Doutor coronavírus, ameaça sem tréguas

Vírus é semelhante ao caso da esfinge da lenda grega: viajantes eram interceptados por ela, um monstro, que lhes propunha um desafio

Coronavírus é um misterioso enigma à sociedade

Coronavírus é um misterioso enigma à sociedade

JuanJo Martín/EFE - 11.04.2020

As discrepâncias formuladas pelos doutos em profusão babélica, transformam em enigma o ainda misterioso coronavírus. No caso da esfinge da lenda grega, viajantes eram interceptados por ela, um monstro, que lhes propunha um desafio. Quem soubesse responder poderia prosseguir a viagem. Quem não soubesse, seria devorado.

O coronavírus é o nosso monstro contemporâneo. Decifrá-lo, ou seja, descobrir o tratamento adequado, a vacina eficaz, é o grande desafio interdisciplinar. Enquanto isso não acontece, uma ameaça letal paira sobre o planeta.

Os efeitos da resistência são colaterais. Não se pode perder, em hipótese alguma, a capacidade de raciocinar. Estamos falando de próximas gerações e não de próxima eleições. Aqui, entra o Brasil: cada um fala uma coisa, os diagnósticos são múltiplos, os métodos variam, as perspectivas são sombrias. Que fazer diante dos duelos verbais, as afrontas, as idiossincrasias políticas, os ridículos confrontos ideológicos? Afinal, o inimigo é outro, o vírus. Não se pode (ou não se poderia) perder o foco do combate de interesse mundial.

A esfinge continua devorando. É insaciável. E os viajantes, que somos nós em peregrinação por este vale da sombra da morte, como diz o salmista, esperamos que aconteça algo profilático que ainda não aconteceu.

O escritor Eça de Queirós assinalou, numa de suas obras, que nosso país tem muitos doutores e poucos brasileiros. A frase é perturbadora, penetra na Academia, a ribalta de muitos fariseus, e nos coloca diante de um confronto - a esfinge - com a realidade.

Vejamos os primeiros doutores. Começamos com Hipócrates, o pai da ética médica, autor do juramento solene de todos os recém-formados. “Conservarei puras minha vida e minha arte; na casa onde for, entrarei apenas para o bem do doente”, afirmou o coletor de aromáticos na ilha grega de Cós, o berço da ciência médica. Já Esculápio, tido pelos romanos como deus da medicina, solidificou o pensamento de que é feliz aquele que sabe repartir o que sabe, e assim “aprende - Cora Coralina – enquanto ensina”. Portanto, a medicina implica em amar a difícil arte de cuidar”. Precisamos de Esculápio e Hipócrates. É assim tem sido filosoficamente ensinado entre nós, desde que D. João VI criou, na Bahia, em 1808, a nossa primeira Faculdade de Medicina. Há um problema, porém: a medicina se ramifica em muitas especialidades, o que exige, na busca dos esculápios, um pré-conhecimento da capacidade profissional de cada um. É pedir demais, convenhamos.

Vamos para os segundos doutores. Registre-se que doutor é uma titulação acadêmica, mas entre nós se aplica honorificamente. Assim, o bacharel é promovido automaticamente a doutor, mais uma reverência do que uma titulação. Eles estão enfrentando um grande desafio: adequar as normas jurídicas nesse terrível momento de crise, conhecendo de maneira bem prática a palavra “flexibilização”, tendo de enfrentar o fato de que uma decisão judicial provoca inevitáveis consequências. A rigor, vive-se um faz- de-conta com o qual nos acostumamos, por inércia, resignação ou comodismos: aqui, o Executivo legisla (medidas provisórias), o Legislativo investiga (comissões de inquérito) e o Judiciário executa. Os três deveriam conviver harmoniosamente (Montesquieu), mas são competitivos, gostam muito de politizar e judicializar. Direito não é matemática.

A hora é de conflito racional: a lei é dura mas é a lei? Ou é preciso admitir que quando há necessidade (e no momento temos muitas), é hora de dar um tempo, como já disse Santo Agostinho, nessa letra fria da lei? Os doutores ortodoxos não sabem o que é isso, dizem até que são escravos da lei, embora a lei nunca faça escravo algum.

