Wexit: O movimento que quer separar a província de Alberta do Canadá

No momento em que o país discute mudanças climáticas e matriz energética, separatismo cresce em província conhecida por sua produção de petróleo.

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 Protesto em favor de oleodutos em Alberta; questão é central para província, mas também para governo federal

Protesto em favor de oleodutos em Alberta; questão é central para província, mas também para governo federal

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Com abundância de gado, petróleo e conservadorismo, a província de Alberta, no centro-oeste do Canadá, às vezes é chamada de "Texas canadense".

O apelido tem um tom pejorativo, mas dá pistas sobre as profundas divisões culturais entre a a província de pradarias e seus vizinhos canadenses.

E, à medida que o debate político sobre as mudanças climáticas cresce no Canadá e a construção de novos oleodutos enfrenta resistência, albertanos se veem cada vez mais frustrados - dando força a antigas rivalidades locais e ao separatismo.

O termo "alienação ocidental" é comumente usado para descrever o sentimento entre canadenses das províncias do oeste - além de Alberta, trata-se de Saskatchewan, Manitoba e Colúmbia Britânica -, que acham que o restante do país, mais a leste, os desdenha ou não leva em conta seus interesses.

Para Barry Cooper, albertano de quarta geração e que compartilha desses sentimentos, a palavra "alienação" não tem nada a ver com a coisa.

 Remoção de árvores para construção de oleoduto em Alberta; província se queixa de descaso por parte do governo federal

Remoção de árvores para construção de oleoduto em Alberta; província se queixa de descaso por parte do governo federal

The Washington Post/Getty Images

"Albertanos e saskatchewanos estão de saco cheio, porque não encontraram uma voz em Ottawa (capital do Canadá)", diz ele.

Como cientista político, Cooper está ligado à "Escola de Calgary", um grupo de acadêmicos da Universidade de Calgary cujo trabalho foca em interesses ocidentais e, em alguns casos, em política conservadora.

Cooper afirma que a divisão entre as pradarias canadenses e a política em Ottawa e Montreal é tanto cultural quanto geográfica.

"É o fracasso em tentarmos entender o outro - não compartilhamos dos mesmos mitos sobre o que é o país", afirma.

Cooper argumenta que a província foi fundada na segunda metade do século 19 por pioneiros que buscavam uma vida economicamente melhor, enquanto em Ontário e Québec (províncias do leste, onde fica o poder político) a elite política e econômica estava ocupada construindo a nação.

O Canadá formou-se como confederação em 1867, mas Alberta só foi incluída em 1905.

"É muito mais uma fronteira (do que uma província)", diz o acadêmico à BBC. "As pessoas que moravam aqui no começo tinham expectativas de autogovernança que todas as comunidades de fronteira têm."

Hoje, preocupações comuns entre albertanos podem ser resumidas em três palavras: representação, equalização e petróleo.

Com 34 assentos, Alberta ocupa apenas cerca de 10% do Parlamento canadense, a Câmara dos Comuns. Mas, economicamente, a província rica em petróleo contribui com 17% do PIB do país.

E há também os pagamentos de equaliação, dinheiro que as províncias recebem do governo federal. Alberta contribui ao fundo com bilhões de dólares por ano, graças a sua economia forte, mas não recebe um pagamento de equalização desde 1965, nem mesmo quando passou por forte crise econômica, entre 2014 e 2016, período de queda no preço do petróleo que levou à perda de mais de 100 mil empregos e a uma recessão.

Desde então, a recuperação econômica foi frágil, sobretudo porque diversos projetos de oleodutos estão no limbo.

Isso deixou muitos albertanos sentindo-se angustiados e ignorados, afirma Peter Downing, fundador de um movimento direitista e separatista.

"Sempre ajudamos outras partes do país em momentos de necessidade", diz ele. "Mas, quando precisamos, fomos apenas chutados de um lado para o outro."

O Wexit

Downing tenta transformar esse sentimento de traição econômica em um movimento político viável, com a criação do Wexit Alberta (Wexit junta "western", ocidental em inglês, com "exit", de saída).

