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Internacional Os custos e os dilemas éticos do turismo para se vacinar

Os custos e os dilemas éticos do turismo para se vacinar

Brasileiros pagam milhares de reais em viagens para antecipar a aplicação das doses do imunizante contra covid-19

Passageiros recebem vacinas em um centro de imunização no aeroporto de Miami

Passageiros recebem vacinas em um centro de imunização no aeroporto de Miami

Eva Marie Uzcategui / AFP - 29.5.2021

Com a lentidão da campanha de vacinação contra covid-19 no país, alguns brasileiros estão viajando para países que permitem o chamado turismo da vacina.

EUA, Emirados Árabes, San Marino, Panamá, Sérvia e Ilhas Maldivas são alguns dos destinos que já estão recebendo turistas cujas viagens têm como principal propósito receber uma ou duas doses de imunizantes. 

Um pacote de viagem para receber a vacina para alguma das dezenas de cidades norte-americanas que estão vacinando viajantes não é acessível para a grande maioria das pessoas. Quem quiser viajar para Nova York, por exemplo, terá que desembolsar de  R$ 15 mil até R$ 25 mil, além dos gastos com passaporte e visto.

Até receber a dose, o viajante ainda precisa passar por uma quarentena de 14 dias no México ou algum país do Caribe, antes de entrar em território norte-americano por conta de restrições de entrada. Isso significa mais tempo de viagem e mais gastos em dólar, que o câmbio está acima dos R$ 5.

O setor de turismo reconhece um aumento na procura por esse tipo de pacote. Em apps de vendas de passagens, a busca por cidades nos EUA que estão vacinando não-residentes subiu mais de seis vezes. No app Pinguim, que funciona como uma rede social com 40 mil viajantes cadastrados, mais de 15% dos usuários pesquisam destinos para vacinação.

"A demanda tem sido grande, as pessoas sentem mais segurança em viajar e para aquelas com condições de buscar a vacina em um outro país, é possível conciliar o desejo de ser imunizado com a chance de visitar um destino turístico", afirma Renata Franco, fundadora da startup.

As contraindicações

Para Flávio César de Sá, professor de ética médica e bioética da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a necessidade de buscar uma solução fora do Plano Nacional de Imunização é sintoma de um problema mais sério.

"Só estamos falando sobre isso porque não há vacinas para todos aqui, do contrário não existiria esse fenômeno", analisa. "Isso é decorrente de uma desigualdade mundial na distribuição de vacinas, além dos nossos próprios problemas para obtê-las aqui".

O especialista afirma que o número de brasileiros que podem viajar ao exterior para se vacinar é muito pequeno e não deve fazer diferença para o cumprimento das metas nacionais de imunização.

"Deveríamos buscar uma saída como sociedade, e essa é uma opção egoísta. Do ponto de vista do controle da doença, não vai ajudar. A questão da vacina, ainda que tenha um grande valor para o indivíduo, tem sua maior relevância na proteção coletiva", afirma.

Na opinião de Flávio, é preciso deixar claro que a vacinação não é somente uma questão de foro íntimo e que a pandemia só poderá ser controlada quando um número suficiente de pessoas for imunizado. 

"O estudo em Serrana (SP) mostrou que quando vacinou 70% a população a doença foi controlada, é só nesse momento que se atinge a imunidade coletiva, não é deixando que as pessoas se infectem sozinhas", explica.

O Brasil tem uma população de mais de 220 milhões de habitantes e até agora aplicou as duas doses da vacina em 11,23% da população, cerca de 23,7 milhões de brasileiros. O estado de São Paulo, o mais populoso do país, estima que toda a população adulta deve receber pelo menos a primeira dose até 18 de outubro

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