Televisão, essa jovem de 70 anos a nos dominar

Da antena no telhado que se ajustava aos gritos, à plataforma móvel que se carrega no bolso, a jovem senhora que faz hoje setenta anos mudou costumes, moldou mentalidades e conectou o brasileiro a si próprio e ao mundo

Foi no meio de uma tarde de setembro, em plena da década de sessenta. O primeiro aparelho de televisão da família finalmente se instalou na sala de casa, e entrou pela porta da frente. Eu tinha apenas 6 anos e quicava de excitação. Aquilo era quase uma engenhoca. Um tubo de imagem mal acomodado em uma caixa de madeira lustrosa e um seletor de canais que girava em sentido horário, dando um pequeno estalo ao alcançar o próximo número. Era acionado com cerimônia, para não quebrar. O surgimento da imagem na tela, um pequeno milagre. Era mais emoção que o nascimento de um bebê. O que a família não imaginava é do que ela seria capaz.

Capaz, por exemplo, de transformar a rotina inteira da nossa e de todas as famílias do interior de Minas e demais rincões onde aportava. O ponto alto da rotina diária passou a ser o esperado momento de sentar-se ao sofá para assistir ao telejornal. Aquilo era o mundo que entrava e se acomodava no meio da sala! Uma viagem instantânea que certamente sepultaria o cinema, previam. Será? E depois vinha a novela. Ah, a novela!... Revolucionária dos costumes e fabricante de ilusões. E tudo entremeado por comerciais de jingles irresistíveis a criarem necessidades de consumo urgentes e inalcançáveis.

Meu pai logo percebeu que aquele aparelho era algo influente demais e tratou de disciplinar a coisa toda. Ficava estabelecido que só se ligasse a TV após o jantar - com raras exceções. Um ou outro vizinho podia aparecer para acompanhar a programação, desde que não virasse romaria. Durante a novela, volume mais baixo - a choradeira em cena e o excesso de romance o irritavam. Programas de humor e os festivais de música da Record estavam completamente liberados. Eram o melhor momento de congraçamento familiar.

Quem nunca subiu no telhado aos gritos a quem estava embaixo para ajustar a posição da antena, não sabe o que foi a chegada da televisão. “E agora? Melhorou?” - gritava o parente empoleirado. Quem nunca adotou a solução desesperada de acoplar um pedaço de palha de aço na ponta da antena interna, para melhorar a recepção do sinal, não entenderá por que parece espantoso assistir à TV pelo celular. Quem nunca se entristeceu profundamente quando o tenebroso tubo de imagem ficava preto para nunca mais se iluminar, não imagina a vida nova que esta invenção trouxe para milhões de brasileiros, finalmente conectados a seu próprio país e ao mundo.

De tempos em tempos, juram que ela vai acabar. "Agora todos preferem a internet. Os jovens nem se sentam mais ao sofá. Adeus, TV!" Mas ela resiste aos vaticínios e proclamas, mutante e adaptativa. Enquanto envelhecemos, ela, sim, rejuvenesce a cada mudança tecnológica. Sem perder jamais a capacidade de mover a nossa vontade e nosso pensamento, avó e madrinha de outros meios, essa jovem de 70 anos ainda é a pessoa mais influente na sala de estar.

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