Esse grupo faz campanha para que a província se separe do Canadá e forme um país próprio, possivelmente com alguma outra província do oeste. É uma antiga ideia que ganhou ímpeto no momento em que as relações entre Alberta e o resto do país se deterioraram.

Candidatos separatistas concorrem em eleições da província desde a década de 1930, mas nunca chegaram ao poder, ao contrário de separatistas em Québec.

 O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, tem baixa popularidade na província, algo que remete à política de seu pai nos anos 1980

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, tem baixa popularidade na província, algo que remete à política de seu pai nos anos 1980

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Na eleição estadual de 2019, o Partido da Independência de Alberta recebeu cerca de 13,4 mil votos, ou menos de 1%. Embora esses resultados não indiquem uma grande força política, há sinais de que ela está crescendo, segundo pesquisas de opinião.

Em Alberta, 56% dos entrevistados pelo Environics Institute disseram concordar com a frase "O Canadá Ocidental recebe tão poucos benefícios sendo parte do Canadá que poderia formar um país próprio", um aumento de 28 pontos percentuais em relação a 2010.

Há separatistas em todos os campos do espectro político, mas, em Alberta, eles pendem à direita. Isso se deve em parte a um revival do movimento nos anos 1980, quando o então premiê, o liberal Pierre Trudeau, implementou o profundamente impopular Programa Nacional de Energia, que centralizou o controle do petróleo de Alberta com o governo federal.

Hoje, essa antipatia é dirigida a seu filho, o atual premiê Justin Trudeau, que tenta reeleição no próximo 21 de outubro.

O líder liberal também é bastante impopular na província, tanto por causa de seu pai quanto por sua agenda ambientalista.

O Partido Conservador, liderado por Andrew Scheer, é apontado como potencial vencedor na província.

Planeta x economia

As mudanças climáticas são uma das principais preocupações no Canadá nesta eleição, e Trudeau - que já disse querer fazer diminuir o espaço do petróleo na economia de Alberta - prometeu fazer o país zerar suas emissões até 2050.

Isso coloca todas as atenções na exploração petrolífera albertana, que contribui com 11% das emissões canadenses de gases do efeito estufa.

Duas províncias - Colúmbia Britânica e Québec - já foram à Justiça para tentar impedir a indústria petrolífera de construir oleodutos que passem por seu território.

Ativistas climáticos criticam os oleodutos, mas eles são vitais para a economia albertana e responsáveis por grande parte da prosperidade canadense, argumenta do outro lado Martha Hall Findlay, do centro de estudos apartidário Canada West Foundation.

"Não é que as pessoas daqui sejam menos preocupadas com as mudanças climáticas, mas há tanta desinformação sobre a indústria energética, que o (assunto) ficou muito polarizado", diz.

As batalhas legais com as demais províncias têm atrasado projetos, levando a um aumento no preço do petróleo, que se recuperava de uma baixa no final de 2018.

Esse declínio tem efeito em cadeia na economia da província, diz Trevor Tombs, economista da Universidade de Calgary.

"A recuperação, embora tenha sido robusta em 2017, simplesmente estagnou em 2018, e estamos estagnados há um ano e meio."

Muitos albertanos culpam Trudeau por isso, e o separatista Cooper afirma que, caso o premiê seja reeleito, será "inevitável" que Alberta tente sua independência.

Esse sentimento cresceu tanto que o premiê regional de Alberta, o conservador Jason Kenney, admitiu simpatizar com os separatistas, mas também agregou que "prefere focar em separar (Trudeau) do gabinete de primeiro-ministro".

Ao mesmo tempo, Trudeau também irritou ativistas climáticos ao permitir que o governo comprasse um projeto de oleoduto transmontanhoso em 2018, ao custo de 4,5 bilhões de dólares canandeses. O projeto havia sido suspenso por conta de disputas legais, e Trudeau afirmou que comprá-lo era a única forma de garantir sua construção e de manter firme a economia de Alberta e do Canadá.

A medida poderia ser vista como uma vitória para Alberta, mas Findlay afirma que se trata, na verdade, de um símbolo do fracasso do governo em defender os interesses albertanos.

"Ninguém queria que o governo federal comprasse o oleoduto", diz ela. "Preferíamos ter um ambiente em que a iniciativa privada pudesse ter um projeto assim para construir."