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Minas Gerais 'Prefiro mil greves a uma pandemia', diz ex-secretária de educação de MG

'Prefiro mil greves a uma pandemia', diz ex-secretária de educação de MG

Ana Lúcia Gazolla encarou, em 2011, uma greve recorde do setor que durou 112 dias; algumas escolas levaram três anos para regularizar o calendário 

Ana Lúcia Gazzola foi secretária entre 2011 e 2014

Ana Lúcia Gazzola foi secretária entre 2011 e 2014

Divulgação/SEE

O ano era 2011 e a ex-reitora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Ana Lúcia Gazzola, enfrentava seu primeiro grande desafio como secretária de Estado de Educação: uma greve de professores que se tornou a maior da história de Minas.

A paralisação nasceu com a reivindicação dos educadores para o pagamento do piso salarial e durou 112 dias — esse número só veio a ser superado pela pandemia de covid-19. Até esta quarta-feira (5), os alunos da rede estadual estão há 136 dias sem pôr os pés nas escolas. 

A greve impactou a rede estadual de ensino e, em algumas escolas, o calendário demorou até três anos para ser regularizado. Foi preciso contratar professores para dar aulas para alunos do 3º ano (que enfrentariam a prova do Enem) e aulas aos sábados foram algumas das alternativas para minimizar os efeitos da longa greve.

Quase uma década depois, Gazzola dá "graças a Deus" de não estar mais à frente da pasta e garante preferir enfrentar "mil greves a uma pandemia". 

Sugestões

A secretária, que depois de deixar o Governo de Minas dirigiu o Iesalc (Instituto Internacional para a Educação Superior na América Latina e Caribe), instituição da Unesco cuja sede fica na Venezuela, mantém conversas com especialistas e dialoga com a secretária municipal de Belo Horizonte e o prefeito de Três Corações, a cerca de 300 km da capital mineira, onde nasceu, para buscar soluções para a educação durante e no pós pandemia. 

Para Gazzola, um retorno às aulas presenciais ainda neste ano seria "irresponsável", com grande risco de aumento na contaminação e da circulação do vírus e contaminação de profissionais da educação.  

Segundo ela, neste semestre o Governo de Minas deveria investir na intensificação do ensino remoto, principalmente por meio do rádio e parcerias com emissoras de TV privadas. Confira a entrevista: 

Professora, é possível que as aulas voltem ainda neste ano?

Seria uma irresponsabilidade muito grande. Tenho acompanhado os pareceres do Conselho Nacional de Educação, discutido com a secretária de educação de Belo Horizonte, a Prefeitura de Três Corações, minha cidade, além de epidemiologistas da UFMG e do Hospital Felício Rocho. Minha posição é que estamos no meio pandemia, mais ou menos estabilizados, mas ainda em um platô muito alto. Não há a menor possibilidade de voltar no segundo semestre. Dou graças a Deus de não ser secretária de educação. Não há condição de segurança para os profissionais da educação. Os que não são do grupo de risco convivem com quem é. A possibilidade de volta representa um aumento na contaminação, maior circulação do vírus e de contaminação dos profissionais da educação. 

A Secretaria de Educação afirma estar trabalhando em um protocolo para a retomada das aulas. O que deve ser levado em consideração?

A infraestrutura para se fazer um retorno presencial com segurança é muito complexa. Temos que ter menos alunos por aula, todos usando máscara, professores usando máscara e "face shield" [escudo facial que protege todo o rosto]. A máscara impede a interação com as crianças pequenas, que também não conseguem manter o distanciamento social. Tudo é muito complexo e exige altos custos, como medição de temperatura, fornecimento de álcool em gel para todas as escolas. Sem falar na alternação dos horários de recreio, a possibilidade de contaminação pela merenda. É uma tragédia. 

Principalmente no interior, nós temos ainda a realidade das crianças que precisam do transporte escolar, que vivem em zona rural...

E é muito difícil manter o distanciamento também aí. Geralmente, é só o motorista e as crianças. Quem vai manter a criança separada da outra? Quantas viagens vão ter que ser feitas para manter uma ocupação de 25% do veículo de cada vez? Quem controla, quem limpa e desinfeta depois de cada grupo? São problemas operacionais de uma magnitude extraordinária e um risco muito alto. 

Hoje, parte das crianças e adolescentes estão tendo aulas remotas, outras não têm acesso a internet e, às vezes, nem à TV. Como é a questão pedagógica nesse retorno? 

