Os assassinos de crianças

Crianças indefesas, vulneráveis e indefesas tornam-se vítimas das ações de adultos, muitos deles bem próximos 

  • Arquivo Vivo | Percival de Souza

O menino Henry (Rio de Janeiro), o menino Gael (São Paulo), as crianças numa escola infantil de Santa Catarina. Crimes terríveis, cercados por enigmas enclausurados na cabeça humana, soam intrigantes. Todos gostaríamos de encontrar respostas, mas é tortuoso o caminho para obtê-las. Vamos buscá-las?

Mergulhamos na realidade e, quando ela não nos satisfaz, recorremos à ficção. Ambas podem brotar, como brotaram, nas páginas da revista “New Yorker”, publicando em série Truman Capote (“A Sangue Frio”), a história do assassinato de uma família metodista no Kansas, e da escritora inglesa Agatha Christie, que com seus personagens Hercule Poirot e Miss Marple vendeu apenas menos exemplares do que a Bíblia Sagrada e William Shakespeare.

Dr. Jairinho é preso no Rio, suspeito de matar o enteado Henry Borel de 4 anos

Dr. Jairinho é preso no Rio, suspeito de matar o enteado Henry Borel de 4 anos

Tânia Rêgo / Agência Brasil

Crianças indefesas, vulneráveis, dependentes tornam-se vítimas das ações de adultos, muitos deles bem próximos, sugerindo que existem mentes assassinas bem mais perto do que se poderia imaginar. E existem mesmo, em nível preocupante e assustador. Estudos freudianos identificaram como causa a presença de melancolia e ímpetos de destruição e por vezes sinais de frustração ou impotência sexual. Sintomas de psicopatia (psyché, alma, e pathos, enfermidade), ou condutopatia, segundo o psiquiatra forense Guido Palomba. Doente-criminoso, ou criminoso-doente: continuamos com mistérios e imprecisões, desde Lombroso, passando por Pinel e Nina Rodrigues, que elaboraram teses a respeito. A lista dos contemporâneos e suas correntes de linhas interpretativas é grande.

No Museu do Prado, em Madrí, contemplei um quadro de Goya retratando Saturno, personagem mitológica, com faceta canibal, que devorava seus próprios filhos. É impressionante. Saturno pertence à mitologia romana, com equivalência ao grego Chronos, considerado como deus do tempo. Ele devorava os filhos com receio de que cada recém-nascido pudesse, no futuro, apoderar-se do seu trono. Queria antecipar-se.

A mitologia reúne um sistema de crenças, com utilização de linguagem metafórica, contemplando divindades e personagens sobrenaturais, todas identificando pessoas, cenas, ambições e frustrações da vida humana. É do que dispomos, mas não o bastante para o DNA psíquico de Monique e Jairinho (Henry), Andréia (Gael) e Fabiano (crianças e professoras de Saudades, em Santa Catarina). Sangue inocente derramado. Por que?

A busca da verdade real é perturbadora. Nesses tempos de pandemia, já percebemos que há uma co-relação entre certos tipos de crime e o isolamento social. Há indicativos de que, mais próximas e por mais tempo, algumas pessoas consideram essa convivência prolongada insuportável. Deveria ser ao contrário, imaginamos. Psicologia social e sociologia ainda estão engatinhando nesse terreno movediço. No caso Gael, por exemplo, a mãe trabalhava com vendas de comésticos e passava o dia atarefada no computador. O menino, três anos, ficava um bom tempo numa escola infantil e a tia-avó ajudava a entretê-lo. Com a pandemia, o menino o passou a ficar mais tempo em casa. Isso também é crucial para uma criança. E criança não é bibelô – chora, grita, resmunga, exige, faz xixi. Passa a ser considerada irritante e merecedora, segundo adultos, de corretivos. Existem exageros, fatais inclusive, na dosagem.

Monique era quase o oposto. Súbita ascensão social, com o dinheiro de um novo parceiro, médico-vereador, desfrute do que é bom, melhor e caro, e Jairinho enciumado daquele menino, a quem espancava com fúria, vendo nele uma ameaça permanente de reconciliação de Monique com o ex-marido. Tudo isso, à evidência, é mesquinho, brutal, medíocre, aterrorizante para quem se considera ser humano. Mas foi o que aconteceu.

