Luís Fux: disciplina de monge em alma carioca

Faixa-preta em jiu-jitsu, guitarrista e 1º judeu a assumir presidência, ministro terá desafio de coordenar o Supremo em tempos de polarização e pandemia

Luiz Fux vai assumir o comando do Supremo Tribunal Federal

Luiz Fux vai assumir o comando do Supremo Tribunal Federal

Nelson Jr./SCO/STF - 25.06.2020

O morador do Lago Sul, em Brasília, não se surpreenderá se encontrar, por volta de 9h da manhã,  um corredor, de bandana na cabeça e disposição para vários quilômetros, mesmo que ele seja um ministro do STF. Só não imaginará que Luiz Fux, antes de sair para o exercício, que alterna com o treino, em casa, de jiu-jitsu, a esta altura já enfrentou 5 horas de estudo, na rotina que prevê despertar perto das 4h da manhã.

A disciplina quase oriental parece não combinar com um carioca, amante da música e guitarrista dedicado, mas foi um dos fatores a levar Luiz Fux a percorrer todos os degraus da magistratura -  juiz de direito, desembargador, ministro do STJ, empossado no STF em 2011 - e a assumir nesta quinta, aos 67 anos, o cargo de presidente do Supremo como primeiro representante da comunidade judaica brasileira nesta função.

O ministro mantém na porta de seu gabinete um mezuzah - símbolo da fé judaica. Trata-se de uma caixa tubular com um pequeno pergaminho com passagens bíblicas, cujo sentido mais profundo é lembrar da unicidade do homem com Deus, despertá-lo dos pensamentos mundanos e conduzi-lo ao caminho certo. Por isso os judeus o beijam na entrada e na saída.

Nesta quinta, Fux terá cumprido a meta que estabeleceu para si mesmo e que revelou aos senadores, em fevereiro de 2011, na sabatina que antecede a votação de um indicado ao STF. Declarou sempre ter desejado chegar ao mais alto posto da magistratura: “o soldado que não quer ir ao generalato tem de ir embora do Exército”.

O ministro assume o comando do Judiciário em plena pandemia, em que, pela primeira vez na história o STF se submete aos rigores do isolamento social, inclusive com sessões virtuais. E atravessará no posto os dois anos que antecedem a eleição presidencial de 2022, para a qual já se desenha a retomada da polarização na política.

O magistrado ficou conhecido, nestes 9 anos de atuação no STF, pelo perfil “punitivo e legalista”, e identificado como “linha dura” no combate à corrupção, ao acompanhar o grupo de colegas pró-Lava Jato e ao julgar pela condenação dos envolvidos no mensalão. O apoio às ações do Ministério Público é uma das marcas de sua atuação. Fux assume à presidência do Tribunal num dos momentos de maior fragilidade da instituição hoje comandada por Augusto Aras. Do antecessor, Dias Toffoli, ouviu um discurso de despedida que enfatizou a necessidade do diálogo, como saída para o equilíbrio entre os poderes.