Caso Henry

Se o apartamento do Henry falasse...

  • Arquivo Vivo | Percival de Souza, da Record TV

Reprodução/ Record TV

Termina a primeira fase do caso do menino Henry Borel, trucidado aos seus quatro anos de idade, esgotadas as investigações com depoimentos e perícias. Agora, vem a segunda fase, com a instrução processual no Tribunal do Júri, até a sentença de pronúncia, a decisão que manda Monique e Jairinho para julgamento em tribunal popular, quando sete jurados decidirão a sorte do casal.

No início dos anos 60, o filme “Se meu apartamento falasse”, dirigido por Billy Wilder e estrelado por Jack Lemonn e Shirley MacLaine, conquistou cinco estatuetas do Oscar contando a história de um executivo que subiu na carreira emprestando seu apartamento para encontros clandestinos, até o dia em que se apaixonou por uma das mulheres que o frequentavam.

No caso do menino Henry, existe um apartamento com o epicentro. Sabemos tudo o que aconteceu com o garoto, revelado por seu corpo examinado em necrópsia pelos médicos legistas. Mas exatamente de que maneira foram produzidas 23 lesões contundentes, somente Jairinho e Monique poderiam explicar. Como eles não contam, resta-nos a habilidade que se espera do promotor do caso para descrever, a partir das revelações dos laudos, o que aconteceu no interior do quarto do menino.

Há um esquema especial para residências equipadas com segurança máxima que se chama “quarto de pânico”: é possível trancar-se nesse compartimento, de blindagem inexpugnável, e ficar totalmente protegido de qualquer tipo de ataque.

O quarto de pânico de Henry Borel era diferente, porque ele sentia pânico, pavor mesmo, quando Jairinho entrava para espancá-lo, batendo sem parar. O aterrorizado menino, que antevia o que sempre lhe iria acontecer, ficava inerte, como uma ovelha prestes a ser tosquiada, à espera do algoz. Monique, no quarto do casal, que ficava ao lado, fingia que não ouvia os gritos desesperados do filho.

A dupla assassina subestimou em grau máximo a inteligência alheia, inventando uma história de queda da cama (inverossímil) ou acidente doméstico (descartada). Além de investir numa ficção para tentar encobrir o cenário repugnante, imaginaram-se com criatividade suficiente para escapar impunes daquela situação.

É nessa perspectiva que o promotor tem as cartas na manga (os laudos) para interpretar o que houve dentro do quarto de Henry. Jairinho e Monique nada dizem sobre a causa das lesões, mas não é difícil imaginar-se do que elas decorreram. Foram “contundentes”, dizem os laudos, e como não se tem notícia de que tenha sido utilizado para a prática do crime algum instrumento pérfuro-contundente, resta evidente que foram usados pés e mãos para provocá-las, ou seja, pontapés com força e murros com violência. A causa-mortis.

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Dentro do apartamento, se ele falasse como no filme de Wilder, a radiografia dos fatos: Monique envolvida e fascinada com o status de dondoca que caracteriza quem, de repente, sai de Bangu para a Barra da Tijuca. Além disso, a ascensão social, a troca de salário de 4 mil reais numa escola por 14 mil no Tribunal de Contas do município. Entre desfrutar disso e o sacrifício do filho, fez uma opção consciente. Isso é o que estaria dizendo, se o apartamento falasse.

Após os momentos de ópera-bufa (”falar a verdade em novo depoimento”), protagonizados por Monique, e troca de promotor e de delegacia para investigar, petição inútil de Jairinho, chegou a hora do casal encontrar-se consigo mesmo.

Homicídio qualificado, como foram enquadrados em co-autoria, prevê variantes de pena de 12 a 30 anos. A dosimetria pode ser maior ou menor, com a graduação do juiz a partir da decisão dos jurados, formuladas em respostas a quesitos, para os quais não existe escapatória.

A situação foi percebida pelos advogados. O de Jairinho pulou fora. O de Monique foi descartado. Agora, na cadeia, o love story de ambos está acabando para se tornar uma questão de sobrevivência. Diante do quadro atual, ambos vão levar chumbo grosso. Como Monique não quer mais morrer abraçada a Jairinho, com o seu novo advogado chegou a perguntar se seria essa a sua vontade, Monique vai passar a tentar eximir-se de responsabilidades, lançando toda a culpa no colo de Jairinho.

A dose começa a ser exagerada: ela seria vítima, inclusive de Jairinho, embora estivessem dormindo juntos no dia em que foram presos.  O médico-vereador tentou sepultar o corpo de Henry antes da necrópsia, pois sabia que ela seria reveladora, e interferir nas investigações, telefonando até para o governador. Pensou que crimes pudessem ser encobertos com exercício do tráfico de influência.

Jairinho não pode defender-se dizendo que nada tem a ver com isso. Monique não tem como defender-se afirmando que não sabia de nada. Como não há indícios de que possam chegar a algum tipo de acordo entre os dois, cada um vai tentar salvar a própria pele. Missão impossível. Já estão condenados. Resta saber a quantos anos.

Se alguém quisesse escutar o que o apartamento teria a falar, compreenderia que no quarto de Henry foi ensinada uma grande lição, ministrada por uma criança em direito a viver a sua infância. Monique era separada do marido, o pai de Henry, e vivia com  Jairinho há poucos meses. O menino preferia ficar com o pai e relutava, nos dias de visita, a voltar à casa da mãe, porque sabia que Jairinho o aguardava. Chorava. Mas, numa hora dessas, quem é capaz de captar a angústia de um menino vivendo em situação crítica? Criança é criança, não raciocina como adulto, e não é possível dissociar as linguagens naturalmente diferentes, do contrário estaríamos exterminando uma etapa preciosa da vida, a infância.

Estava esculpido, no apartamento da Tijuca, que Henry era visto por Jairinho como um inimigo gratuito. Não é possível entender porque a mãe não poupava o próprio filho dessa sinistra agonia, porque o menino demonstrava, sempre, que preferia ficar com o pai, e não o “tio Jairinho”.
Um processo, por mais bem feito que seja, não é o suficiente para retratar o que se passou com o trio Henry-Jairinho-Monique. A raiva do assassino é incompreensível, porque Henry nada lhe fez. Apenas existia. Monique, conivência em nome de frívolas ambições pessoais, é humanamente deplorável. Henry, involuntariamente no meio de dois confrontos, morreu com quatro anos de idade, sem saber que nenhuma vida pode ser assim.

Julguem, jurados. Não gostaria de estar no lugar de vocês. Tudo repugnante, um horror para a humanidade.

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