Internacional Por que a Rússia anunciou de surpresa a retirada de tropas da Síria?

Por que a Rússia anunciou de surpresa a retirada de tropas da Síria?

Nova rodada de negociações pelo fim da guerra no país entra hoje em seu segundo dia

Por que a Rússia anunciou de surpresa a retirada de tropas da Síria?

Vladimir Putin disse que a missão da Rússia na Síria "foi cumprida"

Vladimir Putin disse que a missão da Rússia na Síria "foi cumprida"

BBC/ AP

Forças russas se preparam para deixar a Síria após o presidente Vladimir Putin anunciar nesta segunda-feira a retirada militar do país.

O ministro da Defesa russo, Sergey Shoigu, deu a ordem para a retirada e aeronaves estão sendo preparadas para voos de longa distância de volta à Rússia.

Com cautela, autoridades ocidentais saudaram a medida, dizendo que isso poderia pressionar a Síria a se engajar em conversas diplomáticas para restabelecer a paz no país, dominado há cinco anos por uma guerra civil.

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Uma nova rodada de negociações neste sentido entra hoje no segundo dia. Enquanto isso, uma comissão da ONU (Organização das Nações Unidas) irá apresentar mais à frente um relatório sobre crimes de guerra no país.

A Rússia é um aliado chave do presidente da Síria, Bashar al-Assad, e autoridades sírias procuraram rejeitar especulações sobre problemas entre os países, afirmando que a medida se deu em comum acordo.

O governo de Putin sempre insistiu em que a campanha militar teve como alvo apenas grupos terroristas, mas potências ocidentais disseram que os ataques visaram opositores de Assad.

Habilidade russa

Para o jornalista da BBC Jonathan Marcus, correspondente para assuntos se segurança, o supreendente anúncio de Putin é uma "nova amostra de habilidade diplomática" do presidente russo.

O presidente russo se reuniu com comandantes militares e fez o surpreendente anúncio nesta segunda-feira

O presidente russo se reuniu com comandantes militares e fez o surpreendente anúncio nesta segunda-feira

BBC/ AP

Para ele, a intervenção russa "contra o terrorismo" na Síria atingiu seus principais objetivos: consolidar a posição de Assad, facilitar que suas forças recuperassem áreas estratégicas do país e assegurar que o presidente sírio continue sendo um fator chave em qualquer arranjo futuro.

Shoigu, o ministro russo da Defesa, disse que a campanha militar teve mais de 9 mil missões áereas de combate, destruiu 209 instalações de produção de petróleo, ajudou as tropas sírias a retomar 400 localidades e o controle de mais de 10 mil km2 de território.

"Creio que a missão estabelecida pelo Ministério da Defesa e pelas Forças Armadas russas tenha sido cumprida" disse Putin nesta segunda.

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A decisão veio no dia em que negociações de paz eram retomadas em Genebra, e em meio a um cessar-fogo vigente desde 27 de fevereiro.

A Rússia diz, contudo, que manterá a presença militar na Síria, com uma base naval e outra áerea.

"A Rússia tem cerca de 30 aviões de combate na Síria e um contingente em terra para protegê-los, além de um número não especificado de conselheiros e forças especiais em solo operando com o Exército sírio", afirmou Jonathan Marcus.

Divergências

Putin e o presidente dos EUA, Barack Obama, conversaram por telefone nesta segunda. "Ambos defenderam a intensificação do processo por uma solução pacífica", informou o Kremlin.

A Rússia informou ter feito 9 mil missões aéreas na Siria

A Rússia informou ter feito 9 mil missões aéreas na Siria

BBC/ AP

Mas os países ainda divergem em um ponto chave, segundo Marcus. "Para o Ocidente não há solução militar na Síria, e Moscou discorda."

Washington não vislumbra a manutenção de Assad no poder como uma solução para o conflito, e voltou a pedir uma "transição política" no país.

Mas se no momento há um vencedor nesse xadrez geopolítico, esse parece ser Moscou.

"Rússia tomou partido de uma parte com poder militar considerável e aliados razoavelmente efetivos, como os combatentes do (grupo xiita libanês) Hezbollah e milícias recrutadas pelo Irã e guiadas por comandantes iranianos", disse Marcus.

"E a Rússia utilizou recursos suficientes para marcar a diferença. Levou um pouco de tempo, mas os resultados no terreno agora são claros", completou.

Sarah Rainsford, correspondente da BBC em Moscou, diz que a retirada parcial russa da Síria pode também ter relação com o alto custo das operações militares, em um momento em que a receita de Moscou está em baixa pela queda nos preços do petróleo.

Pode também, diz a correspondente, ser uma tentativa de aliviar o isolamento que o país sofre na comunidade internacional desde o início das operações.

Cautela na oposição

A oposição síria recebeu o anúncio de Putin com cautela.

"Se a retirada for feita com seriedade, dará um impulso às negociações de paz", disse Salim al Muslat, porta-voz do Comitê Supremo para as Negociações, organização que agrupa forças de oposição.

Os EUA também manifestaram prudência. "Teremos que ver quais são exatamente as intenções da Rússia", disse o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest.

A ofensiva militar teve custos para a Rússia, como o abate de um avião comercial, mas o êxito de Putin e Assad parece claro e já ameaça reduzir o país a dois enclaves: uma zona costeira dominada pelo governo sírio e o restante em poder do Estado Islâmico.

O anúncio da Rússia poderia significar, efetivamente, um respaldo às conversas diplomáticas.

A atual rodada de negociações é o "momento da verdade", afirmou nesta segunda o enviado especial da ONU à Síria, Staffan de Mistura.

Não há plano B e a única alternativa a um acordo seria a retomada da guerra, disse Mistura.

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