Nosso Mundo Homem sobrevive por mais de um ano em porão após salvar 6 mil judeus

Homem sobrevive por mais de um ano em porão após salvar 6 mil judeus

Episódio, da Segunda Guerra, possibilitou continuidade de tradicional escola religiosa

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Jacob com a esposa Basia e a filha Ana Michaela

Jacob com a esposa Basia e a filha Ana Michaela

Acervo familiar

Quando o trabalhador judeu, Jacob Sztejnhauer, com cerca de 26 anos, andava entre dois robustos oficiais russos armados, caminhava com passos firmes, ciente do dever cumprido. O ano era 1941, na cidade de Vilna, Lituânia, então pertencente à União Soviética, que mal tomara o país e já via os alemães, em marcha pelo leste europeu, entrarem em seu território.

Caminharam até um denso bosque distante, isolado, de onde podiam ver as luzinhas da cidade brilhando. Silêncio no breu. Só as passadas sobre trilhas de gravetos eram ouvidas. E no momento derradeiro, Jacob se sentiu leve por ter ajudado a salvar mais de 6 mil judeus das mãos dos alemães na Segunda Guerra. Os dois oficiais, sisudos, então, lhe deram a sentença: "Vá, fuja daqui, para bem longe".

A cena, que poderia muito bem ser o início de um filme, é uma parte importante da história, de 29 dias, da qual Jacob foi um dos protagonistas. Neste período, ao lado de um coronel russo (de origem judaica) e do cônsul japonês Chiune Sugihara, ele ajudou os milhares de judeus a fugirem antes de serem capturados pelos nazistas e enviados aos campos de concentração.

Sugihara, em seguida, perdeu suas funções. Anos depois foi visto como herói em seu país, sendo condecorado em 1985, um ano antes de morrer, pelo governo de Israel. De Jacob e do coronel, os fugitivos recebiam autorização para atravessarem a Rússia, em direção ao Japão, onde entravam com o visto concedido por Sugihara. Graças a isso muitos se espalharam por vários países do mundo. Uma parte conseguiu refundar a yeshivá (escola religiosa judaica) Mir em Shangai, na China.

O filho de Jacob, Joy Sztejnhauer, 59 anos, conta que só ficou sabendo do feito do pai aos 36 anos, quando sua mãe, Basia, revelou a um editor de um jornal judaico, do bairro do Bom Retiro, a história. Jacob e Basia deram depoimentos para o documentário "Sobreviventes do Holocausto", do cineasta americano Steven Spileberg, apresentado em 2006.

— Meu pai não gostava de se vangloriar, por isso nunca havia nos contado. Mas essas pessoas arriscaram suas vidas: o coronel, o cônsul e meu pai. Eles fizeram coisas que eram proibidas pela chancelaria, pelo governo, tudo para salvar vidas, fazer algo humanitário, se arriscaram em prol daqueles que estavam querendo fugir da guerra e ter a chance de viver.

Por falar várias línguas (polonês, russo, ídische, entre outras), ele foi escolhido, no sindicato de peleteiros (que era a sua profissão), para ser um dos que davam a aprovação para a travessia pela ferrovia Transiberiana, até navios no Mar do Japão.

De sua parte, contrariando determinação do governo japonês, Sugihara comoveu-se com a quantidade de pessoas que já tomavam Vilna em busca da fuga, e concedeu os vistos de entrada em seu país.

Yeshivá Mir, em Jerusalém, se tornou a maior do mundo

Yeshivá Mir, em Jerusalém, se tornou a maior do mundo

Reprodução/Flickr

O esquema durou 29 dias, até que autoridades soviéticas descobrissem a estratégia. O coronel, que tinha amizades com uma pessoa influente, e Jacob, prosseguiram até que a iniciativa vazasse. E, encenando uma prisão ao lado dos oficiais, ele foi levado, apenas para ter a oportunidade de fugir, após a trama ser descoberta.

Para Joy, um judeu ortodoxo, momentos de opressão como esse devem ser um aprendizado. Mas barbaridades similares ainda teimam em existir, como mostra a situação desesperadora dos rohingya, perseguidos em Mianmar. O filho de Jacob, com isso, faz uma alerta.

— O que aconteceu nestes salvamentos é um exemplo para as atuais gerações, de que não podemos ver pessoas sofrendo e ficar só assistindo. O ser humano tem de muitas vezes tomar atitudes na vida, mesmo correndo risco, mas para poder ajudar outras pessoas.

