Visita de Dilma deve consolidar o Brasil como principal aliado dos EUA na América Latina

Após fim da crise da espionagem, presidente chega a Washington para se encontrar com Obama

Dilma e Obama se encontraram em 2012 na Casa Branca, antes da presidente descobrir que havia sido espionada
Dilma e Obama se encontraram em 2012 na Casa Branca, antes da presidente descobrir que havia sido espionada REUTERS/Kevin Lamarque

Quase dois anos depois de a presidente Dilma Rousseff cancelar uma visita oficial aos EUA, a mandatária chega ao país para mostrar que a grave crise gerada pela espionagem de conversas entre ela e seus assessores já ficou para trás. A chegada de Dilma em Washington nesta terça-feira (30) é favorável para o Brasil, afirmam especialistas ouvidos pelo R7, mas tem ainda mais benefícios para o governo de Barack Obama.

Se no primeiro mandato de Obama o foco do governo foi o Oriente Médio e a Ásia, agora, a reaproximação com os países da América Latina tem se tornado prioridade, explica Pedro Costa, professor de relações internacionais das Faculdades Rio Branco.

— Nesse contexto, o Brasil é um aliado crucial, primeiro porque já é uma liderança continental e segundo porque tem relações muito boas com esses países que os EUA não tem, é caso de Cuba e Venezuela. O Brasil está trabalhando para a conciliação. É um papel a ser cumprido.

Além da parceria estratégica na América Latina, ter o Brasil como aliado também é benéfico para os norte-americanos em nível mundial, completa o professor de relações internacionais da PUC/SP Geraldo Zahran.

— O Brasil pode servir de elo entre os EUA e outras grandes potências mundiais, como China e Rússia, por exemplo, com quem eles não têm boas relações.

Durante o encontro com Obama, a presidente deverá tentar avançar na negociação de acordos em três áreas principais.

— O intercâmbio pessoal, que envolve a ida de estudantes brasileiros para os EUA e vice-versa; o intercâmbio comercial, que envolve troca de ciência, tecnologia, acordos de inovação, comerciais e bilaterais; e parceria estratégica, como para questões climáticas, tema em que o Brasil é sempre uma referência, pandemias globais, direitos humanos, combate ao Estado Islâmico e, sobretudo, Venezuela.

Dentro desses temas principais, Zahran afirma que algumas medidas favoráveis ao Brasil podem ser anunciadas.

— O setor industrial brasileiro tem os EUA como prioridade de negócios. Nesse encontro poderão ser negociados acordos no setor de exportação de laranja, carne bovina, por exemplo, além de tentar atrair capital estrangeiro para o País. Saindo dos negócios, é possível que haja alguma novidade para o fim do visto norte-americano para brasileiros.

O escândalo da espionagem

Em junho de 2013, foram publicados os primeiros documentos vazados por Edward Snowden, um ex-técnico da NSA (Agência de Segurança Nacional), sobre a espionagem de civis, empresas e governantes de vários países. No Brasil, conversas da presidente, da Petrobras e de cidadão foram monitoradas.

Quando o escândalo veio a público, Dilma decidiu cancelar uma viagem oficial que faria aos EUA em setembro, uma atitude que, na época, foi criticada por muitos especialistas que acreditavam que a presidente havia exagerado na sua decisão. Hoje, a opinião pública sobre o assunto se inverteu, explica Costa.

— O Brasil respondeu a uma violação de soberania. Era preciso dar uma resposta a altura, e essa resposta foi dada. Isso foi uma decisão acertada, porque um país não pode espionar o nosso e tudo ficar como se nada tivesse acontecido. Hoje, é quase unânime na comunidade internacional que foi um absurdo o que os EUA fizeram.

Até hoje, os EUA não se desculparam formalmente pelo ocorrido, mas garantiram à Dilma que seu nome não estava mais entre as pessoas vigiadas. A garantia foi aceita pela presidente, que também busca essa reaproximação com os EUA.

— É muito significativo ela marcar essa visita logo no primeiro ano, primeiro semestre, de seu segundo mandato. Além disso, a escolha do novo ministro das relações exteriores, Mauro Vieira, também mostra a vontade de melhorar as relações com os norte-americanos, já ele é um ex-embaixador brasileiro em Washington.

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