Queda de barragem em minas
Minas Gerais Livros escritos por crianças marcam os dois anos da tragédia em Mariana

Livros escritos por crianças marcam os dois anos da tragédia em Mariana

Obras trazem ilustrações sobre o antes e depois do desastre

Livros feitos por crianças marcam os dois anos da tragédia em Mariana

Cinco livros compõem a obra que será distribuída na comunidade

Cinco livros compõem a obra que será distribuída na comunidade

Divulgação / Fundação Renova - Fernanda Rennó

As mortes e o rastro de destruição provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na região central de Minas, completam dois anos, neste domingo (5), e acabaram se transformando em inspiração e otimismo para dez crianças marcadas pela tragédia.   

Nas histórias contadas em cinco livros ilustrados, alunos da Escola Municipal de Bento Rodrigues, varrida do mapa no dia 5 de novembro de 2015, lembram como era a comunidade em que viviam, como foi o dia do incidente e o que esperam para o futuro. As crianças autoras das obras tinham entre 7 e 9 anos na época do desastre.

O caso, que é considerado o maior desastre ambiental do Brasil, matou 19 pessoas. Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), quase 40 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério foram despejados no meio ambiente, poluindo, principalmente, o Rio Doce, que corta a região e deságua no oceano Atlântico, no Espírito Santo. As famílias que tiveram os lares destruídos vivem, atualmente, em Mariana, em casas alugadas pela mineradora Samarco, dona da barragem. A maioria delas se sustenta com uma pensão paga pela empresa.

Professora e alunos se reuniram para lançamento

Professora e alunos se reuniram para lançamento

Reprodução / Facebook - Escola Municipal Bento Rodrigues

Lavynia Beatriz Felipe Silva, hoje com nove anos, relembra dos detalhes daquela tarde que marcaria sua infância. A menina passeava com a avó pelo distrito de Bento Rodrigues, onde morava com a família, quando as duas foram avisadas do rompimento da barragem. Por sorte, Lavynia e os familiares foram resgatados por um caminhão que levou dezenas de pessoas para outra cidade próxima. Um pouco desse drama, ela e os colegas de sala narram no livro "Um Lindo Bento Existiu, mas a Lama Destruiu". Nos outros quatro livros que compõem a obra, os garotos relembram da vida em Bento Rodrigues e revelam as expectativas para o futuro.

— Foi muito difícil para mim. Como não dava para fazer nada, o jeito foi erguer a cabeça e continuar.

Para a dona de casa Cássia Miriam de Souza, mãe de um dos alunos que também participaram do projeto, a iniciativa foi boa para que as crianças pudessem expressar livremente o que sentem, já que algumas delas ainda têm dificuldades para falar sobre o assunto, mesmo com acompanhamento psicológico.

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Textos e ilustrações foram feitos pelos estudantes

Textos e ilustrações foram feitos pelos estudantes

Divulgação / Escola Municipal Bento Rodrigues

O trabalho começou como uma atividade de produção de texto nas aulas da professora Fátima Resende e ganhou outras dimensões. A educadora conta que os próprios alunos se dispuseram a falar sobre o assunto. A empolgação da turma, incentivou a direção da escola a buscar apoio para o projeto que foi batizado de “Bento: passado, presente e futuro”.

— Não é só falar do passado. A proposta é também conversar sobre o presente e a projeção do futuro.

Os livros foram editados e impressos com o apoio financeiro de comerciantes locais e da Fundação Renova, entidade criada para administrar as ações de recuperação da região. De acordo com a diretora da escola, Eliene Almeida, cada um dos moradores da comunidade serão presenteados com uma caixa contendo as cinco edições. O lançamento da obra, que não será comercializada, acontece neste domingo, quando a escola realiza atividades que marcam o dia da tragédia.

Futuro

Além de Bento Rodrigues, parte dos distritos de Paracatu de Baixo e de Gesteira, do município de Barra Longa, também foi arrasada pela lama de rejeitos. Nas três comunidades, 362 famílias ficaram sem onde morar. Um TTAC (Termo de Transação de Ajustamento de Conduta) foi firmado entre o Governos Federal e Estadual, a mineradora Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billinton. O acordo prevê a reconstrução das vilas até março de 2019. As obras devem começar no início de 2018.

Os locais de construção já foram escolhidos pela população. De acordo Fundação Renova, o projeto aguarda aprovação da comissão de moradores e dos órgãos ambientais para ser executado. Em Barra Longa, algumas casas, praças, comércios e escola já foram reformados ou reconstruídos. Em Gesteira, uma escola também já foi entregue aos moradores.

Mesmo 730 dias depois da tragédia, a população atingida ainda chega ao final de cada dia sem ter certeza sobre o futuro. Essa sensação também é refletida nas crianças que escreveram os livros. Apesar da pouca idade, todas elas foram unânimes e pontuais em dizer, nos textos, que temem em ver o novo Bento Rodrigues construído apenas quando forem adultas.

Memórias

Crianças de Paracatu de Baixo farão exposição em Mariana

Crianças de Paracatu de Baixo farão exposição em Mariana

Divulgação / Escola Municipal de Paracatu de Baixo

A Escola Municipal de Paracatu de Baixo, onde estudam as crianças da comunidade também atingida, prepara atividades para marcar a data da tragédia. De acordo com a pedagoga Cíntia Peixoto, a proposta desenvolvida pela professora Angélica Lourenço é superar o sofrimento e focar no resgate da cultura local.

Na próxima terça-feira (7), alunos de nove a 13 anos vão expor quadros em  xilografia feitos por eles em um simpósio que acontece no centro de Mariana. O evento é uma iniciativa do núcleo de saúde que atende crianças e adolescentes da rede municipal de ensino da cidade. Fotografias da comunidade local também estarão expostas no projeto que foi batizado de “Paracatu, sua história, sua gente”.

* Pablo Nascimento, estagiário do R7