O porão

No gueto, para onde Jacob voltou, os alemães tomaram o comando. Ele, que passou a descarregar alimentos dos trens nazistas, e seu irmão, Lova, médico do hospital local, viviam de forma precária, com pouca comida. Só conseguiram sobreviver em grande parte por causa de suas funções. Lipman era o outro irmão de Jacob que, assim como Lova, sobreviveu à guerra. Mas, com a aproximação do fim da guerra, os alemães, perto da derrota, começaram a exterminar a população local, o que obrigou Jacob a fugir.

Facilitou o fato de seu quarto estar ao lado do muro. E a admiração de uma polonesa, Stacha, por seu irmão médico. Eles ficaram 13 meses em um porão, com passagens camufladas, pertencente a uma propriedade de Stacha, porque, se fossem encontrados pelos russos, também seriam fuzilados. A moça, uma vez por dia, enviava os alimentos, por uma espécie de vão, por onde também recolhia os dejetos.

A perseguição contra os judeus vinha dos dois lados da guerra. Jacob, Lova e Basia (que também passou um tempo no porão, após ser aceita finalmente por Stacha) ficaram o tempo inteiro enclausurados no local, sem sair, até os aliados finalmente vencerem e diminuírem o ímpeto soviético de exterminar judeus.

Cônsul Sugihara foi condecorado em Israel

Cônsul Sugihara foi condecorado em Israel

Reprodução/Wikipedia Commons

O empresário e físico franco-brasileiro, Clement Aboulafia, 63 anos, formado pela Universidade Paris-Sorbonne, ficou fascinado com o heroísmo que emerge desse episódio. E passou a estudá-lo para usar em suas palestras.

— O que mais destaco é que qualquer um de nós, como o senhor Jacob, tem essa condição, de realizar atos tão grandiosos que podem até mudar a história. Basta se apropriar disso e ter essa consciência. Mesmo quando nos sentimos ínfimos, nosso potencial continua sendo enorme.

A escola religiosa

Parte dos judeus que atravessara a Rússia era formada por membros da yeshivá Mir, fundada em 1815 na Bielorrúsia. Eles chegaram ao Japão, mas, pelo país estar unido à Alemanha na guerra, em pouco tempo foram expulsos. E decidiram ir para Shangai, onde um comerciante judeu iraquiano, Silas Aaron Hardoon, havia construído uma grande sinagoga, que permanecia quase sempre vazia.

Conta-se que ele ouviu ordens de seu falecido pai, em sonho, para realizar a obra e foi aconselhado pelo rabino Meir Ashkenazi a erguê-la. E a verdade é que ela, até então quase sem uso, serviu para abrigar e permitir a continuidade da yeshivá. Hardoon já havia morrido e o único que tinha a chave, segundo consta, era o próprio rabino. Anos depois, a escola se transferiu definitivamente para Jerusalém e hoje é a maior no mundo.

Depois da guerra, Jacob e Basia moraram na Itália, no Uruguai, onde tiveram a filha Ana Michaela, hoje com 64 anos, e se estabeleceram no Brasil até o fim de suas vidas. Jacob morreu em 2003, aos 90 anos, e Basia, em 2014, aos 91 anos.

O homem que lutou contra nazistas e inspirou Museu do Holocausto

Jacob e Basia se conheceram em Vilna, na juventude. O próprio casamento deles, dentro do gueto, já foi um desafio para os limites e a confiança dentro de um casal. O noivo, afinal, chegou mais de quatro horas atrasado, porque estava concedendo as autorizações.

Mas não tomou bronca. Basia aceitou, porque sabia da nobreza da missão. E ficou orgulhosa ao ver o futuro marido, esbaforido, argumentar diante dos presentes.

— Não dava...eu precisava ajudar a salvar aquelas vidas. Era muita gente.

Em tempos de privação, valores corriqueiros, como o ciúme e a picuinha, ficam pequenos diante de multidões lutando pela vida.

E eram tantas pessoas que, já na estação, Sugihara começou a jogar vistos assinados em branco, para que a legião de desesperados pudesse fugir em tempo. Nesses simples papeis, estava a liberdade e a continuidade. Foi uma cena épica. É ela o maior símbolo, a marcar o fim de toda essa história. E dar início a tantas e tantas outras.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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