Médica taiwanesa da USP integrou missão de resgate de brasileiros 

Ho Yeh Li, ou melhor, a doutora Ho, é uma das melhores infectologistas do Brasil e veio para o país em 1983, onde cursou medicina na USP

Doutora Ho foi convidada para integrar missão

Doutora Ho foi convidada para integrar missão

Arquivo pessoal

À primeira vista era fácil confundir a mulher baixinha, tímida e de olhos orientais com um dos 34 brasileiros repatriados da China. Mas o macacão amarelo usado no voo e os acessórios médicos dentro da Base Aérea de Anápolis, em Goiás, a revelaram como parte equipe médica.

Ho Yeh Li, radicada no Brasil desde 1983, quando emigrou de Taiwan temendo a invasão chienesa, está no topo da lista dos mais conceituadas infectologistas do país, sendo a maior referência no tratamento da febre amarela.

Única médica civil a integrar a missão de resgate de brasileiros de Wuhan, berço do coronavírus no mundo, doutora Ho, como é conhecida, estava numa tarde normal de trabalho, em 4 de fevereiro, quando recebeu um telefonema  do Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Júlio Croda, solicitando a ajuda.

A surpresa com o convite foi tão grande que, no primeiro momento, a infectologista achou que era um trote. Ao confirmar que era verdade aceitou sem hesitar.

— Topei na hora, não quis saber de remuneração pelo trabalho, porque eu acho que todos têm que exercer a cidadania

Improviso

Se, por um lado, a missão à China representou um agradecimento ao Brasil e aos brasileiros, por outro, testou a capacidade de adaptação da infectologista. A primeira preocupação, conta ela, era garantir a biossegurança de todos à bordo, por isso, tão logo ela entrou no avião da FAB se assustou ao perceber que não existiam barreiras físícas entre tripulantes e repatriados.

— Nessa hora a gente improvisa

E a doutora Ho improvisou. Com cortinas de lonas e sacos plásticos limpos fixados com fitas adesivas separando a aeronave em duas partes. Essa divisão definiu também banheiros diferentes para os dois grupos. O cuidado somado às roupas especiais da tripulação garantia a não contaminação.

Outro desafio era garantir a tranquilidade dos brasileiros repatriados.

— Nesse quesito, o grupo de militares já tinha feito tudo que era possível para garantir o conforto dos passageiros, além de ter explicado a eles que não se tratava de um voo normal e que há diferenças em relação a um voo comercial

Essa comunicação clara, por conta dos militares, para a médica, evitou problemas maiores.

A médica admite que integrar uma missão composta só de militares a preocupava, já que nunca tinha trabalhado com eles.

— Eles foram sensacionais. No começo eu realmente não sabia se podia ou não falar com eles, se devia chamá-los pelo grau de patente de cada um, não sei nada disso

Mas bastaram algumas horas de convívio e a civil e militares já falavam a mesma língua.

Vírus no Brasil

Para a infectologista são poucas as chances do coronavírus se espalhar no Brasil, muito menos na proporção que aconteceu na China.

— Os cenários são diferentes. Mesmo na cidade de São Paulo não temos a mesma densidade populacional de Wuhan e no nosso inverno não temos o frio rigoroso como lá

Fatores que a faz acreditar que o país terá menores números de casos e óbitos.

O que não pode acontecer, alerta a especialista, é o país acreditar que os vírus que estão do outro lado do mundo não vão chegar aqui.

— Precisamos estar preparados e nos adiantar para nos capacitar no diagnóstico de novas doenças. Para doenças infecciosas transmissíveis, o diagnóstico rápido nos permite medidas de contenção que reduzam o risco de disseminação

A missão da médica brasileira-taiwanesa não termina com a liberação dos repatriados. Ela é quem responderá aos casos graves que possam ocorrer no Brasil, já que esses pacientes serão todos levados para a UTI coordenada por ela no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

— A unidade já está preparada para assistir a esses pacientes.