Internacional Violência na Índia: 'Denunciei meu marido após ele me atacar com ácido'

Violência na Índia: 'Denunciei meu marido após ele me atacar com ácido'

Indiana conta como seu marido a atacou para que ela abortasse a sexta filha do casal

Violência na Índia: 'Denunciei meu marido após ele me atacar com ácido'

Reshma não denunciou as constantes agressões que sofria em casa, até que seu marido a atacou com ácido para que ela abortasse

Reshma não denunciou as constantes agressões que sofria em casa, até que seu marido a atacou com ácido para que ela abortasse

BBC Brasil

A realidade de violência enfrentada por muitas mulheres na Índia ganhou projeção global após o caso, ocorrido em dezembro passado, de uma estudante de medicina de 23 anos que foi vítima de um estupro coletivo em um ônibus na capital do país, Nova Déli.

O ataque, que provocou protestos em todo o país e levou à morte da estudante, forçou as autoridades a introduzir leis mais duras para crimes contra as mulheres. Com isso, apesar de muitas indianas ainda viverem com medo de ataques de estranhos ou mesmo de familiares dentro de suas próprias casas, mais mulheres estão agora tomando coragem e denunciando os crimes sexuais de que são vítimas.

Ataques dentro de casa faziam parte da rotina de Reshma, mãe de cinco filhas e grávida pela sexta vez. Em entrevista à BBC, ela conta que ficou em silêncio por muitos anos em relação à violência de seu marido, até que ele a atacou com ácido.

'Meu marido me tratava muito mal pois eu dei apenas filhas a ele. Ser espancada sem piedade se transformou em uma rotina para mim. Ele queria um filho', disse.

— Quando fiquei grávida pela sexta vez, ele insistiu em um aborto se viesse outra menina. Eu me recusei, e tivemos uma grande briga. Ele jogou ácido em mim, tentando atingir minha vagina e ventre.

Cirurgia

Recentemente, Reshma passou por uma cirurgia para reparar os danos causados pelo ácido. A criança ainda está viva.

A indiana conseguiu atendimento médico apenas quatro dias depois do ataque, depois que seu pai foi visitá-la. Atualmente Reshma vive com a família, que é pobre, na cidade de Kanpur, a cerca de 500 km de Nova Déli.

Os pais de Reshma sabiam das condições terríveis em que a filha vivia com o marido, mas inicialmente eles tinham muido medo de acionar a polícia. Depois, eles ficaram ao lado dela.

O ataque com ácido foi o auge da violência doméstica em um casamento de 15 anos. Enquanto se recuperava do ataque, a indiana de 35 anos decidiu que não queria se transformar em uma mais uma notícia sobre mortes de mulheres.

Reshma então registrou queixa na polícia contra o marido, com cinco acusações de crueldade. Ele agora está em uma prisão aguardando julgamento e nega todas as acusações.

'Mudanças estruturais'

Segundo estatísticas do governo, 1.036 estupros foram denunciados em Nova Déli em 2013 até o dia 15 de agosto. No mesmo período de 2012, foram 433 denúncias.

Em áreas fora da capital, como no Estado de Jharkand, no leste do país, o número de denúncias de estupro também aumentou: de 460 na primeira metade de 2012 para 818, na primeira metade de 2013.

Porém, apesar desse aumento, as condenações por estupro ainda são poucas no país.

Segundo o Escritório Nacional Indiano de Registros de crimes, a taxa de condenação por este crime ficou em 24,1% em 2012, mais baixa do que em 2011.

A polícia, por outro lado, afirma que está colocando mais 400 viaturas nas ruas da capital, Nova Déli e também iniciou um estímulo à contratação de policiais femininas.

Avatar Sing Rawat, policial de Nova Déli, afirmou que o efetivo está sendo treinado para lidar melhor com as vítimas de estupro. 'A polícia está mais sensibilizada agora.'

Ranjana Kumari, uma conhecida ativista pelos direitos das mulheres no país, acredita que a Índia está passando por 'mudanças estruturais' desde o caso do coletivo estupro.

Segundo a ativista, o mais frustrante é que o governo ainda não esclareceu totalmente a questão da responsabilidade quando um crime é cometido contra as mulheres.

— Partidos políticos incluiram a segurança da mulher em seus manifestos. Quando eu viajo para cidades menores, percebo que estão ocorrendo mais conversas a respeito da segurança da mulher, mas precisamos fazer com que o sistema seja mais responsável.

Medo

Nem todas as indianas dizem estar percebendo um avanço contra a violência no país. Quando a noite chega, muitas ainda têm medo de andar pelas ruas de Nova Déli.

Surabhi, 25 anos, precisa usar os ônibus da cidade todos os dias para trabalhar e afirma que não acha que está mais protegida.

— Não quero mudar minha vida por causa de ataques sexuais mas, sim, estou com medo e sempre levo um spray de pimenta em minha bolsa. Homens são agressivos e encontram desculpas para tocar em você.

Em Kanpur, Reshma afirma que não quer que seu marido saia da prisão e acrescenta que está feliz por ter feito a denúncia.

— Sei que denúncias vão salvar muitas meninas no futuro. Somos mulheres e também temos o direito de viver com dignidade. Vou me cuidar e cuidar de minhas filhas.

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