'Ver nossos alunos com medo da deportação nos afeta muito'

Brasileira que coordena a área internacional de uma universidade dos EUA fala com o R7 sobre medida que pode deportar milhares de estudantes

Marcia Salazar-Valentine (centro) e os alunos estrangeiros da Bowling Green State

Marcia Salazar-Valentine (centro) e os alunos estrangeiros da Bowling Green State

Arquivo pessoal

A medida do governo Trump, de ameaçar com a deportação os alunos estrangeiros que tiverem apenas aulas online no próximo semestre, pegou de surpresa não apenas mais de 1 milhão de estudantes que estão no país, mas também os funcionários e professores de milhares de universidades. A decisão seria uma forma de forçar a reabertura delas em meio à pandemia do coronavírus.

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De uma hora para outra, planos para o próximo semestre tiveram de ser mudados e o futuro de muita gente está em dúvida. A decisão divulgada pela ICE, a agência de imigração norte-americana, no último dia 6, coloca em risco cerca de 20 mil estudantes brasileiros.

Incerteza nas universidades

Para a carioca Márcia Salazar-Valentine, diretora-executiva do escritório internacional da Bowling Green State University, uma das principais universidades públicas do estado de Ohio, a decisão do governo traz incertezas para as escolas, apreensão para alunos e pode causar grandes prejuízos para a educação no país. Ela comentou o assunto em entrevista ao R7.

"Ver nossos alunos com medo de serem deportados, mandados de volta para seus paises se o vírus forçar a universidade a reverter para educação online certamente nos afeta e preocupa, pois esses alunos sao parte da nossa comunidade, da nossa familia universitaria. Eles sim sofrem o impacto, mais que as instituições, já sofrem por estar longe de casa e da família", afirma ela.

Em Bowling Green State, Márcia é responsável por cerca de 800 estudantes, vindos de 71 países. Do total, dez são alunos vindos do Brasil. De início, ela acredita que a universidade não terá problemas para mantê-los, mas o temor é que novos surtos de coronavírus levem a um novo fechamento das aulas presenciais.

"Felizmente a nossa universidade já tinha planejado oferecer cursos híbridos no próximo semestre, ou seja, com aulas presenciais e online, portanto estamos preparados para oferecer o tipo de aulas que a nova medida requer. Outras universidades que planejavam oferecer cursos à distância estão precisando se adequar rapidamente", afirma ela.

Questões financeiras

Para Márcia, essa medida pode afetar o setor educativo dos EUA não apenas imediatamente, mas também no médio e longo prazo.

"Certamente terá um impacto não só na nossa universidade, mas no país, ele pode ser percebido como um lugar que não quer alunos estrangeiros. E um número menor de alunos tem um impacto financeiro em qualquer instituição. O aluno estrangeiro contribui para a economia do pais gerando mais de US$ 40 bilhões (cerca de R$ 215 bilhões) por ano", relata.

E não é só a questão financeira que é importante. "Eles fazem nosso campus mais rico culturalmente, com comemorações, apresentações, diferentes línguas, e no interagir do dia a dia com nossos alunos americanos. Muitos desses alunos se juntam à força de trabalho depois de se formarem, fazendo grandes contribuições para a pesquisa científica e tecnológica". 

Para a coordenadora, a pandemia mostrou que o ensino à distância poderia ser ampliado, mas também mostrou os limites desse tipo de educação. "Os alunos sentem falta da interação com outros estudantes e com seus professores. Por isso optamos por oferecer cursos com aulas presenciais, com lugar e hora marcados, e aulas online", conta.

Receio de uma aluna

Uma das brasileiras de Bowling Green é a paraibana Isabel Souza, 28. Ela acabou de concluir o mestrado profissionalizante em Arquitetura e teme ser diretamente afetada, mesmo estando em um período em que o aluno pode trabalhar na sua área por pelo menos um ano,

"A minha maior motivação para vir para os EUA foi a busca por mais conhecimento, de maneira que eu pudesse me tornar uma profissional ainda mais qualificada, e a busca por mais oportunidades. A decisão da ICE me deixou surpresa, porque eles foram muito flexíveis no início da pandemia", conta ela.

Mesmo com o susto, Isabel pensa que a medida do governo pode ser revertida, diante de tantas manifestações das universidades e dos estados. "Acredito que muitas universidades estão fazendo seu melhor para assegurar que alunos internacionais possam prosseguir com seus estudos", espera.

O desafio de aprender uma nova maneira de estudar e lecionar durante a pandemia trouxe lições para a brasileira. "Acredito que os momentos difíceis nos fazem crescer, e posso dizer que esse período me ensinou a ser mais resiliente, flexível e persistente, além de aprender a melhor administrar meu tempo", conta ela.