Como fica a segurança

Aguarda-se o que poderá vir de melhor no próximo ano, com a adoção de práticas e medidas que amenizem a percepção de insegurança

  • Arquivo Vivo | Percival de Souza, da Record TV

É claro que todos, neste Brasil agora fragmentado, querem o melhor para si próprios, sua família e entes queridos.

Estão satisfeitos? Não.

Reclamam de quê? Da perceptível insegurança, que transformou a arquitetura das cidades, trocando as janelas por câmeras, cercas de arame eletrificadas, portas de aço, muros enormes e segredos eletrônicos, vigilantes particulares e carros blindados.

Todos se sentindo mais seguros, não percebem a troca da beleza por estéticas feias. As casas parecem fortins.

Nas ruas, há receio de um súbito ataque. Arrastões, roubo de celulares, agressões estúpidas, atirar primeiro e roubar depois, matar sem a menor piedade, esquecer da memória e não passar, jamais, por alguns lugares, principalmente em certos horários. Rotinas absurdas.

Exagero, tudo isso? Claro que não. Você sabe que não.

Aguarda-se, portanto, o que poderá vir de melhor no próximo ano, com a adoção de práticas e medidas que amenizem, ao menos um pouco, a situação. O 2023 das esperanças esperadas por promessas e mais promessas (de campanha política), muitas inimagináveis e impossíveis. Apesar de tudo, esperanças ainda.

Esperanças desde que as questões, desafiantes, sejam encaradas de frente, e não com subterfúgios e sofismas e discursos ocos.

O que se pode fazer? Eliminar vários hábitos repetitivos, por consequência inúteis, em várias esferas institucionais, e não numa só, para prevenir, minimizar e garantir mais a paz, e não o temor pessoal, familiar e de amigos. No mínimo.

Aqui é que a coisa pega. As instituições estão preferindo atirar pedras umas nas outras — nos atos de segregar, denunciar, punir e, é claro, tirar da circulação social. Cada uma delas se exime por completo, atribuindo às outras falhas que são comuns no sistema.

Polícia Militar de SP patrulha as ruas: prometeu-se muito, chegou a hora de fazer

Polícia Militar de SP patrulha as ruas: prometeu-se muito, chegou a hora de fazer

Edu Garcia/R7 - 23.08.2022

Comecemos por São Paulo. Tarcísio de Freitas, o governador eleito, ensaiou algumas inovações. Recebeu uma chuva de críticas de alguns que se dizem “especialistas” e outros totalmente aloprados. Disse, por exemplo, que gostaria de extinguir a Secretaria de Segurança Pública e pôr, em seu lugar, secretarias próprias da Polícia Civil e da Polícia Militar.

As pedradas foram arremessas por quem considera o modelo nefasto, por já ter sido adotado no Rio de Janeiro, sem resultados palpáveis. Além disso, o novo governador teria cometido um crime nefasto ao nascer no Rio, e não em São Paulo. Parece incrível, mas isso foi dito.

Os críticos de ocasião nada sabem de Secretaria de Segurança Pública. O modelo atual está sob o comando do general (quatro estrelas) João Camilo Pires de Campos, ex-comandante militar do Sudeste, com quartel-general no Ibirapuera. Ao passar para a reserva, o general Campos foi escolhido pelo então governador João Doria para assumir o cargo.

O fato tem um significado. Atenção, palpiteiros: por uma série de razões, as polícias precisam de um papel de celofane para envolvê-las e, assim, dar a impressão de que são comandadas por um ser moralmente superior, mesmo que neófito no assunto.

Mera ilusão. Vários dos secretários brasileiros nessa área estão entre aqueles que menos entendem de segurança propriamente dita. Já assisti a vários encontros deles em Brasília e percebi isso. É curioso. Mas faz parte de um faz de conta que impede as polícias de gerir o próprio destino.

O general Campos inovou nesse sentido. Criou duas secretarias executivas, chefiadas por um coronel, na Polícia Militar, e um delegado de polícia, na Polícia Civil. Compreende-se: não afeito à área de segurança, o general escolheu um representante de cada uma para que os dois fossem, ao menos em tese, um meio de ligação direta com as corporações. Nesse papel, o general eximiu-se, a priori, de qualquer tipo de constrangimento, operacional ou de ordem moral. Portanto, o esquema da Segurança era quase todo assimilado ao do Rio de Janeiro, onde de fato as polícias são problemáticas.

No ciclo Doria, assistiu-se a uma série de promessas, e o trânsito dele com as polícias não foi dos melhores, por causa do autoritarismo narcisista do então governador.

Agora, o general Campos vai deixar o cargo. A partir daí, virão mudanças inevitáveis, se bem que os detentores de alguns dos cargos principais bem merecem ficar nos lugares em que estão. Profissionalismo policial exige competência, preparo, vocação e talento. Vontade. Determinação. Consciência de que são servidores da sociedade, e a sociedade espera muito deles.

Atenção, novamente, palpiteiros e achistas em geral. Faz tempo que a Segurança Pública é dirigida por estranhos no ninho. Vejo há muitos anos o desfile interminável nessa passarela. Por ela já passaram desembargadores, promotores, generais, coronéis, advogados e professores de direito. Um desses professores, celebridade acadêmica, teve em sua gestão a existência abominável de um esquadrão da morte, como se identificava um bando que executava marginais, como se estivesse fazendo uma profilaxia social, que na verdade encobria a defesa de um grupo poderoso de traficantes de drogas. Como é que pode? Mas aconteceu.

Outro professor pretendia que a Polícia Militar não fizesse mais abordagens, por considerá-las ”inconstitucionais”. Também pretendeu a extinção pura e simples da Polícia Militar. E, absurdo dos absurdos, cogitou extinguir o CPCh, Comando de Policiamento de Choque da PM. Pode? Aconteceu também.

Daí se extrai uma lição: é uma delícia mandar na polícia. Ou pensar que manda nela. Fazer de conta que é do ramo.

Não se percebe aqui — atenção, achistas, mais uma vez: por muitos anos, a Polícia Federal ficou sob esse jugo. Coronel, general e, por último, um delegado paulista, Romeu Tuma. Quando se libertou das amarras, a Polícia Federal começou a mudar muito, e para melhor. Evoluiu. Cresceu e se transformou na potência que é hoje.

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA

Aos curiosos, agora: o grande problema criminal de hoje é o patrimonial, celulares em destaque parcial. Seguem-se os assassinatos, o tráfico de drogas, lesões corporais graves e os novos crimes eletrônicos, precedidos de sequestro e cárcere privado. Entre esse tipo de autor, de sequestros e traumatizantes cativeiros, estão bandidos sanguinários, impiedosos, torturadores, matadores, violentíssimos, que enfrentam a polícia a bala, canalhas e pústulas das mais variadas categorias.

Esses são os focos principais. Não há como fugir deles. Prometeu-se muito, chegou a hora de fazer. Atos, e não somente palavras. Ações concretas, e não escapismos. Apresentar resultados, e não se limitar a fazer acenos. Partidos isolados não interessam. Ideologias que cultivam utopias não importam. A sociedade quer, e é seu direito, trocar a insegurança pela segurança. São fatores importantes, como a economia, a saúde, a moradia, a educação. Tais metas não são atingidas sem segurança, pois a bandidagem circula entre todas elas.

Sem esquecer que, em situações de ameaça ou perigo, clama-se primeiro a Deus. Depois, à polícia, que também pede e precisa da proteção divina. Abaixo rancores. Idiossincrasias. Desrespeito. Ausência de boa vontade. Os inimigos, no mundo do crime, são outros, e não os que o combatem. 

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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