Senhor presidente, derrube este muro

Comunidades que vivem na fronteira entre EUA e México sofrem diretamente com a divisão entre os dois países

Patrulha norte-americana vigia a fronteira do país com o México

Patrulha norte-americana vigia a fronteira do país com o México

AP Photo/Ross D. Franklin, file

Aproximadamente 1.130 km de muros agora separam os Estados Unidos do México. Aspirantes a imigrantes ainda encontram passagens por cima, por baixo, através e ao redor deles. Enquanto ferramenta para controlar a imigração dos EUA, as fortificações da fronteira se mostraram notadamente despreparadas para a tarefa. Entretanto, mesmo assim essas barreiras ainda têm um efeito significativo e duradouro: estão prejudicando comunidades nos dois lados da fronteira.

Nós deveríamos derrubá-las antes que o dano se torne irreparável.

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Após o 11 de setembro de 2001, o então presidente dos EUA, George W. Bush, determinou que o Departamento de Segurança Nacional desse prioridade à construção de fortificações ao longo da divisa com o México. O resultado foi um conjunto impressionante de barreiras por toda a fronteira sul do país. O número de agentes da Patrulha de Fronteira dobrou em sete anos, chegando a mais de 21 mil. E a fiscalização no interior foi ampliada para identificar, deter, processar e deportar imigrantes sem documentação.

Com base nos números, pode parecer que tais esforços conseguiram impedir a imigração ilegal. Hoje em dia, as prisões efetuadas pela Patrulha da Fronteira caíram a níveis vistos em meados da década de 1970.

Contudo, a evidência sugere que o declínio tem menos a ver com o reforço da fiscalização do que com fatores econômicos. A redução foi motivada em grande medida pelas perspectivas fracas de emprego nos EUA e a recuperação econômica do México, o que manteve mais aspirantes a imigrantes em casa.

Mesmo assim, o presidente Barack Obama deu continuidade à maioria dos programas de Bush – e, na verdade, aumentou as deportações para aproximadamente 410 mil em 2012, a maior quantidade de todos os tempos. A grande maioria das deportações era destinada ao México. Os dois organismos principais, a Agência de Imigração e Alfândegas e o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteira, gastaram quase US$ 18 bilhões em 2012 – reforçando o que Janet Napolitano, secretária de Segurança Interna, chama de abordagem sensata à imigração. Segundo ela, tal esforço é necessário para os eleitores apoiarem a abrangente reforma da imigração, incluindo um caminho para a cidadania de parte dos 11 milhões de imigrantes sem documentação.

Porém, em vez de sensata, a abordagem norte-americana à construção de muros tem sido absurda.

Ao longo da fronteira fluvial, os amplos meandros do Rio Grande impossibilitam a construção de uma cerca contínua em linha reta. Assim, as barreiras foram construídas acima do rio – seccionando parte de uma reserva natural aqui, alguns buracos de um campo de golfe acolá e cortando um campus universitário ao meio. Os cidadãos norte-americanos encalhados no "lado mexicano" da divisão interior devem se questionar se agora vivem no México.

Além disso, as barreiras no Texas estão desproporcionalmente localizadas em comunidades pobres e minoritárias – um padrão tão claro que beira o ridículo: os planos de uma cerca, por exemplo, mostram-na terminando abruptamente no limite do imóvel de um bilionário.

Dentro do Arizona, foram estabelecidos pontos de controle nas principais rodovias. Placas indicam o número de prisões feitas e os quilos de narcóticos apreendidos, mas muitos transeuntes simplesmente ficam irritados com as demoras. As agências do governo chegaram para aplicar a lei da imigração, e alguns habitantes do Arizona passaram a dar aos visitantes boas-vindas a seu "estado policial".

Diversos moradores perderam a paciência com um projeto-piloto visando à construção de nove torres de vigilância a norte da fronteira, reclamando que as câmeras estavam apontadas para eles, não para o México. Integrantes da tribo Tohono O'odham, cujo território é dividido ao meio pela fronteira internacional, se sentiram especialmente prejudicados pelo que consideram uma reocupação de suas terras por agentes federais.

