tragédia brumadinho
Minas Gerais Funcionário diz que engenheira da Vale sabia de danos na barragem

Funcionário diz que engenheira da Vale sabia de danos na barragem

Fernando Henrique Barbosa disse que Cristina Malheiros pediu ajuda a seu pai, também trabalhador da empresa, sete meses antes da tragédia

Fernando perdeu o pai na tragédia

Fernando perdeu o pai na tragédia

Divulgação/Câmara dos Deputados/Will Shutter

O engenheiro da Vale Fernando Henrique Barbosa, que trabalha na mineradora há 18 anos, revelou que a engenheira geotécnica Cristina Malheiros, que seria uma das responsáveis técnicas pela barragem de Brumadinho, sabia dos problemas na estrutura sete meses antes do rompimento que deixou cerca de 300 vítimas. 

Fernando afirmou em depoimento à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de Brumadinho, que seu pai Olavo Henrique Coelho, que trabalhava na Vale há mais de 40 anos em serviços de mina, foi chamado às pressas, "quase de madrugada", para ajudar Cristina a corrigir problemas estruturais na barragem. Olavo é uma das 245 vítimas identificadas pela Polícia Civil de Minas Gerais. Outras 24 seguem desaparecidas. 

"Começou a brotar lama na grama da barragem, no talude. Não foi pouca, não. Foi muita. Do centro para a ombreira esquerda. Se vazou, era porque, por dentro, já estava tudo comido", disse Fernando. 

Segundo o depoimento do engenheiro, Cristina Malheiros teria mandado corrigir essa corrosão da barragem com areia, brita e manta geotêxtil. Olavo comentou com os filhos que a solução era insuficiente e que a barragem estava definitivamente condenada. Segundo Fernando Barbosa, a partir daí a Vale intensificou as simulações de emergência com a comunidade do Córrego do Feijão, mas não removeu o refeitório nem a parte administrativa da empresa, que ficava abaixo da barragem e onde morreu a maior parte das vítimas.

— Foi a Cristina Malheiros que deu o treinamento. Ela mostrou para nós o mapa certinho de onde a lama iria passar. E ela falou: 'se estourar agora, aqui não sobra nenhum'. Por que não mudou o pessoal lá para cima, em Jangada, sendo que lá já tinha escritório e tudo?”, questionou ele. E completou: “Não sei porque ainda não prenderam essa Cristina. Por que ela não comunicou isso e isolou o pessoal do Córrego do Feijão?

Em depoimento à CPI instalada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 16 de maio, Cristina disse não ter visto indícios de alteração na barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Na ocasião, ela disse que esteve na barragem dois dias antes da tragédia com outros 10 engenheiros e que não foram detectadas anomalias. 

Durante a fala, a funcionária da Vale afirmou que não era função dela atestar a segurança da barragem. Segundo a depoente, a responsabilidade era de projetistas da Tüv Süd, empresa alemã contratada pela mineradora e que assinou laudo de segurança da estrutura. 

A engenheira chegou a ser presa provisoriamente em fevereiro. Ela também depôs à CPI da Câmara dos Deputados em maio, e reafirmou ter vistoriado a barragem dois dias antes do rompimento e negou a existência de sinais iminentes de desastre.

O presidente da CPI, deputado Júlio Delgado (PSB-MG) acredita que Cristina seja indiciada pelo rompimento da barragem de Brumadinho. 

— Aqui, a gente já chegou à conclusão de que a Cristina está enrolada até o fundo do poço e vai ser presa de novo. Só que a Vale está querendo jogar a bucha só para cima dela. Ela vai ser indiciada. O problema é que ela não é responsável sozinha", disse.