A luta diária e ritmada de Mestra Joana

Única mulher no comando de uma nação de maracatu de baque virado, a pernambucana tem ajudado na formação de crianças e adolescentes que lutam para serem protagonistas de suas próprias histórias

Única mulher no comando de uma nação de maracatu de baque virado, a pernambucana tem ajudado na formação de crianças e adolescentes que lutam para serem protagonistas de suas próprias histórias

Única mulher no comando de uma nação de maracatu de baque virado, a pernambucana tem ajudado na formação de crianças e adolescentes que lutam para serem protagonistas de suas próprias histórias

Folha de Pernambuco

Com um apito na boca, Joana D’arc da Silva Cavalcante perpetua e renova uma tradição deixada por seus antepassados. Aos 41 anos de idade, ela é a primeira e única mulher a comandar uma nação de maracatu de baque virado no Brasil. Na comunidade do Bode, localizada no bairro do Pina, na Zona Sul do Recife, Mestra Joana conduz as batidas dos tambores do grupo Nação do Maracatu Encanto do Pina, ao mesmo tempo em que levanta importantes bandeiras sociais.

O ritmo do maracatu e o candomblé estão presentes no DNA de Joana. Sua bisavó, a mãe de santo Maria de Sônia, fundou a Nação do Maracatu Encanto do Pina em 1980. O pai, Manoel Cândido, foi o mestre de apito até 2008, quando precisou deixar o cargo por motivos religiosos. "As yalorixás jogaram os búzios e os orixás autorizaram que eu assumisse o baque da nação. Eu já vinha na organização das roupas e adereços e essa foi mais uma função que assumi", conta.

Mesmo com o aval das lideranças religiosas de sua comunidade, Joana enfrentou dificuldades para ser aceita como mestre. "Muitos batuqueiros mais antigos saíram do Encanto do Pina quando eu assumi. Eles deram as costas ao grupo pelo fato de uma mulher ter assumido aquele posto de comando. Naquela época, os mestres de algumas outras nações também fizeram críticas. Foi uma época bem tensa", relembra.

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A resistência enfrentada dentro do maracatu, no entanto, só fez com que Joana tivesse mais certeza de que aquela era uma posição que ela deveria ocupar. Em resposta ao machismo, ela criou o Baque Mulher, grupo formado apenas por batuqueiras, lutando por igualdades de direitos e empoderamento feminino. O movimento se espalhou pelo Brasil e, hoje, conta com mais de 200 integrantes, presentes em diferentes estados.

"Quem nasce e cresce dentro de um contexto machista, muitas vezes, não consegue identificar a opressão e a violência. Quando nos juntamos com outras mulheres, nos fortalecendo e dividindo as nossas dores, conseguimos perceber e combater as coisas do cotidiano que nos machucam tanto", afirma.

Joana trabalhou por um bom tempo como vigilante, mas há cinco anos se dedica exclusivamente ao Encanto do Pina. Suas atividades incluem aulas ministradas no país e no exterior. Seu maior orgulho, no entanto, é observar os frutos colhidos através do trabalho desenvolvido dentro da própria comunidade. "Hoje a gente consegue ver jovens, crianças e adolescentes que lutam para serem protagonistas de suas próprias histórias, se aceitam enquanto negros e amam o cabelo crespo. Formamos batuqueiros e batuqueiras que estão pelo Brasil inteiro dando oficinas, ensinando tudo o que eles aprenderam aqui dentro", comemora.

O maior sonho de Joana, neste momento, é ver a reforma da sede do Encanto do Pina finalmente concluída. Para isso, o grupo lançou uma campanha de financiamento coletivo, através da plataforma digital Catarse, com a meta de arrecadar R$ 63.500. Os interessados também podem ajudar por meio de depósito bancário ou doando materiais de construção. Informações: (81) 99786-2207.