Epicentro de tremor foi a 10 km de barragem comprometida da Vale

Apesar da proximidade, a mineradora afirma que o tremor de terra não provocou alterações na estrutura; técnicos da ANM visitam o local

Técnicos da ANM visitam a Mina de Fábrica, da Vale

Técnicos da ANM visitam a Mina de Fábrica, da Vale

Divulgação/CMBH

O epicentro do tremor de terra registrado na noite desta segunda-feira (25), em Belo Vale, na região metropolitana de Belo Horizonte, está localizado a 10,6 km de uma barragem da Vale que está em nível máximo de alerta.

Os cálculos foram feitos pelo R7 com base em dados do Observatório Sismológico da UNB (Universidade de Brasília). A barragem em questão é a Forquilha III, que está em nível 3 — o maior da escala — na classificação de risco da ANM (Agência Nacional de Mineração). Na prática, o número significa que a estrutura tem alguma anomalia que pode provocar seu rompimento iminentemente.

Além da Forquilha III, outros reservatórios do mesmo complexo têm o plano de alerta acionado. A Forquilha I também está no nível 3. Já a Forquilha II e Grupo estão no nível 2 de emergência. Apesar do susto relatado por moradores que sentiram o tremor de terra, segundo a Vale, as estruturas não foram danificadas.

George Sand, professor de geofísica e membro do observatório da UNB explica que, inicialmente, os dados colhidos em 24 estações de monitoramento descartam que o tremor tenha sido provocado por problemas em barragens que ficam na região.

— Aparentemente foi uma atividade sísmica causada por acomodações geológicas que fazem a terra tremer. Isso é comum naquelas áreas.

O especialista destaca que o tremor chegou a 3.2º de magnitude em uma escala que vai até 10º. Segundo Sand, a força do fenômeno não seria capaz de causar rachaduras em imóveis que tenham uma boa estrutura. Isto costuma a acontecer com tremores a partir de 4.5º - que é mais de 32 vezes mais forte do que o registrado em Belo Vale.

Apesar disto, Rafaela Baldí, engenheira especialista em barragens, ressalta que em se tratando de reservatórios de contenção de rejeitos, outros fatores devem ser levados em consideração. O principal deles é a estabilidade da barragem.

A especialista explica que alguns tremores conhecidos como “sismos induzidos” são comuns nas minas de minério, devido a detonações programadas que são rotineiras neste tipo de atividade. Por isto, os muros de contenção são feitos para resistir a alguns abalos. Porém, se a estrutura não tem sua condição de manutenção atestada, os tremores podem causar problemas.

—  Algumas barragens são bem construídas e outras não. Uma que é estável não vai responder ao tremor da mesma forma que outra considerada instável.

Vistorias

A mineradora Vale informou ao R7 que avaliou as barragens que ficam na região do epicentro do terremoto e que não foram constatados danos nas estruturas. Na tarde desta terça-feira (26), representantes da ANM também vão vistoriar o local e a Mina Casa de Pedra, que pertence à CSN e fica em Congonhas, cidade onde os moradores também sentiram o tremor de terra.

Comportando quase o dobro da quantidade de rejeitos da estrutura que se rompeu em Brumadinho, a barragem da mina Casa de Pedra é uma das maiores em área urbana do país. Cerca de 3.000 pessoas moram em bairros do entorno. De acordo com Wagner Nascimento, chefe da divisão de vistoria da ANM em Minas Gerais, as empresas responsáveis pelos empreendimentos já enviaram ao órgao dados sobre o abalo sísmico.

— Tanto a Vale quanto a CSN nos informaram que não houve alterações nas estruturas e agora nós vamos verificar.

De acordo com a Defesa Civil Estadual, não houve registros de vítimas e destruição de imóveis causados pelo tremor. Procuradas pela reportagem, a Vale e a CSN voltaram a afirmar que as barragens seguem sem alterações e que equipes técnicas estão monitorando as estruturas.