Internacional Provável rival de Trump, Elizabeth Warren já foi de Partido Republicano

Provável rival de Trump, Elizabeth Warren já foi de Partido Republicano

Senadora do Massachusetts desponta entre democratas. Desafios agora incluem falta de apoio fora do estado e diversidade do eleitorado feminino

Eleições nos EUA

Elizabeth Warren, pré-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos

Elizabeth Warren, pré-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos

REUTERS/Shannon Stapleton/15.10.2019

Se você ainda não ouviu falar sobre Elizabeth Warren, é altamente provável que vá ouvir nas próximas semanas ou meses. Senadora pelo estado norte-americano de Massachusetts, ela é pré-candidata do Partido Democrata à eleição que definirá o próximo presidente dos Estados Unidos, em 2020.

Por ora, a imprensa internacional destaca o crescimento de Warren nas pesquisas — ela já lidera entre os pré-candidatos democratas, com 28% das intenções de voto, de acordo com levantamento da Universidade George Washington — e sua notável campanha de arrecadação de fundos — foram US$ 25,7 milhões (cerca de R$ 107,02 milhões) até o mês de outubro.

“Elizabeth Warren tem feito uma campanha muito eficaz no nível de base. Sua mensagem popular e sua atenção à desigualdade econômica atraíram muitos apoiadores e colaboradores”, sublinha Kira Sanbonmatsu, professora de Ciência Política na Universidade de Rutgers, dos Estados Unidos, em entrevista ao R7.

Histórico e pré-candidatura

Warren, que tem hoje 70 anos, foi registrada no Partido Republicano até 1996 — quando, segundo declarações da própria, passou de “apolítica” para “política”. Nos anos que se seguiram, ela foi professora de Direito em Harvard e chegou a trabalhar no Escritório de Proteção Financeira do Consumidor durante o governo de Barack Obama. Em 2012, foi eleita senadora pela primeira vez.

A pré-candidatura à presidência dos Estados Unidos foi lançada no último mês de fevereiro — quando a preferência absoluta dentro do Partido Democrata para o pleito de 2020 era Joe Biden, que atuou como vice-presidente dos Estados Unidos nos dois mandatos de Obama. De lá para cá, entretanto, algumas coisas mudaram.

“Biden já carregava um peso grande em decorrência de acusações de conduta sexual imprópria. As denúncias sobre assédio têm um impacto forte em uma sociedade que vem experimentando movimentos de mulheres importantes contra o assédio e pela igualdade de direitos entre os gêneros”, diz Débora Prado, professora de Relações Internacionais na UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e pesquisadora do INCT-INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos).

As controvérsias de Biden

As queixas, feitas por uma deputada democrata e uma antiga assessora do Congresso, apontam para comportamentos inadequados de Biden entre 2009 e 2014. Débora Prado acrescenta que o desempenho do ex-vice-presidente na disputa eleitoral levou outro golpe quando o nome de sua família acabou envolvido no inquérito de impeachment aberto contra Donald Trump.

Em uma famigerada ligação telefônica realizada em julho, o atual presidente dos Estados Unidos pediu ao seu homônimo ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, para investigar Biden e seu filho Hunter por suspeitas de corrupção. Para Kira Sanbonmatsu, da Universidade de Rutgers, “ainda não está claro como as alegações infundadas sobre o filho de Joe Biden, Hunter Biden, afetarão a corrida eleitoral”.

“Mas, mesmo antes dessas recentes controvérsias, Biden estava começando a perder seu status de liderança”, completa.

Propostas progressistas

Warren defende sistema de saúde gratuito

Warren defende sistema de saúde gratuito

REUTERS/Mike Blake/10.10.2019

Em seus discursos de campanha, Warren defende um sistema de saúde universal estatal, ensino superior gratuito aos americanos e o pagamento de mais impostos pelos mais ricos. As propostas se assemelham às do veterano Bernie Sanders — que é senador por Vermont e foi derrotado nas prévias presidenciais da ala democrata por Hillary Clinton em 2016.

“O discurso de ambos é bem recebido entre o eleitorado democrata mais progressista e está mais alinhado às demandas dos eleitores afro-americanos, latinos e asiáticos. Os dois são críticos de Wall Street e dos representantes mais conservadores do partido. Warren e Sandres trazem propostas radicais se comparadas à posição mais de centro de Joe Biden”, ressalta Débora Prado.

As especialistas ouvidas pelo R7 reforçam que, por outro lado, Warren e Sanders vêm percorrendo caminhos com importantes diferenças estruturais. “Warren parece estar executando uma campanha mais organizada e, agora, também está começando a propor discussões mais explicitamente baseadas em gênero, apelando diretamente às mulheres eleitoras”, afirma Kira Sanbonmatsu.

A ascensão das mulheres

É fato que a ascensão da senadora no cenário político esteja relacionada ao significativo aumento de representantes femininas na política dos Estados Unidos — o fenômeno é visto, principalmente, como um movimento de resistência ao governo conservador capitaneado por Donald Trump. Nas eleições legislativas do país em 2018, as mulheres foram as grandes vencedoras — com mais de 100 candidatas eleitas ou reeleitas nas disputas.

Na opinião de Débora Prado, é importante, de qualquer forma, que a senadora não cometa o erro de considerar que todas as mulheres escolhem o voto apenas pela questão de gênero — até porque líderes expressivas como a congressista Ilhan Omar, primeira deputada dos Estados Unidos de origem somali, já declararam seu apoio a Bernie Sanders.

“Os institutos de pesquisa apostaram nessa ideia de gênero nas eleições de 2016 e estavam equivocados. O chamado gender gap não rompeu barreiras históricas como o esperado. Além dele, são importantes aspectos como raça, classe social, nível de escolaridade e religião para a análise de escolha das candidaturas”, acrescenta.

Kira Sanbonmatsu completa que, nesse sentido, um desafio importante que se apresenta a Warren é ainda a falta de apoio declarado de prefeitos e governadores de fora do Massachussetts. Até o momento, a pré-candidata parece contar apenas com o endosso de líderes de seu próprio estado.

“Os apoios são importantes e ela vai precisar deles para ser bem-sucedida. Eles ajudam os eleitores a escolherem seus candidatos, especialmente em um campo cheio de gente como esse”, conclui.