Augusto Nunes  A voz da sensatez recomendou a presença de Mourão em Buenos Aires

 A voz da sensatez recomendou a presença de Mourão em Buenos Aires

Os vizinhos ao sul são nossos hermanos, mas nunca dizemos isso com um argentino por perto

A presença do vice Hamilton Mourão na solenidade em Buenos Aires impediu que a temperatura das relações entre Alberto Fernández e Jair Bolsonaro chegasse ao ponto de combustão. Se a sensatez não abortasse o boicote em trabalhos de parto no Planalto, pela primeira vez um presidente da Argentina assumiria o cargo sem ter por perto um representante do Brasil. Seria um erro histórico. Divergências ideológicas não podem prevalecer sobre interesses nacionais. Muito menos abalar um casamento que os caprichos da geopolítica tornaram indissolúvel.

Em seu primeiro discurso como chefe de governo, Fernández aposentou o candidato com o cinturão carregado de bravatas. Nada de acenos a Lula. Nenhuma provocação a Bolsonaro. Apenas convites ao entendimento entre os vizinhos que andaram trocando chumbo. "Brasil e Argentina devem ampliar as parcerias, independentemente das posições dos seus governantes", resumiu. Fernández lembrou que a crise econômica vivida pela Argentina retarda a retomada do crescimento em curso no Brasil. Que tal percorrermos juntos a estrada que encurta a chegada ao Primeiro Mundo?

O vice-presidente Hamilton Mourão na posse de Alberto Fernández

O vice-presidente Hamilton Mourão na posse de Alberto Fernández

Matias Baglietto/Reuters

Os povos dos dois países aperfeiçoaram uma singularíssima rivalidade temperada com amor e ódio, humor e ferocidade, deboche e admiração — tudo em doses exatas. Brasileiros contam piadas de argentino. Argentinos transformam o brasileiro em figura de anedota. Eles ficam eufóricos quando vencem o Brasil em qualquer esporte e acham Maradona melhor que Pelé. Nós debochamos de quem ousa comparar mortais ao deus do futebol e vibramos com vitórias sobre a Argentina até em jogo de baralho.

Argentinos dizem que Carnaval é coisa de gente folgada, mas flutuam na estratosfera com os sons e cores dos desfiles na Sapucaí. Brasileiros dizem que tango é coisa de canastrão traído num oceano de lágrimas, mas ensaiamos mentalmente aqueles passos complicados demais para quem só se expressa em português. Também por não falarem a mesma língua, brasileiros e argentinos amam odiar-se. Melhor: adoram fingir que se odeiam. Porque o destino decidiu que seríamos irmãos.

Somos, definitivamente, hermanos. Mas jamais dizemos isso com algum argentino por perto.