Folha de Pernambuco Dia Internacional de luta contra LGBTfobia: futebol como lugar para torcer, resistir e se orgulhar

Dia Internacional de luta contra LGBTfobia: futebol como lugar para torcer, resistir e se orgulhar

Receio de violência insiste em inibir LGBTs no futebol, mas corrente para desconstruir preconceito se fortalece

Receio de violência insiste em inibir LGBTs no futebol, mas corrente para desconstruir preconceito se fortalece

Receio de violência insiste em inibir LGBTs no futebol, mas corrente para desconstruir preconceito se fortalece

Receio de violência insiste em inibir LGBTs no futebol, mas corrente para desconstruir preconceito se fortalece

Folha de Pernambuco

Uma batalha, muitas vezes, vivida em silêncio. Por medo ou falta de apoio. Há quem crie uma nova “identidade” para, durante algumas horas, encaixar-se em um lugar que deveria ser de todos, mas que ainda é tomado por condutas discriminatórias. Para eles, o esporte é um espaço para torcer e, sobretudo, resistir. Marcar presença, mesmo diante de olhares de aversão. Um combate em que o objetivo não é derrotar o inimigo. O propósito é conscientizá-lo, pregando respeito e liberdade.

Nesta sexta-feira (17) é celebrado o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, e a Folha de Pernambuco inicia uma série de matérias, com duração até segunda-feira, abordando os impactos do preconceito contra os LGBTs em um dos ambientes mais machistas da sociedade: o futebol. Como diz o ditado dos boleiros, “tabu existe para ser quebrado”.

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O Brasil é o país com mais registros de homicídios de pessoas transexuais e transgêneras. Nos últimos 55 anos, mais de oito mil pessoas foram assassinadas por conta da orientação sexual. Os dados gerais são assustadores, inibindo muitas vezes a participação de gays e lésbicas em áreas onde a discriminação é mais latente, como no futebol.

Boa parte dos cânticos das torcidas tem alguma provocação de cunho homofóbico. Mas alguns comportamentos de atletas e clubes também ajudam a tornar o debate sobre o preconceito sexual ainda mais necessário. A camisa “24”, de número popularmente atrelado ao veado, por conta do jogo do bicho, é evitada pelas equipes brasileiras. O ex-jogador Emerson Sheik foi ameaçado e obrigado a pedir desculpas para os corintianos por conta de um “selinho” dado em um amigo. “Aqui é lugar de homem”, frase que tinha em uma das faixas. Fora os apelidos de alguns clubes dados pelos rivais, como “Bambi” (São Paulo), “Barbie” (Náutico) ou “Florminense” (Fluminense).

O País até já teve algumas torcidas específicas de LGBTs, como a Coligay (Grêmio) e Flagay (Flamengo), porém, após ameaças, os torcedores optaram por encerrar os grupos. Atualmente é mais comum encontrar grupos que se reúnem em redes sociais para debater o tema. Há alguns específicos, como Galo Queer (Atlético/MG), Queerlorado (Internacional) e Palmeiras Livre (Palmeiras), entre outros. Todavia, a ideia de reunir várias pessoas para irem juntas ao estádio, mostrando-se abertamente o apoio à causa LGBT é um desafio que esbarra no receio da violência.

"Já fui para alguns jogos com ex-namorados e precisei fingir que éramos amigos, sem demonstração de afeto. Se desconfiarem de algo, você será ofendido. O futebol não é uma Ilha: ele é um reflexo da sociedade. Precisamos educar primeiro e não apenas se contentar em cobrar multas por atos homofóbicos", disse o torcedor do Palmeiras, William de Luca, de 32 anos. Ele ficou famoso no ano passado ao manifestar seu incômodo com alguns alviverdes que entoavam cânticos preconceituosos contra são-paulinos. “Depois desse episódio, recebi algumas ameaças dos próprios palmeirenses, divulgando minha imagem em alguns grupos. Por isso tenho algumas restrições quando vou para os jogos. Sou ativista, mas não quero ser mártir”.

Em Pernambuco, o mais próximo de uma associação de torcedores gays foi a iniciativa organizada pelo assistente social Alexandre Pereira. “Temos um grupo, o LGBT Zona Norte, e reunimos alguns membros para lançar as primeiras torcidas gays de Pernambuco. Chegamos a criar uma bandeira, com o símbolo dos três clubes, e fomos para a Ilha do Retiro e Aflitos. Ficávamos perto das organizadas por questão de proteção. Havia uma cumplicidade tímida. Mas depois o movimento enfraqueceu”, disse.

Para o antropólogo Wágner Camargo, que estuda sexualidade e gênero nos esportes, o problema está enraizado na "prerrogativa cultura de torcer", atrelada à piadas e cânticos homofóbicos para provocar o adversário. "No ambiente do estádio, muitos podem não ser preconceituosos, mas acabam reproduzindo a fala de quem é. Essas pessoas querem ser aceitas e acabam perpetuando a discriminação, passando o comportamento para outras gerações”, afirmou.

Ainda de acordo com Camargo, há uma relação de “ganho e perda” dos torcedores que procuram ocultar a homossexualidade. “Ao tentar se fingir de hétero, você se coloca dentro de um modelo cobrado pela sociedade, ficando ‘invisível’ aos preconceituosos. Porém, desse jeito não há como legitimar seu lugar naquele espaço. É preciso fazer com que a sociedade aceite o 'diferente', seja ele em termos de raça, corpo ou gênero."

Dados sobre homofobia

Dados sobre homofobia

Folha de Pernambuco

Dados sobre homofobia - Crédito: Arte FolhaPE