Meio Ambiente

Christina Lemos Demissão de Salles 'é respiro, não solução', afirma ex-ministra

Demissão de Salles 'é respiro, não solução', afirma ex-ministra

Especialistas em meio ambiente enxergam com ceticismo saída de Salles e consideram que a política do governo será mantida 

Ricardo Salles pediu demissão do cargo de ministro do Meio Ambiente nesta quarta-feira (23)

Ricardo Salles pediu demissão do cargo de ministro do Meio Ambiente nesta quarta-feira (23)

Joédson Alves/EFE - 22.04.2021

A troca de comando na área do meio ambiente foi recebida com ceticismo por especialistas na área. "Um respiro, mas não uma solução de fato", afirmou Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente nas gestões Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Salles apresentou seu pedido de demissão na tarde desta quarta-feira (23). A exoneração foi publicada no Diário Oficial da União e o governo já definiu o nome do novo ministro: Joaquim Álvaro Pereira Leite, secretário da Amazônia e Serviços Ambientais e secretário de Florestas e Desenvolvimento Sustentável.

Ex-ministra da Agricultura, a senadora Kátia Abreu (PP-TO) comemorou a demissão. "Saída do ministro Salles é um sinal VERDE para o Brasil! Espero tempos novos e alvissareiros para Amazonia e o Brasil", declarou nas redes sociais.  A senadora ainda comparou a saída à retirada de um coágulo "bloqueando a artéria do coração brasileiro" e que agora o sangue "vai fluir livremente em suas artérias".

A saída de Salles foi insistentemente pedida por senadores em diversos momentos anteriores à instalação da CPI da Covid e acontece justamente em um momento de fragilidade do governo em relação às investigações, com as suspeitas envolvendo a compra de doses da Covaxin

Em nota, o Observatório do Clima afirmou que  o ministro "finalmente" pediu demissão do cargo "que ele jamais deveria ter ocupado" e que "sai da pasta como entrou: enrolado na Justiça".

Alvo de duas investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), Salles estava sob pressão e alegou motivos familiares para deixar o cargo, apesar do respaldo do Palácio do Planalto. Fontes ligadas ao Planalto afirmaram que ele estava muito cansado e teve uma longa conversa com o presidente, na qual pediu para deixar o cargo. 

"O homem que fora condenado por fraude ambiental dez dias antes de ser feito ministro por Jair Bolsonaro e que é investigado por enriquecimento ilícito agora tem contra si dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Num deles Salles é suspeito de nove crimes", diz a entidade. 

O substituto de Salles, Pereira Leite é conhecido no meio ruralista por ser um dos mais antigos integrantes da SRB (Sociedade Rural Brasileira), da qual foi conselheiro e ocupou outros cargos diretivos - durante 23 anos. "Joaquim Leite é um homem de confiança de Salles. Não vai mudar nada na condução da pasta, até porque o ministro de fato é Jair Bolsonaro" avalia Claudio Angelo, coordenador de Comunicação do Observatório do Clima. "Ele tende a ser menos truculento, mas é só. A política seguirá a mesma, de anular o Ministério do Meio Ambiente."

Ex-presidente do Ibama e especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo avalia que a demissão do ministro deve ser comemorada. "Salles não poderia sequer ter assumido esse cargo, ele é um negacionista da política ambiental", afirmou. Ela aponta que o ministro agiu com a concordância do presidente da República e que a liderança das políticas ambientais se deslocou, neste ano, para o presidente e para a Câmara dos Deputados. 

Araújo também acredita em uma continuidade na gestão do novo ministro, mas diz que é preciso esperar para ver se haverá alguma mudança na condução da pasta. "Ele deve seguir a mesma linha de atuação de Ricardo Salles, trabalhavam juntos, ambos são ligados ao agronegócio. Mas veremos como vai se portar nos próximos dias."

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