Minas Gerais Família de vítima de tortura mora em rua batizada com nome do torturador

Família de vítima de tortura mora em rua batizada com nome do torturador

Deputado Sinval Bambirra teve tímpano perfurado e lesão no cérebro na década de 60

Família de vítima de tortura mora em rua batizada com nome do torturador

Líder sindical contrário à luta armada, Bambirra teve o mandato cassado por iniciativa da Assembleia uma semana após o golpe

Líder sindical contrário à luta armada, Bambirra teve o mandato cassado por iniciativa da Assembleia uma semana após o golpe

Arquivo Pessoal / Família Bambirra

É no apartamento em uma rua sem saída que a jornalista Maria Auxiliadora Bambirra, de 74 anos, escreve o livro de memórias. Apesar dos abusos presenciados, promete a si mesma não encher as páginas de ódio, mas de humanismo. Parece seguir o conselho de Guimarães Rosa: "narrar é resistir". Ela resiste e narra a vida com o marido, o deputado Sinval Bambirra (1933-2003), que foi preso pelos militares dois dias antes do golpe de 1964 e teve o mandato cassado pelos colegas uma semana depois.

Maria Auxiliadora não defende a alteração no nome da rua onde vive: "Ele [delegado] deve ter família, não quero perseguição. Mas a sociedade tem o direito de saber o que aconteceu"

Maria Auxiliadora não defende a alteração no nome da rua onde vive: "Ele [delegado] deve ter família, não quero perseguição. Mas a sociedade tem o direito de saber o que aconteceu"

Alair Vieira / ALMG

Os 14 anos vividos na Alemanha Oriental até a anistia, o exílio no México e a viagem de navio entre Cuba e a Europa já reúnem histórias incríveis, mas Maria Auxiliadora guarda outra impressionante: mora na rua que leva o nome do delegado acusado de torturar o marido. O policial também batiza a medalha do mérito da Polícia Civil mineira, maior honraria da corporação.  

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A rua Luiz Soares da Rocha (veja infográfico), no Luxemburgo, bairro de classe média alta da região centro-sul de BH, ganhou este nome em 1980 logo após a morte do policial. Maria Auxiliadora só descobriu o nome do torturador do marido quando o corretor os levou para conhecer o apartamento, em 2001. Bambirra teve o tímpano perfurado e lesão no cérebro em passagens por seis cadeias de BH, Ribeirão das Neves e Juiz de Fora.  

— Ele nunca falou o nome do torturador e pedia pra eu não perguntar o que aconteceu na prisão entre 64 e 66. Só no fim da vida começou a contar. No dia em que viemos conhecer a casa, se assustou com a placa da rua e me disse: "foi ele".  

Homenagem e denúncias  

A professora da UFMG e assessora da Comissão Nacional da Verdade, Heloísa Starling, defende que torturadores percam a homenagem dada pela prefeitura, mas sejam lembrados pelos atos.  

— A pessoa recebe o nome de rua quando marca a vida da cidade por atos em benefício do local. Para um torturador, a homenagem fica torta. Seria interessante trocar o nome e colocar lá uma placa dizendo que a cidade preferiu trocar o nome de um torturador.  

Arquivos do projeto "Brasil: Nunca Mais", que reúne processos do Superior Tribunal Militar, mostram que Luiz Soares da Rocha foi denunciado por seis guerrilheiros integrantes do Colina, grupo de resistência à ditadura que contou com a participação da presidente Dilma Rousseff. O ex-procurador Geral da República Carlos Fonteles, ex-membro da CNV, acusa Rocha pelo homicídio de um deles, o ex-sargento da Aeronáutica João Lucas Alves. Segundo Fonteles, o suicídio por enforcamento com a calça dentro de uma delegacia em BH foi forjado. O procurador acusa ainda Soares de impedir o acesso da mãe do ex-tenente ao corpo durante uma semana.

Os outros denunciantes são o estudante de medicina Angelo Pezzuti Silva, Murilo Pinto da Silva, Júlio Antônio Bittencourt, Nilo Sérgio Menezes, José Adão Pinto e Lúcio Dias Nogueira. Eles roubaram dois bancos bancos em 69 e foram cercados pela equipe de Rocha após um deles confessar sob tortura o paradeiro do grupo. Na ação, dois policiais foram mortos. Na delegacia de Furtos e Roubos, os guerrilheiros denunciaram ter sido colocados no pau-de-arara e submetidos a choques elétricos, queimadura com cigarros, afogamento, espancamento, sufocamento e simulação de fuzilamento. Luiz Soares da Rocha nunca respondeu na Justiça pelas acusações. Os guerrilheiros que sobreviveram foram condenados.

Polícia defende delegado  

O vereador Edson Moreira (PTN), ex-delegado responsável pela investigação do caso Eliza Samudio, diz desconhecer as denúncias de Bambirra e Fonteles.  

— É uma tentativa de cunho ideológico trocar o nome. Os próprios moradores da rua foram contra. Só tem um livro que fala isso ("Brasil: Nunca Mais"), desconheço outras denúncias e nada comprova a tortura.  

Em gravação no plenário da Câmara, em 2012, a vereadora e delegada Elaine Matozinhos (PTB) fez defesa veemente do colega.  

— Quando entrei para a polícia ele era nosso ícone, era um mito. É um homem que jamais torturou alguém. Resta saber quem passou a informação para que isso saísse no livro. Será que foram os mesmos que roubaram bancos e mataram? Querem imputar crimes que ele não cometeu.  

A Polícia Civil, que entrega anualmente a medalha do Mérito Policial Civil Luiz Soares de Souza Rocha, preferiu se manifestar via assessoria de imprensa. Segundo a corporação, "não há nenhum registro que desabone o delegado".