O mundo do crime se adapta à epidemia do coronavírus

A bandidagem sabe observar momentos críticos vividos pela sociedade e se organiza para atacar em situações diferentes

Bandidagem não tem quarentena e não tem escrúpulos contra a sociedade

Bandidagem não tem quarentena e não tem escrúpulos contra a sociedade

Cesar Conventi /Fotoarena/Folhapress – 02.06.2020

Há uma face oculta no comportamento do crime em tempos de coronavírus. Ele se adapta, seguindo a teoria de Darwin: a sobrevivência das espécies é sempre do mais forte.

A adaptação está no bas-fonds, o subterrâneo dos que vivem à margem da lei. Converge para o lúmpen, o trapo, o farrapo humano formado por aqueles que levam a vida assim.

Muito se fala, ou se teme, desse estranho e desconhecido habitat. Pouco se conhece sobre suas entranhas, suas profundezas, seus modos de agir (pedantemente chamado pelos letrados de modus operandi), isto é, modo de operação. A polícia aprecia muito essa terminologia, tanto que tem suas unidades de “operações” especiais, adotando o latim como linguagem.

A bandidagem, não. Prefere usar, em seu idioma particular, palavras diferentes, que embutem um código, que nem todos são capazes de decifrar.

A bandidagem sabe observar momentos críticos vividos pela sociedade e se organiza para atacar em situações diferentes. Não há escrúpulos, ética é uma palavra completamente ignorada e capaz, como aconteceu recentemente, de tentar roubo numa agência bancária – do Banco do Brasil – em dia de pagamento para os necessitados em busca do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600, em tempos de epidemia. Pobre roubando pobre, talvez, ou simplesmente ladrão que rouba sem olhar a quem, pouco importando quem seja a vítima. Não existe Robin Hood.

Agência do BB, em SP, foi alvo de criminosos em dia de pagamento

Agência do BB, em SP, foi alvo de criminosos em dia de pagamento

Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo – 03.06.2020

Bandidagem não faz quarentena. Acostuma-se rapidamente com a máscara, pois já costumava usá-la por outros motivos. Se não a máscara, prefere a touca, o capuz, o que for possível para esconder o rosto, pois acha mais seguro partir para o crime com a cara encoberta. Nas bocas, os traficantes adaptados estão usando álcool em gel para proteger o que gira em torno dos seus negócios, oferta e procura. Traficante sabe atacar e também proteger-se.

Bandido não para, não tira folga, não fica quieto quando a polícia termina seu expediente burocrático e gosta muito de ver o fórum fechado, porque juízes e promotores parecem acreditar que bandido fica inerte à noite, no final da sexta-feira e só volta a agir na segunda, e nada faz nos feriados.

Bandido mantém ritmo em todas as datas e horários que lhes pareçam bem mais convenientes. Adora ver fórum com depósito de armas, fechado à noite e trancado nos finais de semana, tornando facílima a subtração das armas apreendidas, que inutilmente ali ficam até o final de um processo criminal. Os órgãos da persecução penal acreditam que tudo se resolva com relógios de ponto, entrada e saída, embora eles nunca parem de marcar as horas. Tais relógios estão sempre atrasados.

A bandidagem, porém, sabe manter os ponteiros adiantados e está sempre à frente na evolução do crime. Os eletrônicos, por exemplo. Curioso: nesse campo, a bandidagem está um passo à frente e a polícia sempre corre atrás - aqui sim, do prejuízo. Normalmente, só é concebível correr atrás do lucro. Do prejuízo, óbvio, ninguém quer.

Na radical mudança de comportamento social por causa da epidemia, a bandidagem fez seus próprios estudos, para os quais possuem seus experts ativos, e se planejou para viver nesses tempos antes só vividos pela sociedade em tempos de peste, entre outras a bubônica, espanhola e ebola.

Olhando para o mapa criminal, onde governantes costumam usar a mentira, grande ou pequena, como forma de estatística.  A terceira possibilidade é mascarar os fatos. Encontramos o direcionamento preferencial da bandidagem para crimes contra o patrimônio - 48% para furto, roubo e a receptação.