DESEJO DE MATAR

Por fim, Fabiano, o jovem catarinense de 18 anos. Pois é: 18 anos, saindo da adolescência, portador de uma vontade, não se sabe de onde, incontrolável de matar. E matar com o acréscimo de sentir prazer, alegria, satisfação. Do mesmo modo como Jairinho gostava de bater em Henry. Não se sabe exatamente o que Fabiano pensa, mas fato é que muniu-se de uma faca enorme, tipo adaga, arma pontiaguda de dois gumes, tipo espada, maior do que um punhal, e foi à escola disposto a causar o maior número de vítimas que fosse possível. Sua família é boa, estruturada, bem quista na cidadezinha onde morava. Vítimas escolhidas aleatoriamente, plano bem pensado de matar e morrer – o suicídio também havia sido planejado. Sangrou e sangrou-se.

Quando esse tipo de criminoso é preso, costumo observá-los. Raramente demonstram emoções mais fortes. Parecem insensíveis. “Está arrependido?”, a pergunta meio boba formulada por alguns repórteres, nada pode esclarecer em significados. Porque quem se arrepende, pensa em fazer mas não faz, contendo seu ímpeto a tempo. Como Deus disse a Caim: “o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gênesis 4:7). Por isso, no Direito Penal, com outras palavras se diz que o arrependimento precisa possuir eficácia. Exatamente por isso é avaliada, técnica e cientificamente, que o transtorno mental, de qualquer natureza, não conduz obrigatoriamente a certas práticas. O portador de transtorno está em condições de realizar tarefas, de ser produtivo. Não se deve confundir uma coisa com outra. Não existe álibi que faça uso de um diagnóstico desse tipo, como fazem certos advogados, que preferem trocar a aplicação de uma pena por internação psiquiátrica. Eles, assim, não “perdem” juridicamente a causa, mas a sociedade perde muito com o equívoco. Percebo, em razão disso, que nos estabelecimentos prisionais os autores de homicídio são, em geral, presos de bom comportamento, ao contrário dos autores de crimes contra o patrimônio, latrocidas e traficantes. Curioso, então: os matadores de modo geral são ”bonzinhos”, embora o ato de matar configure a expressão máxima da violência. Um paroxismo sociológico.

Em tese, o portador de algum tipo de distúrbio pode estar excluído da adaptação social em seu ambiente, daí Ortega y Gasset ter ensinado que o ser humano é ele e as suas circunstâncias. Perfeito: o ser humano pode ser moldado por tais circunstâncias da vida e a expressão “massa” pode ser considerada pejorativa, por considerar que toda massa pode ser dirigida, isto é, submissa, dirigida, moldada. Criminoso por natureza? Difícil aceitar hoje essa tese de Lombroso, que segundo o criminólogo Gabriel Tarde “excitou a todos e não nutriu a ninguém”. Correto: as cabeças de Antonio Conselheiro, o artífice da Guerra de Canudos, e Virgulino Ferreira, o Lampião, foram cortadas para ficarem expostas na primeira Faculdade de Medicina do Brasil, em Salvador, onde foram consumidas por um incêndio. O pai da psiquiatria brasileira, Nina Rodrigues, e seguidor incêndio. A ideia de Nina Rodrigues, adepto das teorias de Lombroso, era examinar os cérebros em busca de anomalia, que não foram encontradas.

Agora, estão presos Monique, Jairinho, Andréia e Fabiano. Dentro de suas cabeças, estão armazenados segredos profundos, muitos dos quais não se quer revelar. Seria importante para a sociedade extrai-los e descobrir quais são, para usá-los em caráter preventivo em face da prática de determinados tipos de crime. Temos disponível um incrível laboratório de comportamento humano, mas não o usamos – e quando usamos, o fazemos muito mal, vide as inexplicáveis “saidinhas” que beneficiam presos autores de crimes horripilantes, repugnantes, repulsivos, hediondos.

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