Queda de barragem em minas
Minas Gerais Laudo comprova alta concentração de metais pesados em lama de barragens 

Laudo comprova alta concentração de metais pesados em lama de barragens 

Onda de rejeitos que atingiu o rio Doce contém chumbo, arsênio e cromo, entre outros 

Laudo comprova alta concentração de metais pesados em lama de barragens 

Samarco não comenta resultados das análises - mineradora afirmou há uma semana que rejeitos continham apenas ferro e areia

Samarco não comenta resultados das análises - mineradora afirmou há uma semana que rejeitos continham apenas ferro e areia

Douglas Guizilini / Air Pix / Divulgação

Uma semana depois do rompimento de duas barragens na cidade de Mariana, na região central de Minas, foi divulgada a primeira análise que comprova alta concentração de metais pesados no rio Doce.

Exames solicitados pelo SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Baixo Guandu (ES) atestam a presença de arsênio, chumbo, cromo, zinco, bário e manganês, entre outros, em níveis muito acima do recomendável (leia o relatório completo aqui). O risco de contaminação da população, no entanto, não seria iminente, segundo especialistas, já que a captação de água no rio foi suspensa por tempo indeterminado.Laudo preliminar da Prefeitura de Governador Valadares já tinha mostrado alta concentração de manganês e alumínio

A mineradora Samarco, responsável pelas barragens, ainda não se posicionou sobre os resultados mesmo após ser questionada diversas vezes pela reportagem do portal R7. Logo após a tragédia, a empresa afirmou que a lama não continha rejeitos tóxicos para os seres humanos por ser composta de “material inerte em compostos de areia”. Desde então, a companhia não apresentou laudos que atestem a ausência de componentes prejudiciais. A Vale, Controladora da Samarco, e participante das ações de emergência, ainda não se posicionou sobre o assunto. 

O Igam (Instituto Mineiro de Gestão das Águas) admite a presença de metais pesados nas amostas coletadas, mas se recusa a informar a concentração verificada nas análises. Após novo pedido da reportagem, o órgão alegou que “está tendo muito cuidado ao informar os dados sobre a qualidade da água no rio Doce” e que os números isolados somente serão divulgados “após a comparação dos resultados obtidos até o momento e a realização dos relatórios definitivos”. 

Leia mais notícias de Minas Gerais no Portal R7

Experimente grátis: todos os programas da Record na íntegra no R7 Play

Entre os índices elevados estão os de arsênio, que apresentou concentração de 2,63 mg/L – o normal seria somente 0,01 mg/L – chumbo, com 1,03 mg/L, sendo que o recomendável é de 0,01 mg/L e manganês, com 61,221, muito acima do 0,1 mg/L adequado para tratamento da água.

Riscos para a população

Professor de saúde coletiva da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e coordenador do projeto Manuelzão, Marcus Vinícius Polignano ressalta que as proporções encontradas podem trazer efeitos graves para o organismo do ser humano em caso de ingestão da água contaminada. 

— Precisamos que o Igam, que é o órgão de gestão do Estado, venha a público colocar esta situação. Tem que desmistificar essa ideia de que a lama não é tóxica. Essa água é imprópria para o abastecimento, estes metais têm efeitos graves que podem provocar até a morte de uma pessoa. Evidentemente que a dose individual letal é diferente dessa dosagem que está diluída no curso d´água. Mas, de qualquer jeito, isso mostra que a empresa mais uma vez mentiu e que, junto com o ferro, veio todos estes elementos.

Ele explica ainda que não há como prever quando a água do rio será recuperada e voltará a ser própria para captação. Para Polignano, os resultados dos exames reforçam a “magnitude e intensidade” da tragédia ao meio ambiente e à população. Segundo o especialista, é necessário aguardar o processo natural de movimento da água para que o material contaminado seja levado adiante. 

— A única alternativa é monitorar a água e ver quanto tempo este processo vai chegar perto de um patamar normal.

O infectologista Marcelo Campos, do Ceprasst (Centro de Estudos e Práticas em Saúde e Segurança do Trabalhador) da UFMG, explica que o risco para o ser humano não é imediato, apesar das altas concentrações de metais pesados, que foram verificados no "pico" da enchente. 

— Esses níveis vão ser diluídos. O que irá definir o grau de risco é o nível em que a concentração começará a estabilizar. Como a captação da água está suspensa, o risco para a população parece muito pequeno.

O rio Doce, entretanto, não terá um futuro próximo animador. 

— O rio morreu, sim. Como ele irá se refazer, a partir dos afluentes e da calha principal, é algo que iremos aprender. 

A desolação é visível na expressão do prefeito Neto Barros (PCdoB), de Baixo Guandu. 

— Encontramos praticamente a tabela periódica inteira dentro da água. Quero ver o que o presidente da Vale vai fazer para ajudar.