dos jogos no século 20 é atravessada pelos Jogos. É impossível separar uma coisa da outra”, relata.

O boicote liderado pelos EUA por conta da invasão da União Soviética ao Afeganistão tirou 65 países, como China, Índia, Argentina e Israel dos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980. Outros 14 países do bloco soviético acabaram não disputando a edição seguinte, em Los Angeles-84, em retaliação. O Brasil disputou as duas edições, lembra a professora.

“Mesmo assim, o Brasil foi pressionado de todas as formas pelo então presidente Jimmy Carter a boicotar os Jogos de Moscou”, recorda Katia. “A China ficou fora das Olimpíadas diversas vezes porque o COI reconhece Taiwan como nação. Houve também o boicote à África do Sul (de 1964 a 1988) por conta do apartheid”.

Jesse Owens ganhou 4 ouros em Berlim-1936

Jesse Owens ganhou 4 ouros em Berlim-1936

EFE - Arquivo

Essas questões podem invadir até mesmo as arenas de competição. Na violenta final do pólo aquático masculino nos Jogos de Melbourne-1956, entre húngaros e soviéticos, a água da piscina ficou cheia de sangue, dois meses depois que a União Soviética invadiu a Hungria com tanques e artilharia.

“Durante o período da Guerra Fria, os Jogos também eram a oportunidade de se resolver esses conflitos de forma figurada”, afirma a pesquisadora. Antes mesmo da 2ª Guerra, Adolf Hitler tentou demonstrar a superioridade alemã nos Jogos de Berlim-1936, mas acabou com seus planos frustrados pelas quatro medalhas de ouro do norte-americano Jesse Owens.

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