CRISE HUMANITÁRIA
Internacional Refugiados elogiam saúde e educação no Brasil, mas reclamam do desemprego

Refugiados elogiam saúde e educação no Brasil, mas reclamam do desemprego

Número de refugiados praticamente dobrou desde 2011: são 8.400 no total

Refugiados elogiam saúde e educação no Brasil, mas reclamam do desemprego

Dina, da República Democrática do Congo: "Aqui me sinto segura, pela alimentação, pela casa, pela saúde. Mas o que me preocupa é o emprego, é pensar nos meus filhos"

Dina, da República Democrática do Congo: "Aqui me sinto segura, pela alimentação, pela casa, pela saúde. Mas o que me preocupa é o emprego, é pensar nos meus filhos"

Diego Junqueira/R7

Quando saiu da República Democrática do Congo (RDC), há dois meses, Dina deixou para trás uma vida de perseguição e medo. Por seis meses, ela viveu entre a casa de amigos e familiares, trocando de endereço para evitar ser presa pelas forças do governo.

“Eu era governanta na casa de uma família. Meu patrão era chefe de um jornal e começou a ter problemas com o governo. Um dia invadiram a casa dele atrás de documentos. Eu e outros funcionários fomos torturados”, afirma Dina, de 32 anos, que pediu à reportagem para alterar seu nome.

Refugiada no Brasil, ela vive agora em um abrigo no centro de São Paulo, onde recebe cama e comida. Dina faz questão de elogiar o sistema de saúde brasileiro, “que recebe você e cuida de você, mesmo sem pagar”.

Com a situação regularizada, ela tem CPF e carteira de trabalho, mas enfrenta agora seu maior desafio: conseguir um emprego e trazer a família.

— Aqui me sinto segura pela alimentação, pela casa, pela saúde. Mas o que mais me preocupa é o emprego. É pensar nos meus filhos desamparados.

Seus três filhos e sua irmã mais nova vivem na casa de uma amiga em Kinshasa, capital da RDC. Por falta de dinheiro, as crianças estão fora da escola e passam o dia dentro de casa.

— Se eles estivessem aqui, eles poderiam ir para a escola. Mas lá o único jeito [de fazer isso] é pagando.

Seu drama é compartilhado por Ana, também congolesa, de 37 anos, que está há três meses no Brasil. E como Ana ainda não consegue se comunicar em português, fica ainda mais difícil arrumar emprego.

Assim como Dina e Ana, há 8.400 refugiados reconhecidos pelo governo brasileiro. Esse fluxo praticamente dobrou desde 2011, quando havia 4.352 pessoas nessa situação.

A postura brasileira de manter as portas abertas a imigrantes e refugiados foi destacada pela presidente Dilma Rousseff na semana passada, durante discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU.

"Em um mundo onde circulam, livremente, mercadorias, capitais, informações e ideias, é absurdo impedir o livre trânsito de pessoas. (...) Recebemos sírios, haitianos, homens e mulheres de todo o mundo, assim como abrigamos, há mais de um século, milhões de europeus, árabes e asiáticos. Estamos abertos, de braços abertos para receber refugiados", disse a presidente.

Os números comprovam essa política, mas não mostram as dificuldades enfrentadas pelos refugiados por aqui. Além do desemprego, eles sofrem com a falta de assistência na chegada ao País.

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Noites na rua

Dina contou com a ajuda de um amigo brasileiro para entrar no Brasil. Ele lhe pagou as passagens e a auxiliou com o visto no Congo.

— Ele prometeu que ia cuidar de mim aqui em São Paulo, mas então descobri que ele era casado. Ele me deixou na casa de um amigo. Em três dias ele não voltou e aí fui para a rua.

No primeiro dia na rua, Dina foi assaltada, perdeu o dinheiro e as roupas. No segundo dia, conseguiu se comunicar em francês com um brasileiro, que lhe entregou um “papel com o endereço do abrigo da Cáritas”.

