Augusto Nunes A filha de Getúlio, o pai do Petrolão e a mãe do desastre

A filha de Getúlio, o pai do Petrolão e a mãe do desastre

A doida mansa que se achava herdeira do Banco do Brasil era mais sensata que os parteiros da crise que atormenta o país  

  • Augusto Nunes | Do R7

Os ex-presidentes Dilma e Lula

Os ex-presidentes Dilma e Lula

Gabriela Biló/Estadão Conteúdo – 07.04.2018

No comecinho dos anos 60, eu estava flanando não sala de visitas no meio da tarde quando vi, do janelão que dava para a rua, uma mulher negra, franzina e maltrapilha estacionar no portão da minha casa em Taquaritinga e apertar a campainha. Saí para saber do que se tratava. Ela quis saber se ali era a casa do prefeito. Eu disse que sim. Perguntou o que eu era dele. Filho, informei. “Então diz pro teu pai que a filha do Getúlio Vargas veio buscar a chave do Banco do Brasil”. Achei que aquilo era assunto para gente grande e fui chamar minha mãe.

Ela se identificou novamente e revelou a dona Biloca que o pai lhe deixara como herança o Banco do Brasil. Com o suicídio, tornara-se dona da grande instituição financeira, incluídos bens imóveis e funcionários. Meses antes da morte, numa conversa sem testemunhas, o pai presidente lhe explicara que as chaves das agências espalhadas pelo país ficavam sob a guarda do prefeito. Sempre que quisesse ou precisasse, bastaria solicitá-las ao chefe do Executivo municipal. Era por isso que estava lá, repetiu ao fim da exposição. Queria a chave do Banco.

Mulher prática, Dona Biloca percebeu que aquilo iria longe, decidiu passar a pendência adiante e transferiu a solução do caso para o primogênito ─ que, para sorte de ambas, trabalhava na agência de Taquaritinga. Explicou que o prefeito estava viajando e que, sempre que se ausentava da cidade, deixava a chave  do banco com o gerente. Depois de ensinar-lhe o caminho mais curto, recomendou que procurasse um moço chamado Flávio e transmitisse o recado: “Diga que a mãe dele mandou dar um jeito no problema da senhora”.

O jeito que deu confirmou que meu irmão mais velho era mesmo paciente e imaginoso. Ao saber com quem estava falando, dispensou à visitante as deferências devidas a uma filha de presidente da República, ouviu a história com cara de quem está acreditando em tudo e, terminado o relato, pediu licença para falar com o gerente. Foi para o banheiro com um exemplar do Estadão, deu uma olhada na primeira página e reapareceu cinco minutos mais tarde com a informação: a chave estava mesmo no cofre da agência. Havia apenas uma questão burocrática a superar: a filha de Getúlio teria de buscar ali perto a  cópia do documento que confirmava a paternidade ilustre.

“Liguei para o cartório e a certidão de nascimento da senhora está lá”, disse Flávio. “É só trazer a cópia”. Ela abriu um sorriso espaçoso como o do pai, avisou que em meia hora estaria de volta com o papel e se foi. Reapareceu três ou quatro meses mais tarde — mas no portão da minha casa, de novo atrás do prefeito. Dessa vez nem chamei minha mãe. Encaminhei a filha de Getúlio ao moço da agência, que liquidou a questão do mesmo jeito. O ritual foi reprisado quatro vezes em menos de dois anos. Até que um dia ela saiu em direção ao cartório e nunca mais voltou.

A doida mansa que coloriu minha infância revisita-me a memória
sempre que ouço a lengalenga que atribui a interrupção da era lulopetista um “golpe da direita”. Daqui a alguns anos, é possível que um filho do governador do Distrito Federal tenha de lidar com um homem de voz roufenha e uma mulher com o andar de John Wayne, ambos exigindo as chaves dos palácios do Planalto e da Alvorada.

Não será difícil livrar-se da dupla que só não destruiu o Brasil por falta de tempo. Lula poderá ser convencido a recuperar- se do cansaço decorrente do excesso de descanso com mais 111 fins de semana no sítio em Atibaia. E Dilma deve ser orientada a seguir para a residência oficial pelo ramal do trem-bala que existe desde 2012 na cabeça baldia da pior governante de todos os tempos. Como sempre, vai se perder no caminho.

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