Mesmo a situação da rede privada ou a da rede pública em que os alunos têm um bom acesso a internet, por exemplo, nenhum conjunto de atividades remotas consegue ter a mesma qualidade do ensino presencial. Escola é lugar para gerar comportamentos, valores, destreza, sociabilidade entre as crianças e jovens e os professores. Essa socialização é fundamental e nenhuma atividade remota  compensa isso. Não tenho nenhuma dúvida que, mesmo crianças com acesso a atividades remotas, houve retrocesso cognitivo, sem contar nas condições emocionais, traumas, aumento da violência domestica, desemprego, aumento da ansiedade dos pais, maior tensão na casa, etc. Esses são prejuízos reais mesmo que alunos tenham tido acesso a atividades remotas. 

E no caso dos que nem têm acesso a essas atividades remotas?

Pois é. Outro problemas grande é o número de alunos que não têm acesso nenhum ou acesso precário. O retorno às aulas tem que ser precedido de um acolhimento adequado para enfrentar questões de trauma, angústia, medo, questões emocionais que crianças, jovens e professores estão enfrentando. Essa parte emocional é violenta. Agora, do ponto de vista pedagógico, vai precisar de uma avaliação, um diagnóstico para medir o retrocesso pedagógico e, a partir daí, fazer uma reformulação completa, priorizando os conteúdos que promovem as competências e habilidades mais estratégicas. os calendário serão todos reformulados. O ano letivo de 2020 vai virar 2020/2021, 2021 vai virar 2021/2022. Vamos demorar, pelo menos uns três anos para recuperar. É um processo que vai ter que ser enfrentado nos proximos três anos e não adianta correr. 

A senhora disse que seria uma irresponsabilidade voltar com as aulas nesse ano ainda. O que os gestores devem planejar, então, para esse segundo semestre, até o fim do ano? 

A melhor coisa que os gestores têm a fazer nesse segundo semestre é procurar ampliar as atividades remotas procurando ampliar os meios disponíveis, seja com material impresso, TV e rádio, que é um meio de comunicação poderoso no Brasil. Temos que ser criativos nesse momento. Na rede pública, é grande o número de alunos que não têm acesso a internet, quando têm, é um pacote de dados precário. Tem lugares que não pega sinal da Rede Minas. Na rede pública, tem que fazer parceria com o setor privado, com quem estiver disposto a ajudar a prover alunos com equipamentos necessários e pacote de dados, por exemplo. Nas universidades públicas, de 30% a 35% dos alunos não têm acesso à internet. Na educaçãoo básica, esse número varia de 50% a 100%, dependendo da região. É hora de procurar parcerias com rádios, TVs e tentar utilizar material tambám na internet, aplicativos. É hora de ser criativo. O que não dá é para fazer atividade remota como se o professor fosse "youtuber", gravar um tanto de vídeo como se estivesse na sala de aula. As atividades remotas têm que valorizar muito mais a vinculação com a escola, o desenvolvimento e a compreensão do momento, do que, simplesmente, o aspecto cognitivo. Isso você recupera depois. Mas, você não recupera se não restaurar uma condição emocional de pertencimento à escola. 

E no caso da  greve de 2011, como foi essa recuperação? Os alunos ficaram quase quatro meses sem aulas naquele ano...

Nós levamos três anos, dependendo da escola, para acertar o calendário. Quando as aulas voltaram, por mais que o calendário tivesse sido impactado, não era possível, por exemplo, não dar férias de 15 dias e colocar tudo de aula. Então houve casos que demorou bastante para regularizar. Só que, agora, é o sistema inteiro e, no sistema público, você tem, na melhor das hipóteses, enter 60% e 70% dos alunos com atividade remota e, na pior, 50%. Só que as atividades remotas não têm o mesmo impacto. Agora é geral. Aquela época tinha escola que não parou.

Naquele período, por conta dessa adesão não ter sido homogênea, o planejamento da volta às aulas era mais difícil, porque tinha que ser feito caso a caso?

De jeito nenhum. Antes a questão era de calendário, trabalhista e pedagógica. Agora, é de calendário, sanitária, de segurança e pedagógica. temos uma emergência sanitária absolutamente incerto. Hoje, temos muito mais o que "não se sabe" do que o que "se sabe". Prefiro enfrentar mil greves a uma pandemia. 

A senhora acredita que a volta às aulas só é possível com uma vacina?
Acho que para se ter segurança total, só com vacina. Talvez seja possível em alguns lugares, o Brasil tem N pandemias. Onde houver indicadores de queda drásticas da taxa de contaminação, do npumero de casos de óbitos, de leitos, onde tudo for positivo pode voltar. mas será que vai poder voltar com a presença de todos os alunos? Mesmo que volte apenas os alunos que não tiveram atividade remota, esse número vai ter que ser reduzido. Voltar completamente de forma presencial é impossível. Não há nem espaço físico para isso. Para ser prudente, deveria ser planejada, imediatamente, a ampliação das aulas remotas por rádio, inclusive e, onde for possível, atividades presenciais priorizando quem não teve acesso a atividade remota. Tem que ter muito planejamento. 

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