Minas Gerais Internação de vítimas de barragem por doença mental aumenta em MG

Internação de vítimas de barragem por doença mental aumenta em MG

Estudo feito com atingidos pela estrutura de Fundão, em Mariana, em 2015, levou em conta o número de internações antes e depois do rompimento

  • Minas Gerais | Gisele Ramos, da Record TV Minas

Uma pesquisa realizada por uma estudante de economia revelou que pessoas atingidas pela tragédia de Mariana, a 144 km de Belo Horizonte, estão sendo internadas com mais frequência por transtornos psicológicos, a partir de dois anos após o rompimento da barragem de Fundão, que aconteceu em 2015. 

Os impactos do desastre para a saúde psíquica da população foi tema de um estudo feito por Liz Matsunaga. Ela usou o número de internações e de atendimentos médicos antes e depois do rompimento da barragem. 

Tragédia deixou 19 pessoas mortas

Tragédia deixou 19 pessoas mortas

Reuters / Ricardo Moraes / File photo - 10.11.2015

— Vimos que antes do acidente, tinha em média 1,33 internações por 100 mil habitantes por mês. Depois do desastre, o número passou para 6 internações por 100 mil habitantes por mês. 

A queda da estrutura afetou diretamente 41 municípios nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Além do rastro de destruição que deixou 19 mortos, centenas de pessoas ficaram desabrigadas, além de contaminar a água do Rio Doce e de vários afluentes. 

O estudo foi concluído em 2019, quando a tragédia completou quatro anos. Segundo a pesquisa, o aumento nos números de atendimento para doenças emocionais e comportamentais se intensificou dois anos após o rompimento da barragem .

De acordo com a pesquisadora, estresse, esquizofrenia e depressão são os laudos mais apresentados pelos médicos. 

— Os municípios mais afetados são aqueles perto da barragem de Fundão. Mas nós encontramos aumento no número de casos também em cidades mais distantes. 

De acordo com Liz, a piora na saúde da população não está relacionada só ao que aconteceu no dia 5 de novembro de 2015. Além dos traumas e lembranças negativas, os afetados também sofrem para conseguir seus direitos, previstos em políticas de recuperação e ações compensatórias. 

Programa

O programa de reassentamento, por exemplo, deveria atender 512 famílias, mas elas ainda vivem em lares temporários. O auxílio mensal que deveria ser dado a pessoas que perderam o emprego por conta do desastre, como pescadores e agricultores, só foi viabilizado três anos depois. 

A avaliação negativa se estende ao programa de indenização, que deveria pagar as famílias pelos pertences perdidos. É o caso de Mirella Regina. Ela morava com os pais em Ponte do Gama, a 110 km de Belo Horizonte, distrito que foi devastado pela lama da barragem de Fundão.

Hoje, ela mora em Mariana, em um apartamento alugado pela Samarco. Uma mudança que fez a vida dela perder a graça.

— Não saía de casa de forma nenhuma. Parecia muito violento, mesmo não gostando da casa que eu estava morando, ainda era muito mais seguro do que andar na rua. 

Dias depois do desastre, ela e a família começaram a receber atendimento psicológico. Até hoje dependem de profissionais e remédios para viver.

— Foi um baque porque a gente [família] não entendia direito os cuidados com a saúde mental. Me mandaram para a psicóloga e eu pensei que estava louca. 

Para Mirella, desistir não é uma opção. Mesmo que seja quase impossível fazer planos com tantas incertezas, ela espera por dias melhores. 

— Eu vou ter um horizonte? Eu não sei. Minha vida está travada. A gente continua presa naquela data [da tragédia]. 

Volta das operações

A mineradora Samarco reabriu as portas, na sexta-feira (11), cinco anos após o rompimento da barragem de Fundão. Inicialmente, os funcionários vão testar os equipamentos que serão usados na retomada do processo de mineração da empresa, previsto para acontecer a partir da segunda quinzena deste mês.

O prefeito da cidade, Júnior Duarte, disse que reconheceu a "importância da mineradora na geração de emprego", além de ressaltar que o retorno da mineradora será "positiva para milhares de famílias e, consequentemente, para toda cidade". 

Tragédia Mariana

O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, aconteceu no dia 5 de novembro de 2015. Na ocasião, 19 pessoas morreram e centenas de famílias perderam suas casas. A lama de rejeitos de minério atingiu a bacia do Rio Doce, e atravessou Minas Gerais até chegar ao Oceano Atlântico, no Estado do Espírito Santo. 

Outro lado

Em nota, a Fundação Renova, criada para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, informou que investiu, até setembro, R$ 10 bilhões em ações de recuperação e compensação, além do pagamento de indenizações e auxílios financeiros para cerca de 321 mil pessoas.

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