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Em São Paulo, principal porta de entrada ao Brasil, o apoio inicial não parte de autoridades, mas sim de instituições religiosas, como a Cáritas, ONGs como o Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado - Brasil), além de contatos dos próprios refugiados.

O haitiano Dady Simon, de 32 anos, está no Brasil desde outubro de 2013. Ele não é considerado refugiado, mas recebe do governo uma autorização especial de permanência, o chamado “visto humanitário”. Essa permissão é concedida somente para cidadãos do Haiti, país assolado por um terremoto devastador em janeiro de 2010.

— Chegando em São Paulo, olhei pro céu, porque não sabia pra onde correr, onde dormir. E aí eu falei: ‘Deus é mais. Você cria o mundo, você não vai me deixar dormir no aeroporto’.

Dady Simon, do Haiti: "O Brasil é uma mãe impecável"

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Arquivo Pessoal/Facebook

Dady conseguiu ajuda com quatro haitianos que estavam no aeroporto para buscar um amigo.

— Eles falaram para mim: ‘Não tem problema, vamos. A gente vai te levar pra nossa casa e aí você vai poder alugar sua própria casa’. Passei quatro dias na casa deles e depois fui embora. Eles mesmos arrumaram um quarto para mim.

Quase dois anos após chegar ao País, Dady afirma estar “sossegado”. Ele agora vive em Foz do Iguaçu (PR), em uma república de estudantes, onde estuda para o vestibular. Seu objetivo é fazer biologia na Unila (Universidade Federal da Integração Latino Americana).

— O Brasil oferece a todo mundo a oportunidade para estudar, mas as pessoas têm que valorizar isso. Porque no meu país todo mundo quer estudar, mas lá não existem as mesmas oportunidades. O Brasil precisa fazer alguma coisa para motivar os jovens e as crianças a estudar. Tem que fortalecer a educação.

Papelada brasileira

Diferente das congolesas, Dady não reclama de desemprego no Brasil. Como já falava espanhol na chegada ao País, ele diz que foi fácil aprender o português. Em um mês, quando ainda vivia em São Paulo, já estava empregado.

— Como todo mundo, passei momentos difíceis na minha vida. Agora estou aqui sossegado. Depois de me formar, vou ver como ajudar meu país, essa é minha ideia.

Já para a família do sírio Abd Jabbor, de 49 anos, aumentar a renda da família é uma luta diária, como mostrou reportagem do R7 DF.

Ele veio para o Brasil com a mulher e os três filhos para fugir da guerra em seu país.

A família, de classe média alta na Síria, vive em Brasília com a venda de doces e salgados. A renda, no entanto, é insuficiente para pagar as contas. Enquanto o faturamento da família é de R$ 2.000, o aluguel é de R$ 1.900, como explica a filha mais velha do casal, N. Jabbor.

— Minha mãe faz as comidas, meu pai procura os clientes e cuida das encomendas, mas não tem salário fixo e está muito difícil. Nós não sabíamos que o aluguel era tão caro, estamos procurando outro lugar.

Tanto Jabbor quanto Dina enfrentam problemas também pela falta de documentos escolares.

“Do jeito que saímos [de casa], não tinha como trazer”, conta Dina, que tem o ensino médio completo e tem dificuldades para provar sua escolaridade durante entrevistas de emprego.

Apesar dos problemas, a congolesa Dina e o haitiano Dady agradecem ao Brasil pela vida nova que ganharam.

“Quando os europeus chegaram aqui no Brasil, sofreram muito. Então tem que ter esperança, trabalhar e se achar, ou esperar o tempo para dar certo. Você vai conseguir sucesso, mas tudo é caminho”, diz Dady.

— O Brasil é uma mãe impecável. Não tem mais país que o Brasil. Na tristeza, todo mundo chora. Com o pouco que tem, o Brasil ajuda as pessoas que não têm nada, que estão em uma situação pior.

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