O psicólogo assassino da mulher e filha

  • Arquivo Vivo | Percival de Souza, da Record TV

Psicólogo Fabricio Belinato matou a mulher e a filha

Psicólogo Fabricio Belinato matou a mulher e a filha

Reprodução/Record TV

Acredita-se que certos tipos de crime somente poderiam ser praticados por pessoas totalmente desqualificadas, sem cultura, estúpidas por natureza, unicamente capazes de barbaridades insanas.

De repente, surge um caso em que o personagem principal é exatamente o oposto dessa tese: bem formado, estudado, vida social relevante. E aí, pergunta-se com perplexidade: como é que pode?

Não há resposta precisa, embora se procure encontrar o caminho que preencha o espaço das dúvidas, do temor em se admitir que não se sabe.

É o caso do psicólogo Fabrício Buvimarena Belinato, de 36 anos, que matou a companheira, Cristiane Pedroso dos Santos Arena, 34, e a filha dela, Karoline Vitoria dos Santos Guimarães, apenas nove anos de idade. Facadas na mulher e pancadas fortes na cabeça da menina.

O palco da tragédia foi Pompéia, nome da cidade-ostentação do Império Romano, distante a 22 quilômetros de Nápoles. A Pompéia do nosso psicólogo fica a trinta quilômetros de Marília, no centro-oeste paulista. A Pompéia romana foi destruída pelo poderoso vulcão Vesuvio,79 d. C. A Pompéia paulista chama-se assim como homenagem a Pompéia, sobrenome de Aretuza, esposa do senador Rodolfo Miranda.

Na Pompéia do psicólogo, ficaram novos escombros, não com corpos petrificados, como na cidade romana. Aqui, as pedras e lavas lançadas para longe foram substituídas por pedras incandescentes e lavas das inquietações, já que na nossa não se consegue conceber como certos tipos de pessoas sejam capazes de fazer certo tipo de coisas. Mas o crime se dissemina por todas as classes sociais, como já provado está.

Há uma diferença social para legitimar a desigualdade entre eles: o criminoso mais letrado tem direito a ficar em prisão especial, ou seja, diferente humanamente comparando-se a outra, profundamente desumana. Curioso isto porque o letrado teve mais condições de estudar mais, chegar ao nível de ensino superior, com muito mais oportunidades na vida do que o desvalido ou mal-aventurado. É nesse barco que navegou o psicólogo

Fabrício. Tenho minhas reservas quanto a classificação formal acadêmica. Porque ser psicólogo significa exercer seu trabalho como terapeuta, conhecer entre outros Freud e Lacan, e não apenas concluir um curso formal, que acena com mais de trinta variantes, as suas correntes, a demonstrar insofismavelmente como existem muitos mistérios na alma humana. Fabrício pode ser considerado um ponto de interrogação, embora haja um lado muito prático para desvendar seus enigmas, pois o trabalho policial de investigação exige, num caso como este, perspicácias interdisciplinares.

A investigação criminal passa por etapas desagradáveis, porque obriga a esmiuçar detalhes mórbidos e sórdidos, crueldades aberrantes, que autores gostariam de ocultar e observadores torcem para que não seja assim, para salvaguardar um mínimo de dignidade para a corrompida raça humana. Tais observadores se debruçam sobre as revelações contidas no inquérito policial, para depois tentar desqualificá-las, chamando-as de “caderno de informações”, com dois lados assumidos, acusar e defender, como se teorias pudessem sobrepujar fatos. É claro que não podem. Mas pode, sim, determinar com convicção quem fez exatamente o que e quais os fatores motivadores que levaram o autor a fazer.

Temos concretamente o psicólogo, ou o formado em psicologia, que decidiu tornar-se assassino para alcançar determinados objetivos. Se você for investigar o caso, tendo essas considerações em mente, vai lembrar-se de que Freud, na psicologia, teve a mesma relevância que Marx na economia e Darwin nas ciências naturais. Se você aprofundou-se nos estudos, aprendeu que a sondagem terapêutica da alma humana indica problemas que identificam marcas em forma de recalques e complexos de inferioridade.

Levando-se essas circunstâncias em consideração, é possível notar que há enorme dificuldade em considerar-se uma pessoa “normal”, tal o poder exercido pelas forças inconscientes. Isso aprendi com a psicologia forense, parte dos estudos da criminologia, a ciência que estuda o crime e o criminoso. No dia-a-dia criminal, esforço-me muito para tentar decifrar lados ocultos da mente humana. Quando penso que já vi de tudo, surge um novo e desafiador caso. É a história de Fabrício.

