Análise: O centro precisa ser radical

Há tentativas para redefinir o centro político, mas elas só vão surtir efeito se forem tão apaixonadas quanto as ações dos extremos

Análise: O centro precisa ser radical

Leonardo Sá/Agência Senado

Além de mostrar uma melhora na aprovação do governo Jair Bolsonaro, de 29,4% para 34,5%, a pesquisa CNT/MDA publicada nesta quarta-feira (22) deu uma ideia da situação dos campos políticos brasileiros no momento atual. Nenhuma surpresa. A polarização entre bolsonarismo e lulismo continua forte e sacudida. No centro, permanece o vácuo.

A pesquisa apurou a intenção de voto dos entrevistados, caso houvesse hoje uma eleição presidencial. Eles deveriam citar espontaneamente o nome de seu escolhido. Bolsonaro teve 29,1% das menções, enquanto o ex-presidente Lula foi lembrado por 17%. Todos os outros possíveis candidatos tiveram números entre o irrisório e o insignificante. Isso não significa que não exista espaço para uma terceira candidatura competitiva: 30,2% das pessoas não quiseram ou não souberam apontar um nome.

O problema do centro é que ele tem má fama no Brasil. Na linguagem do bolsonarismo, ele é o espaço do toma lá, dá cá. É o centrão do fisiologismo, que não tem valores, apenas interesses, e portanto não faz política, mas negociatas.
Na linguagem da esquerda, ele é o reino do “isentão” - um sujeito que não se posiciona e, por isso, se torna conivente com aqueles que supostamente gostariam de implantar o fascismo no país. Os versos recém-traduzidos do poeta marxista Bertolt Brecht vêm a calhar para a patrulha esquerdista: “Morno nem a pau! / Branco ou preto - / Cinza me faz mal!”

No final de 2019, cinco partidos se moveram para tentar redefinir positivamente o tal centro. DEM, Solidariedade, PL, Avante e Progressistas lançaram a plataforma digital CENTRO - Brasil em Movimento, que pretende apresentar soluções para “os problemas do país que os políticos dos extremos não conseguem resolver”.

Como a iniciativa não põe em evidência o carimbo de nenhuma das legendas, é difícil entender por que outros partidos, como PSDB e MDB, igualmente centristas e igualmente feridos pelos estigmas da politicagem e da falta de convicção, não ajudam a lhe dar musculatura.

Por enquanto, a plataforma traz um vídeo-manifesto (“o centro não é a ausência de posições, mas a ausência de preconceitos”) e outros três vídeos temáticos sobre desigualdade, saneamento e a criação de clubes-empresa para acabar com crises e descalabros em times de futebol.

Embora o diagnóstico possa estar correto, o remédio não está surtindo efeito. A visualização dos vídeos no Youtube é pífia. Eles são bem-feitos, mas anódinos. E todo o projeto deve malograr se não adotar uma estratégia mais ativa nas redes sociais dos partidos e, principalmente, dos políticos envolvidos. Por exemplo: um tweet do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, um dos principais patrocinadores da plataforma O Brasil em Movimento, foi um fator determinante na queda do secretário de Cultura Ricardo Alvim. Maia qualificou de inaceitável o pronunciamento escabroso em que Alvim copiou a estética e o discurso dos nazistas para anunciar um programa de sua pasta. Faltou explicar e repetir (porque a repetição, nessas coisas, é mãe do sucesso) que esse era um repúdio de centro, de centro, de centro.

É preciso dar ouvidos ao pesquisador italiano Giuliano Empoli, autor do recém-lançado Os Engenheiros do Caos, sobre a política no ambiente digital, quando ele diz que os políticos moderados estão perdendo o bonde dos avanços tecnológicos e também a capacidade de proporcionar emoção aos seus eleitores.

O centro só volta a ter relevância se virar posição de combate no debate público e nas redes sociais. Combate sistemático, em duas frentes, à direita e à esquerda. O que dá trabalho - mas ainda é melhor que apanhar em silêncio dos dois lados. O centro só volta a ter relevância se for um centro radical, tão apaixonado quanto os extremos.

Carlos Graieb é jornalista e consultor. Foi secretário de comunicação do Governo do Estado de São Paulo (2017-2018)