Folha de Pernambuco Símbolo do Carnaval, trio elétrico chega aos 70 espalhado pelo País

Símbolo do Carnaval, trio elétrico chega aos 70 espalhado pelo País

Somente no desfile do Galo da Madrugada, nesse Sábado de Zé Pereira, no Centro do Recife, havia 30 trios.

Somente no desfile do Galo da Madrugada, nesse Sábado de Zé Pereira, no Centro do Recife, havia 30 trios.

Somente no desfile do Galo da Madrugada, nesse Sábado de Zé Pereira, no Centro do Recife, havia 30 trios.

Folha de Pernambuco

Uma gambiarra ligava os dois instrumentos a um gerador de dois quilowatts de um Ford T 1929. Em cima da carroceria, Adolfo do Nascimento, o Dodô, empunhava um violão. Osmar Macedo dedilhava um cavaquinho. A percussão foi no chão, acompanhando o cortejo a pé.

O desfile aconteceu no Carnaval de 1951. Mas foi a data redonda de 1950 que ganhou a história como ano da criação do trio elétrico, invenção que se tornaria uma das maiores revoluções no modo de se fazer Carnaval do Brasil.

Depois de 70 anos, o trio adquiriu novos formatos e amplificou a potência. Também ganhou status de protagonista e é presença certa nas festas - das grandes metrópoles até pacatas cidades do interior. Somente no desfile do Galo da Madrugada, nesse Sábado de Zé Pereira, no Centro do Recife, havia 30 trios.

A história começou por acaso nos anos 1940, quando o eletrotécnico Dodô fez os primeiros experimentos para amplificar o violão. Por meio de um sistema de bobinas, passou a captar e amplificar o som na boca do instrumento. Mas a microfonia era um entrave à qualidade sonora.

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O passo seguinte foi retirar o corpo do instrumento, mantendo apenas o braço, e ligar o sistema de amplificação diretamente ao violão e ao cavaquinho. Estava criado o pau elétrico, instrumento considerado um dos precursores da guitarra baiana.

Com os instrumentos eletrificados, Dodô e Osmar formaram o conjunto Dupla Elétrica. Até que, após um desfile de sucesso do grupo de frevo Vassourinhas em 1951, os dois músicos resolveram testar o sistema de amplificação de som e desfilaram em cima do carro, apelidado Fobica, pelas ruas do centro de Salvador.

Acompanhado por uma multidão, o desfile foi um sucesso. No ano seguinte, a dupla incorporou ao grupo o músico Themístocles Aragão, que tocava triolim. Estava criado o Trio Elétrico.

Nos carnavais seguintes, o trio trocou a Fobica para crescer. Em 1952, Dodô e Osmar desfilaram em camionete Chrysler Fargo e levaram os percussionistas na carroceria. No ano seguinte, adaptaram um caminhão maior e desfilaram com o patrocínio da marca de refrigerantes da Bahia.

Com o sucesso, outros conjuntos musicais copiaram a iniciativa: "Quando as pessoas viam os outros caminhões na rua, já diziam 'lá vem o outro trio elétrico", conta o guitarrista e compositor Armandinho Macedo, filho de Osmar.

No imaginário do baiano, trio elétrico passou a ser sinônimo de qualquer veículo carnavalesco com o som de seus instrumentos amplificado.

A voz foi incorporada aos trios elétricos definitivamente em 1975. Foi quando Moraes Moreira, já fora dos Novos Baianos, assumiu os microfones e cantou a música "Pombo Correio" no trio de Dodô, Osmar e Armandinho.

Depois, entraram instrumentos como baixo, bateria e teclado, já sob influência das bandas de rock. E os caminhões carnavalescos começaram a atingir outro patamar de qualidade.

Esse avanço aconteceu graças ao talento e persistência de personagens como o como o construtor de trios Orlando Tapajós. Foi ele que em 1972 construiu o trio Tapajós, um dos primeiros depois de Dodô e Osmar, e a icônica Caetanave, criada para homenagear Caetano Veloso.

Os trios avançaram, mas o frevo ainda era o principal ritmo carnavalesco em Salvador.  té que, em 1985, uma inovação fez com que trio elétrico ganhasse ainda mais força. "A gente tinha duas invenções maravilhosas: o trio elétrico e a guitarra baiana. Faltava uma música genuinamente baiana e foi aí que eu criei a axé music", afirma o cantor e compositor Luiz Caldas.

Ele subiu em um trio elétrico pela primeira aos 16 anos na cidade de Ibicaraí, sul da Bahia: "Fiquei maravilhado. Eu tocava nos bailes para 400, 800 pessoas. Quando eu subo no trio eu vejo 40 mil pessoas pulando", lembra.

Com a explosão do axé nos anos 1990, os trios elétricos se profissionalizaram e se tornaram palco de inovações. Uma das pioneiras foi a cantora Daniela Mercury, primeira a levar música eletrônica e até orquestra para cima do trio elétrico. Em 2000, ela mexeu na estrutura do trio criando mais um patamar, acima dos músicos, que servisse como palco para bailarinos e bailarinas.

Em meados dos anos 2000, trios como o Dragão da Folia e o Maderada disputavam qual era o maior e mais potente. A partir dos anos 2010, contudo, o movimento foi contrário: os trios começaram a diminuir para levar os artistas para mais perto do público.

Dentre os novos trios, destacam-se o Pranchão, no qual a banda fica na altura dos ombros do folião, e o Navio Pirata, trio compacto, mas com potência sonora, usado pela banda BaianaSystem.

Com o avanço do Carnaval de rua em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os trios elétricos ganharam espaço fora da Bahia. Também passaram a ser usado em protestos, comícios e até missas. Aos 70 anos, a máquina idealizada por Dodô e Osmar mantém lugar de destaque no reinado de Momo.

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