O vulcão humano

Na Pompéia do Vesúvio, o vulcão entrou em erupção com fúria e estrondo. Na Pompéia de Fabrício, um vulcão foi roncando aos poucos dentro do corpo, até formatar-se na vontade de satisfazer um desejo, socialmente proibido, a qualquer custo. A vontade irresistível, a impulsão. Pecado? No relato do Gênesis, o livro das origens, sobre o primeiro homicídio na face da terra, Deus diz a Caim – capítulo 4, versículo 7 – que “o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo”.

Todos nós podemos ser envolvidos por desejo, mas ser envolvido não é ser dominado, porque o desejo pode ser contido, controlado. Assim está escrito.

Fabrício curvou-se diante do desejo. E que desejo incontrolável era este? Desejo pela segunda filha da mulher, Cristiane, uma menina de 16 anos, ou seja, a irmã da menina de 9 anos, que também seria assassinada.

O psicólogo matador precisou planejar tudo com antecedência. Seu vulcão interno começou a agitar-se aos poucos, num crescer constante, porque o objetivo pleno seria alcançar a felicidade por meio do assassinato, ficando com a posse da menina menor de idade já com corpo de mulher. Tudo muito sedutor, arrebatador. O Vesúvio humano da cidade paulista de Pompéia foi aumentando de intensidade com lavas da volúpia e pedras flamejantes do incontrolável.

Chega-se, então, à parte em que o plano macabro se aproxima da hora da execução. Fabrício, delirante de paixão, precisa de um aval cúmplice. De quem? Da menina pivô de tudo. Ela ouve as explanações e é convencida de que a prática aparente do mal resultaria no bem de ambos, numa libertação, num novo tempo, nova vida, novas perspectivas, novas realizações. Um crime por sangrentos bons motivos. Um assassinato para o bem de ambos. A alegria do desfrute compensaria qualquer resquício de remorsos.

A sangue frio

Podem, no futuro, tentar dizer, judicialmente, que não: ela seria incapaz de se autodeterminar e assim ceder na concordância com os planos sinistros? E assim foi na hora da morte: o psicólogo desalmado, que até Freud teria dificuldades em explicar, e a menina adolescente estavam juntos na casa onde tudo aconteceu. Primeiro, Cristiane. Facadas. A faca poderia ter sido uma extensão do

corpo? Um enigma freudiano para ser decifrado. E a menina de nove anos? Morreu porque viu a mãe morrer. Foi assassinada por ser involuntária testemunha visual. Como no assassinato de Dostoievski, “Crime e Castigo”, onde um valor tido como relevante justificaria o assassinato de uma velha agiota e a morte, por circunstâncias, da irmã simplesmente porque estava no local do crime.

Ao contrário do personagem de Dostoievski, o assassino de Pompéia não sentiu tormentos de consciência. Cavou uma sepultura no quintal da casa, com a ajuda da cobiçada menina de 16 anos, e ali enterrou os corpos de mãe e filha. Crime perfeito, imaginou-se como sendo capaz de ludibriar a tudo e a todos. Inclusive a si mesmo.

Por uns tempos, conseguiu o intento. O sumiço súbito de mãe e filha provocaram buscas de fatos e respostas. Uma delas obteve êxito, uma pista: Fabrício, assassino ganancioso, sabia que Cristiane havia recebido uma indenização em rescisão de contrato de trabalho. E ele estava sacando o dinheiro em conta conjunta, naturalmente algo estranho para quem, em tese, está com a mulher desaparecida. Suspeitas e mais suspeitas, descoberta de reforma recente de contrapiso de concreto, nos fundos do quintal, onde Cristiane e Karoline estavam enterradas pela dupla macabra.

Quem é capaz de fazer uma coisa dessas? Transtornos mentais, bipolaridade, apressaram-se experts de plantão, que numa hora dessas não são capazes de explicar sequer como a legislação especial para menores, o Estatuto da Criança e do Adolescente, permite apenas suave e branda internação para um autor menor de 18 anos que participa de um crime hediondo como esse. Cúmplice antes, durante e depois, dizia que a mãe havia fugido com um namorado, para explicar o desaparecimento inexplicável. Sabia muito bem o que estava fazendo.

A mesma coisa em relação a Fabrício. Poderá alegar transtornos no futuro, mas teve lucidez suficiente para fugir imediatamente de Pompéia, para escapar da punição que prevista como das mais severas, como terá de ser. O psicólogo capaz de matar para satisfazer desejos fugiu para Bataguassu, no Mato Grosso do Sul, onde trabalhava com nome falso numa construção, como ajudante de pedreiro. Depois, foi – nada freudiano - perambular pelas ruas de Campo Grande, para esconder-se na capital do

Estado, onde acabou descoberto e preso. A Polícia de Marília, onde fica a Seccional de Pompéia, foi buscá-lo.

O escritor britânico Edward Bulwer Vitten escreveu o romance “Os últimos dias de Pompéia”. Aqui caberia uma versão ampliada pela cidade do Vesúvio e adicionados lances apimentados de Sodoma e Gomorra.

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