E se Bolsonaro dissesse o que Lula disse?

Em 2016, o ex-presidente afirmou que o Supremo e o Congresso estavam acovardados

O ex-presidente Lula

O ex-presidente Lula

Andrew Medichini/ Associated Press/ Estadão Conteúdo - 13.02.2020

Em março de 2016, o ex-presidente Lula teve um surto de sinceridade.  E revelou, numa conversa telefônica com Dilma Rousseff gravada pela Polícia Federal, o que achava do Judiciário e do Legislativo. Confira:

“Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada! Nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado! Um parlamento totalmente acovardado! Nós temos um presidente da Câmara fodido! Um presidente do Senado fodido! Não sei quantos parlamentares ameaçados! E fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar!”.

Duas vezes presidente da República, Lula já decidira naquele março disputar um terceiro mandato em 2018. Estaria o ex-chefe preocupado com a saúde das instituições? Nada disso, informa a continuação da discurseira: o que o apavorava era a ofensiva movida pela Lava Jato contra o maior esquema corrupto da história. “Eu sinceramente estou assustado é com a república de Curitiba”, confessou na conversa com Dilma.

As afirmações insultuosas foram bovinamente engolidas pelo Congresso. Nenhum figurão da Câmara ou do Senado enxergou qualquer ameaça às instituições.
Escalado para replicar em nome do STF, o decano Celso de Mello caprichou no tom indignado. Mas não considerou o acusador de despreparado para o exercício da Presidência da República.

Esse parecer foi guardado para o palavrório motivado pelas declarações de Jair Bolsonaro sobre as manifestações programadas para 15 de março.
Bolsonaro voltou ao assunto para esclarecer que os manifestantes não são hostis ao Congresso e ao STF. Querem apenas apressar a aprovação de medidas que a maioria dos brasileiros aprova. 

Se dissesse o que Lula disse, o chefe do Executivo seria alvo da cólera oportunista de deputados, senadores e ministros togados. Lula comandou pessoalmente atos de protesto contra a prisão iminente. Foi libertado pelo Supremo e aplaudido por dezenas de comparsas infiltrados no Congresso.

É o Brasil.