Coronavírus

Notícias O que se sabe e o que é falso 1 ano após a descoberta do coronavírus?

O que se sabe e o que é falso 1 ano após a descoberta do coronavírus?

A principal certeza científica sobre a origem do novo coronavírus é que ele surgiu naturalmente em outras espécies animais

  • Notícias | Da EFE

Primeira ocorrência do coronavírus foi registrada em mercado na cidade de Wuhan

Primeira ocorrência do coronavírus foi registrada em mercado na cidade de Wuhan

Alex Plavevski/EFE - 06.01.2021

Mais de um ano depois de detectados os primeiros casos de pneumonia de origem desconhecida na cidade chinesa de Wuhan, na China, persistem muitas incógnitas sobre o início da pandemia e uma teoria da conspiração difícil de erradicar: a de que o novo coronavírus é artificial.

Uma equipe de epidemiologistas da OMS (Organização Mundial da Saúde) viajou a Wuhan em janeiro para investigar a origem do novo coronavírus com o trabalho aberto a "todas as hipóteses".

Até o momento, a ciência determinou que a origem foi zoonótica (transmitida a humanos de outras espécies) e que os primeiros casos ocorreram em Wuhan, mas informações relevantes sobre o início ainda são desconhecidas.

Paralelamente aos estudos científicos, inúmeras notícias falsas circularam pelo mundo sobre a origem do SARS-CoV-2 e a doença que ele causa, a covid-19, que ultrapassou 104 milhões de infecções e 2,2 milhões de mortes. Uma das mensagens mais repetidas e espalhadas é aquela que afirma que o vírus é artificial. Quem difunde essa teoria nas redes diz que é uma arma, que foi ampliada com a ajuda do 5G ou mesmo que é extraterrestre.

Certeza da origem natural

Coronavírus provocou uma onda de fake news

Coronavírus provocou uma onda de fake news

Alex Plavevski/EFE

A principal certeza científica hoje sobre a origem do novo coronavírus é que ele surgiu naturalmente em algumas outras espécies animais antes de infectar os humanos. Paradoxalmente, o que os cientistas veem com mais clareza é, ao mesmo tempo, um dos aspectos mais questionados pelas teorias da conspiração: que a origem é artificial e se expandiu acidentalmente (ao escapar de um laboratório) ou intencionalmente.

Toda essa desinformação permeou uma parte importante da sociedade. Na Espanha, segundo levantamento realizado no início de novembro pela consultoria 40dB, 64,9% acreditavam que o vírus foi deliberadamente criado em laboratório.

No entanto, a comunidade científica descarta que o vírus tenha sido fabricado, já que sua sequência genômica reflete uma evolução natural, segundo publicação na Nature Medicine. Um dos cinco autores do estudo, Robert Garry, explicou que o vírus do morcego mais próximo "é apenas 96% semelhante" e "não é possível completar essa distância genética (4%) em laboratório".

Este grupo de cientistas descobriu que as proteínas spike, a parte externa do vírus com a qual entra nas células, têm duas características básicas: o domínio de ligação ao receptor (o gancho) e o local de clivagem molecular (a chave).

A evidência de origem natural foi encontrada verificando como o gancho de proteína evoluiu para se adaptar a uma característica molecular das células chamada ACE2, que regula a pressão arterial. Não havia espaço para engenharia genética nesse caso.

Mentiras sobre vencedor do Nobel

Uma fraude generalizada sobre a criação artificial implica no ganhador do Nobel Tasuku Honjo, cuja identidade foi suplantada em um documento amplamente compartilhado nas redes sociais, em que o cientista japonês supostamente afirma que o vírus foi criado em um laboratório chinês.

Outro ganhador do Nobel, Luc Montagnier, afirmou que o SARS-2 foi artificialmente criado a partir do vírus da Aids, mas disse isso sem fornecer qualquer prova. Sua reputação como cientista já estava em declínio por seu apoio a causas não científicas, como a homeopatia.

O único documento que comparou as semelhanças entre os vírus da Ainds e covid foi uma pré-publicação que foi feita em janeiro de 2020 e que já foi retirada por não ter sido corroborada.

Genoma sequenciado corretamente

Entre as mentiras sobre a origem está também a que nega a maior delas: que o coronavírus não existe como tal, mas é apenas uma nova variante do vírus influenza. Têm sido divulgados textos indicando que o novo vírus não poderia ser isolado ou purificado para ser examinado, mas isso é totalmente falso, pois já foi isolado para sequenciar seu genoma mais de 58 mil vezes.

Por outro lado, o sequenciamento foi feito com suporte de computador, mas isso não significa que o material genético foi inventado por computadores - como outras farsas que se espalharam -, mas sim que a precisão dos computadores é necessária para ordenar as 30.000 letras que descrevem o seu genoma para torná-lo mais legível.

Laboratório Biotecnológico de Wuhan

Trump sugeriu vírus criado em laboratório

Trump sugeriu vírus criado em laboratório

Carlos Barria/Reuters - 20.01.2021

O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump apontou um laboratório de biotecnologia do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, como um possível local de incubação do vírus e disse que tinha evidências, mas nunca as forneceu.

