Nosso Mundo Manifestações contra Reforma da Previdência se tornam o novo desafio de Macri na Argentina

Manifestações contra Reforma da Previdência se tornam o novo desafio de Macri na Argentina

País volta a ter protestos e presidente tenta superar descontentamento com projeto

Manifestações contra Reforma da Previdência se tornam o novo desafio de Macri na Argentina

Protestos na Argentina lembraram outros tempos de dificuldades

Protestos na Argentina lembraram outros tempos de dificuldades

Reuters

A Argentina também está em meio a uma polêmica sobre a Reforma da Previdência. Justamente no momento em que o governo de Mauricio Macri alcançou um alto nível de aprovação popular, o país se deparou nos últimos dias com manifestações das mais intensas contra a administração do presidente.

Recém-vitorioso nas eleições legislativas, que deram à coalizão Cambiemos uma boa base parlamentar, além de eleger a maioria dos governadores, o presidente foi surpreendido com fortes protestos, em fente ao Congresso e liderados por movimentos sociais, jovens ligados ao kirchnerismo e pelos sindicatos CTA e CGT, contrários à votação da Reforma da Previdência local, que seria aprovada na última quinta-feira (14).

Resultado: mesmo com a maioria dos deputados estando a favor da reforma, a sessão teve de ser adiada em função dos incidentes violentos. Deputados da oposição, inclusive, foram contidos de forma dura pelos cerca de 1,5 mil policiais que fizeram a defesa do prédio, chegando a atingir os grupos com balas de borracha.

Para o professor de Relações Internacionais, Pedro Costa Júnior, das Faculdades Integradas Rio Branco, tal episódio mostra que o governo de Macri não caminhava tão tranquilamente quanto se pensava. Ele cita inclusive o equilíbrio na disputa que o elegeu presidente para ressaltar que, mesmo com as vitórias nos últimas eleições legislativas, o país ainda está dividido.

— O governo de Macri já começou desgastado, na verdade. Como no Brasil, a eleição terminou com vitória apertada e ele já iniciou o governo com esse desgaste. A partir de algumas reformas, como a implementação de um tarifaço, isso foi se aprofundando. Essas manifestações contra a reforma da Previdência foram um estopim no sentido de dar um basta a certas políticas do presidente.

Outro ponto ressaltado por Costa Junior é a situação paradoxal pela qual o país passou nesta semana. De um lado, um presidente com aprovação e com base no Congresso. Os 129 votos para a reforma estavam garantidos e o presidente do Congresso, Emilio Monzó, argumentou que estava parando a votação mas que ela, assim que fosse retomada, certamente daria a vitória ao governo. De outro, manifestações intensas da população, comandadas pela oposição.

— Há uma crise de representatividade clara e sistêmica no atual modelo de democracia no Ocidente. É algo que está meio falido. A população elege um Congresso que vota contra os interesses populares. Tal situação tem se repetido e em muitos casos tem provocado esse tipo de situação.

A Argentina, com isso, se depara com um embate entre o velho estilo e o novo, que Macri tenta implementar. O velho, e muitas vezes legítimo, está ligado ao ímpeto democrático intenso que impera na população e que parece ter novamente dado mostras na última quinta-feira.

Nos meses de dezembro, ficou comum a ocorrência de movimentações populares que até derrubaram presidentes, como no caso de Fernando de la Rúa, em 2001, em função do "corralito" (restrição à circulação de dinheiro).

E o novo estilo que Macri busca seria o do consenso pacífico em que, de suas casas, a população acompanha de forma tranquila e segura os atos do governo, confiante em um resultado final positivo.

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Boa parte dessa popularidade de Macri se deve ao apoio das classes média e alta. Mas não há dúvidas de que uma parcela significativa das classes sociais mais baixas também dá sustentação ao governo. Macri tem mantido a maioria dos programas sociais do governo anterior.

Mas, se ele quer passar uma imagem de harmonia ao mundo, conforme ficou evidente na reunião da Organização Mundial de Comércio, ocorrida na mesma semana na Argentina, ele precisa, conforme afirmou Costa Júnior, aliar a popularidade com a representatividade. E equilibrar a voz do povo com o poder do voto dos legisladores.