[Entrevista] Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho: os criadores de um marco no cinema brasileiro

Entrevistados pela Folha de Pernambuco, os diretores pernambucanos viveram um ano de conquistas em 2019, graças à boa repercussão alcançada pelo filme 'Bacurau'

Entrevistados pela Folha de Pernambuco, os diretores pernambucanos viveram um ano de conquistas em 2019, graças à boa repercussão alcançada pelo filme 'Bacurau'

Entrevistados pela Folha de Pernambuco, os diretores pernambucanos viveram um ano de conquistas em 2019, graças à boa repercussão alcançada pelo filme 'Bacurau'

Folha de Pernambuco

Mais de 700 mil pessoas foram aos cinemas, no Brasil, para assistir a "Bacurau". O filme abocanhou prêmios em festivais importantes, como o de Cannes e o de Munique, e, embora tenha sido desbancado por "A vida invisível" como indicado para representar o Brasil no Oscar, foi o longa-metragem brasileiro que mais repercutiu ao longo de 2019. Por trás de todo esse sucesso, está a dupla de cineastas pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que repetem uma parceria longeva nas telas. Nesta entrevista concedida à Folha de Pernambuco, os diretores falam sobre a trajetória do filme, fazem um balanço do ano para a produção audiovisual brasileira e revelam possibilidades para o futuro.

“Bacurau” estreou comercialmente em agosto e ainda segue em cartaz em algumas salas de cinema espalhadas pelo Brasil. Essa longevidade que o filme atingiu foi uma surpresa?

Kleber: Uma coisa que sempre me interessou é observar os filmes nas salas de cinema e como alguns títulos alcançam longevidade. Eles têm um impacto no público e eu só me sinto muito sortudo em ter feito alguns assim. Se você pegar “O som ao redor”, dentro de uma escala bem menor de lançamento, vai ver que ele teve uma carreira muito forte, “Aquarius” mais ainda e, agora, “Bacurau” dobrou os números anteriores. Eu não sei explicar. Estamos encerrando um ano muito forte para todo mundo que participou desse projeto. Pelas contagens das empresas aéreas, eu e Juliano viajamos cerca de 300 mil milhas, cada um, ao redor do mundo e pelo Brasil, mostrando o filme, participando de debates, lançamentos e dando entrevistas. Paradoxalmente, foi um ano muito ruim para o nosso País, de retrocessos não só através da incompetência, mas também por um desejo de destruição. E aí, nesse mesmo momento, surge um filme que questiona a estupidez, zomba da burrice e ataca o preconceito. Acho que tudo isso, talvez, explique a repercussão na cultura que se transformou "Bacurau”.

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Juliano: Quando você faz um filme, não tem a menor ideia do que vai acontecer com ele. É muito surpreendente o impacto cultural que "Bacurau" teve. O longa foi adotado com muito carinho por muita gente. Tem o fator também de ser um filme de gênero, algo que normalmente não se faz no cinema brasileiro. Temos a cultura de achar que o Brasil não sabe fazer filme de aventura, ação ou horror. Normalmente, na terceira ou quarta semana de exibição, os filmes brasileiros já saíram de cartaz, independentemente do tamanho deles. A paixão que “Bacurau” gerou nas pessoas que foram ao cinema fez com que ele sobrevivesse por tantas semanas. É realmente um fenômeno que transcende as bilheterias. Os personagens já fazem parte do imaginário do público de cinema brasileiro.

A premiação de “Bacurau” no Festival de Cannes, em maio, foi um momento histórico para o cinema brasileiro. O que essa vitória representou para vocês?

Kleber: Premiações fazem parte da atividade cultural e, certamente, terminam trazendo reconhecimento, destaque e divulgação ao seu trabalho. Minha relação com prêmios é tranquila. Eu realmente não me preparo para ganhá-los, mas entendo que quando isso acontece pode ser importante. Certamente, para o cinema pernambucano, foi um fato inédito, como havia sido já a competição de “Aquarius” em 2016. Foi um momento muito importante para mim e também para as 200 pessoas da equipe que fizeram “Bacurau” e já durante a filmagem estavam entendendo o que era aquilo. É o cenário perfeito: uma quantidade gigante de trabalho que finalmente é reconhecida, ainda mais num ano em que a cultura brasileira tem sido tão atacada. Eu tenho dito, inclusive, que esse foi o ano errado para tentar acabar com o cinema brasileiro. Acho que a gente teve o melhor ano da história do nosso cinema. Esse reconhecimento internacional e até de público aqui no Brasil apresenta um confronto entre a realidade, que é de que o cinema brasileiro é muito forte e vem sendo construído através de políticas públicas há 15 anos, e a mentira, representada pela falta de conhecimento do atual governo sobre a cultura feita no Brasil. Então, acho que os prêmios também são um tratamento de choque.