A reação diante do crime chega a ser ingênua, se não quisermos considerá-la dolosa, a omissão com intenção. No caso dos furtos, artigo 155 do Código Penal, não se usa a violência por meio de armas, brancas ou de fogo. Não se costuma dar muita importância para eles. Mas é duro você viajar para um final de semana de lazer e, na volta, encontrar a casa arrombada e dela levados objetos de valor, muitas vezes transportados como carga em veículos. Ou você dizer, na hora da queixa, que a casa é equipada com câmeras, o que seria muito importante se todos os casos, e não alguns, fossem devidamente investigados. Câmeras com efeito apenas intimidatório não funcionam.

A propósito, conheci um senhor de idade, de profissão sapateiro, que estava com seu local de trabalho repleto de calçados para consertar. Um ladrão entrou pelo teto (“marmota”, na gíria policial) e levou todos os pares. O pobre homem ficou inconsolável. Sabia que os sapatos jamais seriam recuperados e se sentia dono de uma dívida moral com os clientes. Honestíssimo, o sapateiro ficou com vergonha de ser vítima. Alguns de seus clientes o procuravam há anos. Sentia-se na obrigação de ressarci-los. Mas alguém se preocupa com os sentimentos desse pobre homem, agora chorando? Não. A Justiça, generosa, considera o furto dos sapatos como sendo algo de “menor potencial ofensivo”. Seria? É, porque se eventualmente esse ladrão fosse preso, sua pena seria tão branda que ele poderia responder ao processo em liberdade. Ressalte-se que, por evidência, o ladrão de sapatos tinha comprador certo para vendê-los. É a receptação, umbilicalmente ligada aos furtos e roubos. Mas receptador ser preso, é coisa raríssima. De modo geral, nunca são – muito embora seja ele a grande retaguarda para esse tipo de ladrão.

O coronavírus provocou uma alteração nesse quadro. Como nunca se viu antes, em São Paulo os furtos diminuíram em mais da metade, 53,4%, como diminuíram também os furtos (49,2%) e roubos de automóveis, 45,5%.

Por que? Com o coronavírus, mais gente está ficando dentro de casa. Então, invadir uma residência tornou-se muito mais arriscado. Donos de carro nas ruas também ficaram muito mais atentos.

Com tudo isso, as normas de segurança contra o coronavírus deveriam afugentar aglomerações. Mas nas periferias a regra não existe. Amontoadas em barracos, as pessoas ficam tão espremidas, sem ter ao menos água encanada, que saem para buscar refúgio num bar. Ali bebem cachaça e provocam discussões que, não raro, terminam em mortes. Aliás, as matanças, principalmente em finais de semana, acontecem sempre dentro de um bar, a caminho do bar e na saída de um bar. Por que isso? Porque o bar tem um espaço equivalente a uma sala - a sala que o morador de barraco não tem.

Coronavírus atrai aumento de assassinatos. Porque, ajuntadas, as pessoas vão ficando agressivas, como se estivessem numa gaiola, e mulheres e crianças têm sido as maiores vítimas. Grande parte da violência que se pratica acontece dentro de casa. Juntas à força, as pessoas passam da agressividade à lesão e a morte.

O consumo de bebidas aumenta, daí nascendo as discussões etílicas, pelos motivos, embora fatais, mais banais que se possa imaginar. Discussões que, não raro, terminam em assassinato. Trucida-se, então, com fúria avassaladora. A matança tem grande amplitude, porque somos um dos países onde mais se mata em todo o planeta, 60 mil casos por ano. É a previsão para o número dos que vão morrer ao longo deste 2020. Os números macabros exibem a faixa etária predominante dessas vítimas: 17-24 anos. Idade para estudar. Idade para início de uma vida profissional, ceifada por iras irracionais e interpessoais. Impossível preveni-las.

O coronavírus não será vencido à bala, como a bandidagem prefere. Só pode ser vencido com vacina, educação, respeito, obediência a regras e normas indispensáveis para a vida comunitária. O resto... é o resto.