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Internacional República Dominicana enfrenta o coronavírus e bebidas adulteradas

República Dominicana enfrenta o coronavírus e bebidas adulteradas

Além de 183 mortos pela covid-19, o país ainda tem de lidar com pelo menos 31 que morreram após tomar bebidas feitas sem controle sanitário

Além da pandemia e da quarentena, Santo Domingo lida com bebidas adulteradas

Além da pandemia e da quarentena, Santo Domingo lida com bebidas adulteradas

Orlando Barría / EFE - 12.4.2020

A República Dominicana, em plena emergência nacional pela pandemia do coronavírus, que já deixou 183 mortos, vive paralelamente outro problema grave por conta de bebidas alcoólicas adulteradas, que causaram cerca de 30 mortes apenas na última semana.

Por conta do estado de emergência e o toque de recolher decretados pelo governo, as atividades sociais estão proibidas no país. Mesmo assim, diariamente surgem imagens de grupos de pessoas, especialmente nos bairros mais pobres, convivendo, bebendo, vendo rinhas de galo ou jogando dominó.

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Na semana passada foi divulgado que seis pessoas morreram no setor Brisa del Este, na cidade de Santo Domingo Este, vizinha da capital Santo Domingo. Todos faleceram após consumir clerén, uma bebida fabricada de forma artesanal e sem licenças sanitárias, muito consunida na região e no Haiti.

Esse foi apenas o começo de uma grande lista de mortos em situação semelhante, criando outro grave problema para o país em meio à crise do coronavírus. Isso levou o Ministério da Saúde Pública a emitir, na última sexta-feira (10), um alerta epidemiológico pelo uso de bebidas adulteradas.

Problema nacional

O ministro de Saúde Pública, Rafael Sánchez Cárdenas, disse nesta terça-feira (14) que 31 pessoas morreram por ingestão de clerén e de triculí, outra bebida de fabricação caseira, além de oito que estão em estado crítico. Ele também anunciou o desmantelamento de um local onde essas bebidas são fabricadas.

A polícia afirmou que a maioria dos casos aconteceu na região metropolitana de Santo Domingo e confirmou que o laboratório clandestino de bebidas foi encontrado em Santo Domingo Este.

Nesse local, foi detido um homem identificado como Emo Rafael Ruíz, de 31 anos, e foram confiscados 19 tanques contendo mais de 200 litros de matéria-prima para a fabricação dessas bebidas.

Desastre em família

Dois dos primeiros falecidos são Dante Sánchez, de 54 anos, e seu filho Ambiorix Sánchez, de 32, moradores de Brisa del Este, e que se reuniram em 5 de abril com vários amigos. Deles, quatro também morreram, outros dois ficaram "totalmente cegos" e outros dois seguem internados.

Foi o que contou à EFE Alba Iris Quezada, viúva de Dante e mãe de Ambiotrix. Todos eles são da região de San Juan de la Manguana, no oeste do país, onde o clerén e o triculí fazem parte da rotina diária dos moradores.

Dante, relastou ela, se levantou na segunda-feira "sem nenhuma força, com dor nom estômago, muito fraco". Depois de ser questionado pela esposa, ele confessou que tinha bebido clerén. Ela decidiu fazer uma sopa, mas ele nem chegou a tomar porque, "de repente", desmaiou e morreu.

No dia seguinte, no meio do enterro de Dante, seu filho Ambiotrix começou a apresentar os mesmos sintomas, mas negou ter tomado a bebida. Com a insistência de sua mãe, foi para o hospital, mas mentiu na triagem e disse que estava se sentindo mal por conta de um acidente de moto.

"Se tivesse dito a verdade, que tomou clerén, poderia ter se salvado", lamentou Alba, que disse que nem o marido nem o filho quiseram dizer quem lhes vendeu a bebida. "Eles levaram essa informação para o túmulo", declarou ela, que pediu qwue as autoridades investigem a fundo a situação.

Clandestinas e perigosas

Segundo o ministro da Saúde, as garrafas de clerén e triculí adulteradas eram vendidas "em mercearias e supermercados" da capital e região metropolitana. As autoridades sanitárias e a promotoria abriram investigações para determinar a composição do produto e tentar identificar os fabricantes.

Clerén e triculí são destilados de cana muito baratos, elaborados de forma artesanal e clandestina, sem fiscalização sanitária, e não são consideradas próprias para o consumo.

Essas bebidas podem se contaminar com metanol, um tipo muito tóxico de álcool, quando o fabricante destila madeiras como matéria-prima ou como aromatizante, ou quando se coloca solventes para baratear o produto.

Em dezembro de 2017 aconteceu um caso semelhante, quando pelo menos doze pessoas morreram depois de tomar clerén em um velório em Pedro Santana, um município na região da fronteira com o Haiti.

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