Na Califórnia, durante o frenesi de construção da cerca de 2009, conheci um agente da Patrulha de Fronteira e engenheiro de projeto do desfiladeiro Smuggler – cânion profundo nos arredores do Oceano Pacífico onde o Departamento de Segurança Nacional jogou estimados 1,6 milhão de metros cúbicos de terra e depois cercou o aterro para impedir acesso do México. O curso d'água do cânion ainda fluía além da fronteira, então os engenheiros construíram um túnel sob o aterro para permitir a passagem da água. A entrada e a saída do túnel receberam portões, mas o agente previu que em breve os imigrantes o utilizariam para fazer a travessia. "Noventa por cento disto é política", afirmou o engenheiro.

Os residentes da área da fronteira fizeram o possível para se ajustar a esse mundo cada vez mais bizarro. O tempo da travessia primeiro duplicou, depois triplicou, em relação ao necessário antes das cercas, mas as pessoas aprenderam a levar em conta as demoras na duração da viagem. Os noticiários da televisão até mesmo começaram a registrar as demoras em conjunto com a previsão do clima.

Tais ajustes, no entanto, mal e mal aliviam a indignação que muitos norte-americanos sentem em relação à intromissão de barreiras medonhas numa terra que já foi aberta.

Os ajustes diários também não mudam o fato de que a cerca da fronteira está prejudicando um antigo ecossistema humano. A interdependência mútua sempre foi uma marca registrada da vida entre fronteiras. Os moradores de ambos os lados enxergam partes do México e dos Estados Unidos como lar. Para eles, a fronteira é uma membrana conectora, não uma linha de demarcação. Muitas vezes se descrevendo como "cidadãos transnacionais", eles têm mais em comum entre si do que com as nações que os abrigam.

Além dos sentimentos de pertencimento e destino compartilhado, essa "terceira nação", como é conhecida, é apoiada por economias locais sinérgicas. Os Estados da fronteira estão entre as regiões de mais rápido crescimento nos dois países. Ciudad Juarez, antes um município de 1,5 milhão de habitantes, perdeu cerca de 250 mil pessoas que fugiram da violência ligada aos cartéis das drogas para vários locais mexicanos. Entretanto, as indústrias locais continuam a criar empregos, fomentando cerca de US$ 80 bilhões em transações entre Juarez e a vizinha El Paso, Texas, em 2011, um aumento de US$ 10 bilhões em relação ao ano anterior. Em El Paso, a chegada de 30 mil pessoas em busca de refúgio provindas de Juarez provocou uma explosão nos negócios imobiliários e restaurantes.

Instituições transnacionais também reforçam os laços binacionais. Durante mais de um século, a Comissão Internacional de Limites e Água, com representantes dos EUA e do México, supervisionou questões relacionadas à água ao longo da fronteira e apoiou projetos de desenvolvimento conjuntos.

A cerca da fronteira, no entanto, solapa essa cooperação e coesão, ao fragmentar vidas e criar cicatrizes na paisagem. Igualmente, para muitos do que moram aqui, as patrulhas da fronteira, com os aviões teleguiados sempre em observação, parecem mais um exército de ocupação.

Acrescente-se a isso o gasto enorme para manter as fortificações – estimados em US$ 6,5 bilhões no decorrer dos próximos 20 anos – e fica claro que os custos dessas estruturas ultrapassam em muito qualquer benefício que possam oferecer ao impedir a imigração ilegal.

Podemos impedir desperdícios posteriores com a simples demolição da barreira entre Estados Unidos e México hoje mesmo.

Sem dúvida, quer ajamos ou não com audácia agora, ela um dia cairá, exatamente como outras barreiras desmoronaram. O Muro de Berlim foi virtualmente demolido da noite para o dia, tendo seus fragmentos vendidos como lembranças da terminada Guerra Fria. Quando ela for finalmente compreendida pelo que é – a manifestação de uma política de imigração fracassada – nossa cerca da fronteira cairá por obra de moradores irritados, recicladores ávidos e caçadores de suvenires.

Quando isso acontecer, alguém deve preservar alguns trechos para o Instituto Smithsonian, para marcar o momento em que a identidade nacional dos Estados Unidos for novamente definida por algo mais durável do que uma faixa de aço.

(Michael Dear, professor de planejamento urbano e regional da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, escreveu, mais recentemente, "Why Walls Won't Work: Repairing the U.S.-Mexico Divide" – "Por que muros não funcionarão: consertando a divisão entre EUA e México", em tradução livre.)

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