Internacional Trump e Putin se encontram na Finlândia para acertar agendas

Trump e Putin se encontram na Finlândia para acertar agendas

Em momento de divergências de ambos com a União Europeia, será a mais significativa conversa entre os líderes, desde que Trump assumiu o poder

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Último encontro entre ambos ocorreu em novembro

Último encontro entre ambos ocorreu em novembro

Reuters/Jorge Silva/11/11/17

Em meio a um período de rusgas entre a Rússia e potências ocidentais, os presidentes Donald Trump, dos EUA, e Vladimir Putin, da Rússia, se encontrarão nesta segunda-feira (16), em Helsinque, Finlândia, para uma reunião bilateral que visa acertar a agenda entre os dois países.

Isso significa amenizar tensões entre as duas nações, aproveitando um momento em que ambos têm apresentado queixas em relação à União Europeia, em vários temas, como comércio exterior e estratégia militar.

Nem mesmo a polêmica envolvendo as eleições presidenciais vencidas por Trump, com suposta interferência russa, tem servido para impedir o encontro. Tanto Trump quanto Putin, aliás, por mais divergências que apresentem em outros temas, não têm entrado em um confronto aberto a respeito deste assunto, que veio à tona já no fim de 2016.

Na última sexta-feira (13), o Departamento de Justiça dos EUA anunciou o indiciamento de 12 cidadãos russos, ligados a uma agência de inteligência do Kremlin, acusados de terem hackeado servidores de e-mail e a rede interna de comunicação do Partido Democrata durante a campanha eleitoral de 2016. Isso, no entanto, não deverá ser empecilho para a esperada reunião.

Em termos diplomáticos, será a mais significativa conversa entre os líderes, desde que Trump assumiu o poder, em janeiro de 2017. Nas outras duas reuniões, na cúpula do G-20, em julho seguinte, e na na cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em novembro, com as agendas lotadas, eles não puderam se aprofundar em temas com a envergadura de um encontro bilateral.

Desta vez, a expectativa é de que isso aconteça. Inclusive pelo palco ser um país neutro, que já sediou encontros históricos, como o do então líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o então presidente americano, Ronald Reagan, em 1986. Ambos falaram no âmbito do fim da Guerra Fria, em meio a um processo de abertura que Gorbachev começava a implementar na política soviética.

Questões comerciais e militares

A questão comercial tem sido um entrave entre EUA e União Europeia, que reagiram à sobretaxa de tarifas sobre importação de alumínio, implementadas pelos EUA em abril último. O bloco também sobretaxou produtos americanos, planejando implementar os novos valores em julho.

Questões militares também vêm aumentando as desavença no Ocidente. Na última quinta-feira (12), em reunião em Bruxelas, Trump surpreendeu, ao, alterando a agenda do dia, criticar os aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), pelos insuficientes gastos militares que ele atribui à organização.

Para Trump, os EUA estão sobrecarregados em relação ao orçamento direcionado para este setor.

A Rússia, por sua vez, também se mostra receosa em relação à postura da Otan, aliada em última instância dos EUA que, apesar das críticas, mantêm um discurso de comprometimento com a organização.

Desde o fim da Guerra Fria (1947-1991) foram vários os atritos entre Rússia e Otan, que não se entendem desde que, com o desmantelamento da União Soviética, várias repúblicas antes ligadas à Cortina de Ferro e signatárias do Pacto de Varsóvia, contraponto à Otan e extinto em 1991, se aliaram à entidade ocidental. Foram os casos de países como a República Tcheca, Hungria e Polônia.

A partir disso, divergências se acumularam, inclusive gerando sanções econômicas à Rússia, após a anexação da Criméia e o conflito com a Ucrânia, em 2014, cujo presidente eleito, Petro Poroshenko, em lugar do deposto pelo Parlamento, Viktor Yanukovich, que era pró-Rússia, era aliado da Otan. Outro ponto de desentendimento é o apoio de Vladimir Putin ao regime do presidente Bashar al-Assad na Guerra da Síria.

Também em março último, o envenenamento de um ex-agente duplo russo, Sergei Skripal, e da filha dele, Yulia, de 33 anos, encontrados inconscientes em cidade inglesa, abalou as relações entre a Rússia e o Reino Unido.

Os dois se recuperaram, mas a tensão, que provocou sanções de ambos os lados, com a retirada de diplomatas, ainda permanece. EUA e França foram solidários aos ingleses.

Área perigosa

Há, com isso, a perspectiva de que os dois presidentes utilizem algumas demandas em comum para aparar arestas e, inclusive, mostrar uma certa independência em relação à Otan. Trump, no entanto, não tem a intenção de que essa manobra política abale a essência deu sua aliança com a Europa ocidental.

Mas, para seus aliados, inclusive internos, o americano está entrando em uma área delicada de negociações. O temor é o de que Trump ceda mais do que ganhe. Isso em função de seu comportamento considerado errático e pouco planejado, mostrando uma indefinição em relação às suas reais estratégias.

O presidente dos EUA tem assustado aliados ao abordar a possibilidade da readmissão da Rússia ao G-7 e até deu margem para reconhecer algum grau de legitimidade da Rússia na Criméia.

Diante deste vácuo estratégico de Trump, Putin tenta atingir seu objetivo de recuperar espaço na mesa de negociações sem abrir mão de seus interesses. A começar pelo comércio de GNL (gás natural liquefeito) com a Europa.

O mandatário russo não negocia, por exemplo, o projeto do gasoduto Nordstream 2, entre a Rússia e a Alemanha, no Mar Báltico. Trump criticou recentemente a iniciativa e foi acusado pelos russos de tentar induzir países europeus a comprarem GNL de outras fontes.

Putin também está convicto em manter o apoio ao governo da Síria. Se estas pautas forem respeitadas, ele até poderia fazer algumas poucas concessões no conflito com a Ucrânia.

No discurso agressivo da última semana, contra a Otan, Trump acusou países europeus de comprarem GNL da Rússia, citando inclusive o que ele considera uma dependência da Alemanha em relação a esse produto.

Ele chegou a dizer que a Alemanha era "prisioneira" da Rússia. Trump, no entanto, corre o risco de enveredar pelo mesmo caminho e se enrolar com concessões à Rússia, na avaliação de alguns dos seus aliados.

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