Por falar em apagão

A escuridão do Amapá é parte da verdadeira herança maldita

FHC entregou a Lula um país iluminado; o sucessor repassou-o na penumbra

FHC entregou a Lula um país iluminado; o sucessor repassou-o na penumbra

Marcello Casal/Agência Brasil

Em fevereiro de 1969, a energia elétrica sumiu e oito Estados nordestinos atravessaram a madrugada mergulhados na escuridão. Houve um grande apagão, certo? Errado, ensinou dois dias depois o ministro Edison Lobão. Cabelos e sapatos engraxados com igual capricho, voz de apresentador de circo, o ministro de Minas e Energia recitou a fala que lhe coubera em mais um ato da ópera dos malas-postas: "Não houve apagão. O que houve foi uma interrupção provisória de energia elétrica". Fui ao Dicionário da Língua Portuguesa/Acordo Ortográfico e confirmei que apagão quer dizer "interrupção provisória do fornecimento de eletricidade". Portanto, segundo Lobão, o substantivo não aconteceu. Só ocorreu seu significado.

Num país sério, uma figura dessas seria despejado do gabinete no meio da primeira frase cretina. No Brasil da Era PT, ele foi outro reincidente cada vez mais atrevido. Já não gaguejajava ao contar que, entre tantos assombros, o apagão foi expulso do país por Lula e proibido definitivamente por Dilma de dar as caras por aqui. Submisso a todos os governos, Lobão estreou no papel de doutor em eletricidade em novembro de 2009, escalado por Lula para justificar o blecaute que afetou metade do Brasil. Numa entrevista coletiva inverossímil, surpreendeu a nação com a versão espantosa: ocorrera apenas a paralisação da usina de Itaipu, provocada por trovões que ninguém ouviu e raios que não caíram.

Dilma Rousseff, ministra de Minas e Energia entre 2003 e 2005, resolveu entrar no picadeiro para mostrar que merecia ser a sucessora de Lula. "Nós também temos uma outra certeza de que não vai ter apagão", declamou. E o apagão da véspera?, intrigou-se uma jornalista. "Não confunda apagão com blecaute, minha filha", irritou-se Dilma. Ou não sabe que apagão e blecaute são sinônimos ou finge não saber, o que dá na mesma. 

"Apagão foi o do Fernando Henrique", disse Dilma. Errou de novo. Em 2001, o que houve foi racionamento de energia, decretado para evitar um grande e demorado apagão. Ao compreender que a insuficiência de água nos reservatórios, a falta de chuvas e a escassez de investimentos se haviam conjugado para levar o sistema à beira do colapso, FHC fez um pronunciamento em rede nacional de TV, reconheceu os erros cometidos, não se intimidou com o desgaste político resultante do racionamento, transformou a questão em prioridade absoluta e encarregou uma força-tarefa da busca de soluções. Entregou a Lula um país iluminado. O sucessor repassou-o na penumbra.

A escuridão que castigou 46 milhões de nordestinos iluminou a face enrugada de um governo que já nascera velho. A exemplo do registrado em 2009, o apagão de 2011 avisou, aos berros que o sistema elétrico estava em decomposição. Os equipamentos eram obsoletos, faltavam investimentos, sobravam administradores ineptos. "O sistema é robusto, é muito bom e é moderno", fantasiou Lobão. "Não há no mundo nada mais moderno que o sistema brasileiro". Não podia ser robusto nem muito bom um sistema que, segundo dados oficiais, registrara 91 apagões de menor calibre só em 2010 ─ um aumento de 90% em relação a 2008. Não podia ser moderno um setor controlado pela Famiglia Sarney, que há 50 anos atormentava o Maranhão com o recorrente assassinato do futuro.

Em 2009, ao celebrar a erradicação dos apagões, Dilma resumiu o segredo do milagre. "É que nós, hoje, voltamos a fazer planejamento". Depois de prometer valer-se do critério do mérito para compor o primeiro e o segundo escalões, a presidente eleita resolveu afastar do setor elétrico o que restava da turma do deputado federal Eduardo Cunha. E entregou ao bando de José Sarney o controle completo do Ministério de Minas e Energia.

Foi como afastar o Comando Vermelho para que o PCC governasse sozinho uma terra sem lei.

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