O que é essencial na cozinha da quarentena?

A nova rotina doméstica tem priorizado itens básicos e indispensáveis na cozinha

A nova rotina doméstica tem priorizado itens básicos e indispensáveis na cozinha

A nova rotina doméstica tem priorizado itens básicos e indispensáveis na cozinha

Folha de Pernambuco

Há dias que o sentido da palavra essencial vem ganhando novos ares. O nome, que sempre ecoa nas listas de permissões da quarentena, é também um estado de espírito para a maioria das pessoas que permanece em casa. Aquele amontoado de utensílios difíceis não está sendo aproveitado agora, tão pouco a relação de ingredientes complicada de encontrar no mercado. Em meio a tantas restrições, o momento é de criar novas prioridades na cozinha?

O leitor do caderno Sabores responde essa questão atento às reportagens sobre as tendências gastronômicas dos últimos dois anos. A alta da culinária brasileira, que enaltece produtos fáceis e acessíveis ao bolso vem numa crescente desde então. Não à toa, foram esses os restaurantes que mais ganharam espaço de uns tempos para cá no mercado pernambucano. A simplicidade longe de qualquer afobação já batia a porta. Tanto que a última projeção da empresa de monitoramento de consumo, Hibou, para 2020, era de que seis em cada dez brasileiros gostariam de se alimentar com mais calma e tempo.

Mesmo sem querer seguir tão à risca, esse pé no freio já acontecia. Segundo o chef do restaurante Marcel, em São Paulo, e figura voraz das redes sociais, Rafael Despirite, o momento é de pegar as tendências e transformá-las em realidade. “O minimalismo já estava na moda em alguns lugares e as pessoas começaram a entender que, para fazer as coisas, precisa-se de menos. Além disso, o fato de ter menos opções de escolhas nos deixa menos angustiado. Menos ansioso”, diz, lembrando que as variações de um mesmo produto nunca ajudaram na hora de fazer uma escolha.


Mais planejamento
“Chamo atenção também para os restaurantes na questão da economia. As pessoas precisarão saber os custos de tudo se quiserem operar porque a gente não tem nem ideia de como serão os novos salões”, completa Despirite. A projeção, no entanto, é que os espaços gastrô sejam menores na pós-pandemia. Poucas mesas e equipamentos também sinalizam menos recursos. “Mas o lado positivo é passar a valorizar mais os ingredientes, ter menos desperdício de comida e pensar mais em como executar as coisas, e ficar atento a tudo”, alerta o chef.

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Nesse caminho, é mais rápido o cozinheiro no Nordeste comprar um quilo de seriguela do que uma bandeja de framboesa. Uma projeção que tende a se adaptar ao longo do tempo, segundo o empresário da rede Verd Frut, Jefferson Rafael. “Tivemos mudanças, sim, mas, no momento, voltadas para a saudabilidade, com saída maior de produtos que fortalecem o sistema imunológico”, afirma ele, que atende em 16 lojas, incluindo unidade em João Pessoa, com forte presença no e-commerce. “No começo, houve grande procura por itens de cesta básica, como feijão e arroz. Agora, a preocupação maior é com o aporte nutricional e o frescor dos itens”, conta. Embora o setor de abastecimento esteja aquecido, o empresário imagina que a instabilidade econômica fará o consumidor, no futuro, optar por bons produtos e não por marcas.

Consciência inclui aproveitar todas as partes do alimento

Consciência inclui aproveitar todas as partes do alimento

Folha de Pernambuco

Consciência inclui aproveitar todas as partes do alimento - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco


Dentro de casa já se observa como procedimento essencial o aproveitamento total de insumos, segundo a culinarista Paula Trindade. Ela, que presta consultoria on-line para os chefs de primeira viagem, nota que nesse período aumentou o interesse pelo uso completo de frutas, verduras e outros alimentos naturais. “O minimalismo está em comer a comida de verdade, sem tanto exagero. Sentir o próprio sabor do prato, do que mascará-lo com tanto creme, molho ou outro item artificial”, analisa.

Entre as modificações percebidas por cada um durante a quarentena, essa consciência promete ficar. “Porque todos estão, de alguma maneira, cozinhando mais em casa e prestando atenção na qualidade do que come. Na Europa, a população já vive dessa forma há muito tempo, ninguém tem funcionária doméstica por lá. Então, é comum um morador resolver uma refeição rapidamente, sem tanto problema. E aqui tende a ser mais simples, com mais sopa, salada ou prato único”, aponta Trindade.


Nova postura?
A última pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) aponta que o Brasil ocupa a 10ª posição entre os países que mais desperdiçam comida no mundo. Na vida pré-pandemia, 28% dos alimentos se perdiam no processo de produção agrícola e mais 28% eram jogados no lixo. É a cultura do excesso que, forçadamente, tende a mudar.

Para o psicólogo e mestre em Saúde Mental, Gabriel Medeiros, antes de a quarentena se instalar, era comum ver mesas fartas no restaurante e isso ser socialmente valorizado. “O menos ser mais é um mote que poderia ser posto independentemente do contexto. Porém, nesse cenário anterior, o mais é mais. Isso compreende uma necessidade de afastar qualquer possibilidade incômoda de faltar algo”, diz, alertando não ser o mesmo que uma pessoa carente que, em meio à fartura, o alimento não se coloca apenas como um vetor social, mas de sobrevivência.

“No entanto, a gente tem medo de conviver com o desconforto de sensações desagradáveis. Por isso, é mais fácil ter uma geladeira cheia e afastar o medo excessivo da falta”, completa. Ainda de acordo com o especialista, apesar de o Brasil ser falho na distribuição de alimentos e produzir até sete vezes mais do que consome, o estoque abusivo de comida neste momento pode trazer mais consequências no comportamento pessoal do que um défict real de abastecimento no setor alimentício.