Diretores de

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Diretores de "Bacurau" em Festival de Cannes - Crédito: Valery Hache/AFP



Foi decepcionante para a equipe de “Bacurau” não ver o filme sendo escolhido para representar o Brasil no Oscar?

Juliano: Acho que o Oscar tem um impacto forte na sociedade, mas para mim ele não tem tanto valor, sendo bem sincero. Eu acho que seria bom para “Bacurau”, porque chamaria ainda mais atenção para o filme. Mas eu não coloco tristeza nessa equação. Acho que todos esses festivais e lugares de debates sobre o filme são importantes. O Oscar, do ponto de vista do mercado, talvez seja o mais relevante. Mais do que nunca, o que precisamos é fazer com que o público brasileiro confie mais na qualidade da produção de cinema do Brasil. A gente faz muitos filmes bons, mas ainda sofremos um pouco de preconceito em relação ao cinema de Hollywood. Isso é algo que diz muito sobre como o brasileiro se vê, o que é uma pena.

Pedidos de sequência e spin-off de “Bacurau” são muito comuns entre os fãs do filme nas redes sociais. É possível que esses desejos sejam realizados?

Kleber: A gente tem um sentimento muito bom em relação a “Bacurau” e essa reação que vem do público traz uma energia muito boa em relação a desenvolver novas possibilidades para o filme. Não há nada muito certo ainda, mas a ideia nos agrada. Eu começo a entender porque cineastas e produtores partem para um segundo filme, um prequel (prelúdio) ou sequel (continuação). Há muitas ideias para continuarmos fazendo esses filmes e vamos ver o que acontece.



Em 2019, o audiovisual brasileiro vive uma fase difícil em relação ao incentivo governamental, com cancelamentos de edital e cortes de verbas. Como continuar fazendo cinema no Brasil neste cenário?

Juliano: Essa é uma pergunta que todos estão se fazendo no momento. Está todo mundo se perguntando o que vai ser do futuro, porque essas transformações foram muito rápidas. Ninguém teve tempo de se preparar para isso. Mas quem trabalha com arte e cultura normalmente não se deixa abater tanto. Todos vão ter dificuldades, alguns mais e outros menos, mas acho que o desejo de trabalhar com arte é sempre muito poderoso. A profissão do artista sempre foi muito desvalorizada. Nos últimos 15 anos, a gente vinha sonhando acordado, porque parecia que tudo tinha mudado e que agora a gente estava sendo respeitado, mas não é bem assim. Acho que está todo mundo meio tonto ainda. É difícil fazer projeções do que vai acontecer. A única coisa que eu sei é que quem escolhe ser artista no Brasil, desde o primeiro momento, já demonstra ser um corajoso. Precisa ter fibra para trabalhar com arte no Brasil. Vai ser difícil também para esses homens pequenos deterem a nossa energia de criação e o nosso trabalho. Não está sendo fácil para a gente, mas para eles também não vai ser. Não vamos parar só porque eles querem.

Grandes cineastas, como Martin Scorsese e Fernando Meirelles, já se rederam à Netflix e criaram filmes para a plataforma. Você consegue se ver comandando um projeto para o streaming?

Kleber: Eu acho que a gente está vivendo um momento muito forte, interessante e novo. Isso que está acontecendo com “O Irlandês” (de Scorsese) é muito curioso, porque é um filme de enorme prestígio, feito com muito dinheiro e que teve uma exposição bem limitada nos cinemas. A grande exposição dele na verdade é o streaming. Claro que eu trabalharia com a Amazon ou a Netflix. Acho que tudo é uma questão de o projeto certo para o lugar certo. “Bacurau”, para mim e Juliano, sempre foi um filme de cinema, de tela grande. A gente teve, inclusive, muita sorte de conseguir controlar a trajetória dele. Entre maio e 29 novembro, ele foi única e exclusivamente visto em salas de cinema ao redor do mundo. O filme não vazou e a gente teve o maior controle sobre isso. Não só aqui no Brasil, mas em todos os países onde ele foi distribuído, havia regras muito claras em relação a isso. Agora que a obra já teve essa vida incrível na sala de cinema, ela agora está vivendo o segundo momento dela, que é nas plataformas digitais. Já virou arquivo de torrent e agora vai para televisões, serviços de aviões e tudo mais. Acho que cada filme tem seu lugar e o streaming é sim uma possibilidade de novos projetos.