Internacional Tropas australianas mataram 39 afegãos ilegalmente

Tropas australianas mataram 39 afegãos ilegalmente

Investigação descobriu dezenas de episódios de violações de direitos humanos nos 11 anos em que militares australianos estiveram no Afeganistão

  • Internacional | Da AFP

Denúncias foram divulgadas pelo general Angus Campbell

Denúncias foram divulgadas pelo general Angus Campbell

Mick Tasikas / Pool via AFP - 18.11.2020

As forças especiais de elite da Austrália "mataram ilegalmente" 39 civis e prisioneiros afegãos, incluindo execuções sumárias como parte de rituais de iniciação — conforme as evidências de uma investigação militar que agora será enviada para um promotor especial de crimes de guerra.

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Na quarta-feira (18), a principal autoridade militar da Austrália, o general Angus Campbell, admitiu a existência de provas críveis dos crimes cometidos.

"Ao povo afegão, em nome da Força de Defesa Australiana, eu sinceramente e sem reservas peço desculpas por quaisquer atos repreensíveis por parte dos soldados australianos", declarou o general Campbell.

"Algumas patrulhas ignoraram a lei, regras foram quebradas, histórias foram inventadas, mentiras foram contadas, e prisioneiros foram mortos", acrescentou a principal autoridade do Exército australiano.

"Este vergonhoso balanço inclui supostos casos em que novos membros da patrulha foram forçados a atirar em um prisioneiro para cometer seu primeiro assassinato, em uma prática horrível conhecida como 'sangramento'", revelou Campbell.

O relatório também inclui evidências de que as tropas estiveram envolvidas em "competições de contagem de cadáveres" e acobertaram assassinatos ilegais.

O inspetor-geral do Exército produziu esta investigação oficial de 465 páginas sobre eventos ocorridos entre 2005 e 2016, que detalhou dezenas de assassinatos "fora do calor da batalha".

Punições para os responsáveis

O relatório recomenda que 19 pessoas sejam entregues à Polícia Federal da Austrália, que uma indenização seja paga às famílias das vítimas e que o Exército realize uma série de reformas.

Campbell deu um passo além, dizendo que os envolvidos haviam deixado uma "mancha" em seu regimento, nas Forças Armadas e na Austrália, e que seriam encaminhados ao escritório do investigador especial para crimes de guerra.

O general pediu a revogação de algumas medalhas concedidas às forças de operações especiais que serviram no Afeganistão entre 2007 e 2013.

O primeiro-ministro Scott Morrison tentou amortecer o golpe do relatório, garantindo aos australianos na semana passada que se preparem para "verdades cruéis e honestas" contidas no documento, que censura muitos detalhes.

O gabinete do presidente afegão, Ashraf Ghani, disse que Morrison "expressou sua mais profunda tristeza com a má conduta".

O Ministério das Relações Exteriores do Afeganistão classificou as ações do relatório como "imperdoáveis", mas reconheceu sua divulgação como um "passo importante em direção à justiça".

Guerra ao terror

Após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, mais de 26.000 soldados australianos foram enviados para o Afeganistão para lutarem ao lado dos Estados Unidos e das forças aliadas contra os talibãs, a rede Al-Qaeda e outros grupos islâmicos.

As tropas de combate australianas deixaram o país em 2013. Desde então, inúmeros relatos vieram à tona, às vezes brutais, sobre a conduta de unidades de forças especiais de elite.

A imprensa australiana fez eco a várias acusações muito graves contra os militares australianos, como o caso de um homem que foi morto para abrir espaço em um helicóptero, ou o de um menino de seis anos assassinado durante uma busca em uma residência.

O caso foi a público em 2017, quando a emissora ABC divulgou os "Arquivos Afegãos" — uma série de investigações, nas quais as forças australianas foram acusadas de terem matado homens e crianças desarmados no Afeganistão.

Em resposta, a Polícia abriu uma investigação contra dois jornalistas desse canal, Daniel Oakes e Sam Clark, suspeitos de estarem na posse de arquivos confidenciais. A sede da rede em Sydney foi invadida no ano passado, mas o caso acabou sendo arquivado.

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