É o caso do que se cogita agora: prender quem estiver na rua desobedecendo a quarentena. É ridículo: as vozes que endossam pensar assim fazem de conta que viviam apregoando, por conveniente amnésia, que a prisão deveria ser reservada para alguns e os autores de crime de “menor potencial ofensivo” deveriam permanecer soltos. Negativo: o que mais preocupa a sociedade são os crimes de maior potencial ofensivo, e não os menores. O principal: problemas sociais não são casos de Polícia. Mas vamos lá: quem estiver andando na rua, é preso. Como sempre, cabe à Polícia Militar exercer o papel de lobo mau. Mesmo assim, será inútil: primeiro, porque a pena para essa tal de “desobediência” é ínfima. Mesmo assim, o que pode acontecer na prática? O andante ser conduzido a uma delegacia de Polícia e ali, a autoridade policial – o delegado de plantão – pode agir, no máximo, dentro dos limites impostos pela lei: elaborar um “termo circunstanciado” e liberar o andante desobediente. Portanto, essa medida deveria ser considerada, a priori, frustrante para os nossos “doutores” nessa área, pois não é preciso ser nenhum Rui Barbosa ou Nelson Hungria para saber disso. Mais uma vez, entram nesse debate os falsos “especialistas” na verdade especializados em insultar a nossa inteligência sob o papel celofane do saber.

Eles fingem não saber (na verdade, sabem) que até em caso de furto alguém fica preso apenas que se consiga tipificá-lo como qualificado. A hipótese é mais grave do que estar andando na rua e precisar mais de orientação do que prisão. A situação do usuário de drogas é semelhante: ninguém fica preso por ser consumidor (está na lei). Aqui, os palpiteiros entram novamente em ação: dizem que é precisar liberar os usuários das prisões abarrotadas (este sim, um fato), chegando-se ao extremo de descriminalizar o tráfico, para o bem de todos e felicidade geral da Nação. É uma utopia supor que o traficante, ficaria, assim, sem mercado de ”trabalho”, e que o comércio das drogas (oferta e procura) seria transferido para o poder do Governo, recebendo gratuitamente o poderoso legado do tráfico. Como viabilizar isso? Criando uma nova estatal, a Narcobrás? Curioso e falso intelectualmente acusar quem pensa desse modo, factual, de “achista”, e que o falso “especialista” detenha o monopólio do saber. Mas eles são atrevidos, apresentam propostas simplórias, ignorando que ninguém quer o usuário perto da sua casa ou muito menos tolerar a convivência com os autores de furtos. Ou seja: dizem que são a favor deles, mas desde que fiquem bem longe. Fácil, assim.

Há uma diferença em preocupar-se com as próximas gerações e não com as próximas eleições. É tentador para um prefeito totalitário transformar a Guarda Municipal sob seu comando em guarda pretoriana. É um tiro político, mas corre o risco de sair pela culatra. É tentador desmoralizar a Polícia Militar e usá-la quando lhe convém. O comandante-geral em São Paulo, coronel Marcelo Salles, colocou a instituição acima de tudo e entregou o boné. A corporação não admite ofensas, como aconteceu em plena reunião do Alto Comando no Quartel do Comando Geral. Semelhante situação viveu a Polícia Civil: um, dos seus melhores delegados, Domingos Paula Neto, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, DHPP, foi exonerado do cargo porque foi a uma assembleia que debatia assuntos relacionados à Previdência. Em solidariedade, também entregou o cargo o delegado-corregedor da Polícia Civil, Rui Bacarat Guimarães Pereira. Duas perdas irreparáveis.

Este é o País com excesso de doutores e poucos brasileiros. Vivem no Olimpo, são ciumentos uns dos outros, e não pensam no melhor nem mesmo em casos de epidemia. Se o vírus não fosse invisível, e pudesse usar e abusasse do título de doutor, certamente seria o vencedor sobre os doutores que andam sobre duas pernas. O coronavírus é imperceptível, pode estar no ar e nos tecidos, numa gripe ou num bacilo. É atrevido por natureza. Enfrentá-lo exige inteligência, perspicácia, espírito público. O doutor Coronavírus está demonstrando do que é capaz em todo o mundo. É hora dos nossos doutores enfrentá-lo com tenacidade. É hora de ação e não de balbúrdia. A esfinge nos espreita, ameaçadora.