Para a OMS, ainda não há evidências de que esse prédio foi o epicentro da pandemia e o vestígio dos primeiros casos leva a um mercado local de frutos do mar e animais, chamado Huanan, localizado a precisamente 14 km do laboratório de Wuhan.

Essa proximidade encoraja a hipótese de que o novo vírus escapou desses laboratórios, mas, como a revista Nature especificou, "não há evidências" sobre essa relação e "os cientistas acreditam que a fonte mais provável do coronavírus é o mercado de animais".

No campo científico, a publicação mais difundida sobre a possibilidade do novo coronavírus emergir de uma "rota sintética" foi delineada por Li-Meng Yan em setembro na revista Zenodo. Este texto foi amplamente divulgado sem levar em conta que ela não é especialista em virologia, mas oftalmologista, e que se tratava mais de um artigo de opinião, sem evidências científicas, além da publicação realizada por uma fundação ligada a Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump e mentor de conspiração.

Seguiram-se análises de instituições de prestígio que negaram o caráter científico das conclusões a que chegou, o que não a impediu de dar entrevistas em todo o mundo.

Falsas ligações com Bill Gates

Até Bill Gates foi associado a notícias falsas sobre a origem do coronavírus

Até Bill Gates foi associado a notícias falsas sobre a origem do coronavírus

Wu Hong/EFE/EPA

Outra farsa persistente pesa sobre o laboratório de Wuhan: sua ligação com as empresas farmacêuticas que desenvolvem vacinas. Assim, podem ser encontradas mensagens que indicam que é propriedade da Glaxo, que por sua vez é propriedade da Pfizer, empresa multinacional supostamente propriedade de grandes fundos como BlackRock e Vanguard e com ligações a George Soros e Bill Gates.

Esta suposição cai desde o primeiro elo, já que o Instituto de Virologia de Wuhan é propriedade da Academia Chinesa de Ciências, do governo da China, e embora tenham acordos de cooperação com projetos na França ou nos Estados Unidos, nenhum dos dois é com a GlaxoSmithKline (GSK).

Também não é verdade que a GSK é propriedade da Pfizer e a única relação mútua é uma subsidiária conjunta que eles criaram para a área de consumo. Já os fundos de investimento Vanguard e BlackRock têm ações da Pfizer e da Microsoft, mas são minoritários e semelhantes à sua participação em centenas de empresas de outros setores.

De acordo com outra farsa amplamente divulgada, o Instituto Pirbright, financiado por Bill Gates, teria patenteado o coronavírus que causa a pandemia atual em 2015, mas essa patente se refere a uma forma atenuada de coronavírus que afeta apenas galinhas e não tem nada a ver com com o surto de Wuhan.

Paciente zero não tomou sopa de morcego

A maior certeza da origem do vírus é a zoonose e a pista se perdeu no mercado de Huanan, onde se vendiam frutos do mar, peixes, faisões, cobras e outros animais comestíveis.

Ao contrário do que muitos memes proclamam, a sopa de morcego não é um prato típico em Wuhan, embora seja na ilha da Micronésia de Palau, de onde vieram alguns dos vídeos compartilhados.

A ingestão de morcegos em Wuhan seria estranha, mas esses dados pouco importam. Em primeiro lugar, porque a zoonose não precisa ser comida pelo animal no qual surge um novo vírus; a proximidade física é suficiente.

Além disso, os cientistas acreditam que o vírus provavelmente se originou no morcego, mas residiu em outra espécie antes de infectar humanos. Esse foi o caso com coronavírus anteriores, como civetas no SARS-1 e camelos no MERS. Para o SARS-2, o animal intermediário mais provável é o pangolim.

Os produtos congelados importados foram vendidos no mercado de Huanan, fato apontado pela mídia chinesa, que sugere que o novo coronavírus tenha surgido em outro país, com evidências como a descoberta do vírus na carne bovina argentina que chegou a outro mercado semelhante.

Hipóteses cósmicas

Se na China há muitas informações sobre a origem em outro país, outra teoria a coloca mais longe, no espaço sideral. A astrofísica de origem no Reino Unido e Sri Lanka Chandra Wickramasinghe acredita que o coronavírus poderia ter chegado por meio de um meteorito que caiu na China em outubro de 2019, embora não tenha fornecido evidências consistentes. A hipótese sequer repercutiu entre a comunidade científica.

Outras teorias da conspiração estão igualmente longe de solo científico, como a que sustenta que as redes de telecomunicações 5G espalham o vírus, para o qual é fisicamente impossível viajar por redes de rádio ou telefonia, explicam os especialistas.

Militares e políticos de vários países espalharam, sem apresentar provas, denúncias de que o novo coronavírus foi criado como arma de guerra. Assim, a China e os Estados Unidos têm como alvo um ao outro. E o líder supremo iraniano Ali Khamenei também culpou Washington.

Portanto, embora as origens do sétimo coronavírus descoberto não sejam totalmente claras para a ciência, a verdade é que muitas falsidades têm circulado sobre aspectos relacionados ao seu surgimento que são descartados cientificamente.

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