E-mail indica que Vale não estaria pronta para plano de emergência

Cópia da mensagem foi divulgada em livro que conta detalhes da investigação da Polícia Federal sobre o rompimento da barragem de Brumadinho (MG)

Tragédia deixou 270 mortos e desaparecidos

Tragédia deixou 270 mortos e desaparecidos

Pablo Nascimento/R7 MG

Uma troca de e-mails entre diretores e gerentes da Vale, seis meses antes do rompimento da barragem de Brumadinho, na Grande BH, aponta que a empresa não estaria pronta para acionar o plano de emergência para a estrutura que já vinha apresentando falhas.

As mensagens foram obtidas pela Polícia Federal durante as investigações sobre o caso e divulgadas no livro “Brumadinho: a Engenharia de um Crime”, lançado nesta semana, pelos jornalistas Murilo Rocha e Lucas Ragazzi. A tragédia que deixou 270 mortos e desaparecidos e desepejou 10,5 milhões de metro cúbicos de rejeito na natureza completa nove meses, nesta sexta-feira (25).

A indicação do despreparo da empresa foi feita por uma mensagem escrita pelo então gerente de geotecnia da companhia, Renzo Albieri, e endereçada ao seu chefe, Joaquim Pedro de Toledo, gerente-executivo de planejamento e programação do corredor Sudeste. Um geólogo ligado ao setor de gestão de geotecnia e outro gerente da área também estavam em cópia.

Na texto, Albieri relata que no dia 11 de junho de 2018 técnicos instalavam drenos na barragem para retirar o excesso de água do reservatório, conforme indicação de especialistas, quando um problema interrompeu o processo. O relatório indica que após o incidente foi registrado um aumento da pressão do solo e um vazamento de lama na barragem. De acordo com as investigações, durante a madrugada seguinte, cerca de 15  funcionários da Vale e terceirizadas trabalharam para conter o escoamento.  

"Durante sua execução a água juntamente com o ar comprimido, encontrou um caminho preferencial ao qual foi identificado por volta das 15 hs pelo fiscal Vale Ailton Martins, sendo observado o carreamento de sólidos oriundo da perfuração de forma pontual no dispositivo de drenagem superficial próximo ao local de execução do dreno. Assim que observado o fluxo a perfuração foi paralisada e o fluxo reduziu-se a uma vazão muito pequena e sem a presença de sólidos", explicou o gestor.

Após informar o chefe sobre o problema, Albieri destacou no e-mail algumas informações que ele classificou como "observações importantes". Conforme os documentos obtidos pelos autores do livro, junto a delegados responsáveis pelo o inquérito, o gerente relatou que “a percepção da equipe de geotecnia é de que caso fosse necessário acionar o PAEBM a Vale não estaria preparada”.

O PAEBM ao qual ele se refere é o Plano de Ação de Emergência das Barragens de Mineração, documento que indica cada passo que deve ser tomado se houver a elevação do nível de emergência dos reservatórios de rejeito de minério no Brasil. Entre as medidas, tem-se desde o alerta à população à retirada dos moradores de casa.

A reportagem fez contato com a defesa dos funcionários citados para comentar o episódio, mas ainda não teve retorno. Os dois foram afastados de suas funções na empresa, logo apóso início das investigações. Questionada, a mineradora não confirmou se eles já voltaram a fazer parte da equipe.

Relatório enviado por gerente de geotecnia demostra preocupação

Relatório enviado por gerente de geotecnia demostra preocupação

Reprodução / Brumadinho: a engenharia de um crime

Procurada, a Vale informou que o tem para comentar sobre o assunto é o que já foi divulgado no livro dos jornalistas mineiros. Na publicação, a mineradora afirmou que a barragem B1, em Brumadinho, jamais apresentou falhas em sua estrutura e que o plano de emergência da companhia estava dentro das normas previstas.

"Ademais, a Barragem I estava inativa – ou seja, sem receber rejeitos – desde junho 2016. A estrutura também possuía um PAEBM (Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração), em absoluto atendimento aos critérios da portaria DNPM 70.389/2017. O plano, protocolado nas Defesas Civis Estadual e Municipal entre os meses de junho e setembro de 2018, foi desenvolvido com base em um estudo de ruptura hipotética que definiu a mancha de inundação no potencial rompimento da estrutura, sendo esta, portanto, de conhecimento dos referidos órgãos (que, inclusive, lideraram, com o apoio da companhia, os treinamentos relativos ao plano de ação). No entanto, como é usual, o critério para acionamento do PAEBM seria a identificação de sinais prévios de ruptura – o que, contudo, não ocorreu no caso da Barragem I", destacou a Vale.

Nove meses

A tragédia completa nove meses nesta sexta-feira (25), com 18 vítimas ainda desaparecidas. O último corpo a ser identificado foi o de Robert Ruan Oliveira Teodoro, no dia 19 de outubro. O jovem tinha 19 anos e era trabalhava há sete meses como funcionário de uma empresa que prestava serviço para a Vale na mina de Córrego do Feijão.

Veja quem são as vítimas ainda desaparecidas: