Christina Lemos Sob fritura, Ernesto Araújo acusa lobby por 5G chinês

Sob fritura, Ernesto Araújo acusa lobby por 5G chinês

Chanceler insinua que senadores desejavam aceno do governo em favor dos chineses no mega negócio. Bolsonaro cogita Flávio Rocha, um dos homens de confiança, para o Itamaraty

Ernesto Araújo participa de audiência pública no Senado

Ernesto Araújo participa de audiência pública no Senado

TV Senado / Reprodução

Na tarde deste domingo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, declarou, por meio de uma rede social, que a presidente da Comissão de Relações Exteriores, senadora Kátia Abreu (PP/TO) teria intercedido para que ele acenasse favoravelmente aos chineses na disputa preliminar pela implantação da rede de internet 5G, no Brasil, às vésperas de sua audiência no Senado. “Se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será um rei no senado”, publicou o chanceler, reproduzindo suposta frase da senadora.

Na audiência pública, Araújo foi alvo de duros ataques, críticas e até descomposturas, por parte dos senadores. Após o episódio, sua substituição no cargo passou a ser dada como certa.

A senadora respondeu: "Desviar o assunto pra tirar o foco do que é mais importante : Vacinas e vidas! Vamos voltar ao jogo rápido. Não farei o jogo deles".

Em nota, Kátia Abreu afirmou: “O Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal. Alguém que insiste em viver à margem da boa diplomacia, à margem da verdade dos fatos, à margem do equilíbrio e à margem do respeito às instituições. Alguém que agride gratuitamente e desnecessariamente a Comissão de Relações Exteriores e o Senado Federal" (leia a íntegra da nota de Kária Abreu no final deste post).

Entre os nomes cotados para a vaga está o do almirante Flávio Rocha, homem da estrita confiança e espécie de “faz-tudo” do presidente Bolsonaro. Rocha já desempenhou missões espinhosas, determinadas pelo chefe, inclusive no contato com autoridades estrangeiras, em substituição informal a Araújo. O presidente aprecia sua discrição e eficiência. No Planalto, o auxiliar é visto como aquele “que entrega” a missão dada.

A pressão sobre Bolsonaro para que afaste os ministros da “ala ideológica” se intensificou esta semana, conforme registrado por este blog, principalmente após o contato da cúpula do congresso com expoentes do setor financeiro e industrial. A elite empresarial deixou claro aos presidente da Câmara, Artur Lira (PP/AL), e ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), em mais de um encontro nos últimos dias, que exigia uma mudança de rumos da parte do governo.

A insatisfação se estende também ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ao lado de Araújo, ambos são vistos como entraves para a retomada econômica, e responsáveis pela boa parte da imagem negativa do Brasil no exterior.

Veja a íntegra da nota da senadora Kátia Abreu:

"O Brasil não pode mais continuar tendo, perante o mundo, a face de um marginal. Alguém que insiste em viver à margem da boa diplomacia, à margem da verdade dos fatos, à margem do equilíbrio e à margem do respeito às instituições. Alguém que agride gratuitamente e desnecessariamente a Comissão de Relações Exteriores e o Senado Federal.

É uma violência resumir três horas de um encontro institucional a um tuíte que falta com a verdade. Em um encontro institucional, todo o conteúdo é público.

Defendi que os certames licitatórios não podem comportar vetos ou restrições políticas. Onde está em jogo a competitividade de nossa economia, como no caso do leilão do 5G, devem prevalecer os critérios de preço e qualidade, conforme artigo “O Céu é o Limite” que divulguei na Folha de S.Paulo (21/03/21).

Ainda alertei esse senhor dos prejuízos que um veto à China na questão 5G poderia dar às nossas exportações, especialmente do Agro, que vem salvando o país há décadas. Defendi também que a questão do desmatamento na Amazônia deve ser profundamente explicada ao mundo no contexto da negociação para evitar mais danos comerciais ao Brasil.

Se um Chanceler age dessa forma marginal com a presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado da República de seu próprio país, com explícita compulsão belicosa, isso prova definitivamente que ele está à margem de qualquer possibilidade de liderar a diplomacia brasileira. Temos de livrar a diplomacia do Brasil de seu desvio marginal.”

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