Blocos líricos: tradição que requer o frescor de novas composições

Com o saudosismo como essência, blocos líricos atraem multidões mas não inserem novos públicos

Com o saudosismo como essência, blocos líricos atraem multidões mas não inserem novos públicos

Com o saudosismo como essência, blocos líricos atraem multidões mas não inserem novos públicos

Folha de Pernambuco

Entra ano, sai ano, e lá estão os foliões sedentos em esbravejar pelas ruas do Recife que, sim, temos "o Carnaval melhor do meu Brasil" ou que “somos madeira de lei que cupim não rói”. Getúlio Cavalcanti e Capiba, respectivamente, foram felizes quando pensaram nesses versos, entoados (sempre) como se fosse a primeira vez, em todos os dias da Folia de Momo que, com lirismo e delicadezas, passeiam pelas ruas entregando o saudosismo do cancioneiro do Bloco das Flores, Bloco da Saudade, O Bonde, Cordas e Retalhos, Eu Quero Mais e Flor da Lira, entre tantos outros, que permanecem a arrastar multidões e encantar quem assiste aos desfiles.

No entanto, há quem deseje levar para o ritmo levado por banjos, violões, cavaquinhos, bandolins e vozes, uma espécie de frescor, fato sentido por compositores do ritmo pernambucano que reconhecem a necessidade de renovação. "Não tem quem ensine novos frevos às gerações, atuais, por isso as repetições com as músicas de sempre", contesta o maestro Edson Rodrigues, 77, homenageado da festa este ano, junto ao Bloco das Flores. Ele, aliás, garante ter mais de 150 composições registradas por ele, em um caderno.

Assim como o maestro, o compositor Bráulio de Castro, também sente falta de novidades do ritmo pernambucano no Carnaval. "Para os próximos, já há um movimento com músicas novas", promete. Letrista de frevos conhecidos e outros, nem tanto, fato que ele próprio atribui à falta de incentivo, em uma conta rápida ele garante ter, pelo menos, "mais de 60 frevos de bloco gravados e não tocados".

"No Recife da década de 1960 havia um movimento de blocos forte na época, frequentado por um público mais maduro. Hoje esses mesmos blocos têm atraído públicos mais jovens, que também gostam de acompanhar. Mas as letras repetidas não atrai o público jovem e a continuidade disso, com renovação, requer, por exemplo, um concurso de novos frevos", sugere.

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Já para Cid Cavalcanti, presidente e fundador de O Bonde, a memória dos carnavais da agremiação, prestes a completar três décadas de história, integra a essência dos brincantes que vão além dos desfiles e vivem a nostalgia que remete ao transporte que dá nome ao bloco e é simbolizado no flabelo. "Temos o que há de mais contemporâneo e moderno para ressaltar a tradição, mas com nossa identidade visual", enaltece ele, que, no dias de folia comanda aproximadamente cento e vinte componentes - entre participantes, orquestras, coral e grupo de clarins, que cumprem programação extensa. Amanhã eles seguem pelas ruas do Bairro do Recife com a La Ursa, um incremento às particularidades teatrais apresentadas pelo bloco nos desfiles, sempre levados por cancioneiros clássicos, autorais e recitativos.

"Eu não vou deixar acabar"
Aos 69 anos, Janete Fernandes afirma, sem titubear que se estiver doente, fica boa assim que começam os primeiros acordes do Carnaval, mais precisamente os do bloco O Bonde - antes, ela seguia os passos do Bloco da Saudade. Integrante da agremiação há pelo menos quinze anos, ela acompanha a folia do começo ao fim, e faz questão de dizer que é "sem parar". "É assim que me sinto feliz", ressalta ela, viúva e mãe de três filhos, que não a acompanham na folia. "Eles não puxaram a mim", lamenta. Encarregada de confeccionar as roupas dos integrantes, ela também se veste a caráter todos os anos e segue a agremiação pelas ruas do Recife e de Olinda, mesmo morando em Jaboatão e pegando transporte público para chegar ao desfile.

"Também vou para o meio da multidão no Galo, mas é no frevo de bloco que eu me entrego. Isso não vai acabar, porque não vamos deixar. Eu não vou deixar acabar . Sei todas as letras e aprendo o que vier para cantar, porque tenho muito apego pelo Carnaval e pelo bloco. Os tempos mudaram, eu sei, mas as coisas boas permanecem e até quando eu puder, vou acompanhar", promete a foliã, com entusiasmo de quem acabou de conhecer a folia de Momo no Recife.