Fechamento do Horto Florestal frustra plano de noiva e deixa 20 costelas sobrando na brasa

A comerciante Marcia Viana e as costelas sobrando na brasa
A comerciante Marcia Viana e as costelas sobrando na brasa Fábio Mazzitelli / R7

Marcia Viana, de 31 anos, mora com os pais dentro do Horto Florestal e toca um restaurante em frente à entrada principal do parque. Na sexta-feira (20), pôs para assar 20 costelas de dois quilos e meio embrulhadas em papel alumínio, que serviria neste sábado (21) a R$ 75 cada uma. Por volta do meio-dia, só dez clientes (um grupo de amigos) e nenhum pedido de costela no bafo, prato-chefe do restaurante nos finais de semana.

Com todas as costelas sobrando na brasa, Marcia lamentava ter sido surpreendida pelo fechamento do Horto Florestal e do vizinho Parque da Cantareira em razão da morte de um macaco por febre amarela. Mesmo sendo moradora do parque, só soube que fechariam o local na sexta-feira à noite, quando houve o aviso das autoridades de saúde.

"A essa hora (meio-dia), o movimento era para ser grande aqui. O restaurante fica lotado no final de semana. Quando soube (do fechamento), dispensei quatro funcionários, mas as costelas já estavam assando no bafo. Vou ver se faço uma promoção para vender mais barato e diminuir o prejuízo", afirma a comerciante, que por ser moradora do parque já tinha sido vacinada contra a febre amarela há dois meses. "Mas o fechamento me pegou de surpresa. Montei tudo para um final de semana normal", diz.

Os portões fechados do parque motivaram frustrações variadas. Com casamento marcado para 4 de novembro, a auxiliar administrativa Mayara Costa, de 28 anos, usaria as alamedas do Horto como cenário para uma romântica sessão de fotos com o noivo Douglas Ferraz.

Os noivos Mayara e Douglas (de frente): sessão de fotos frustrada
Os noivos Mayara e Douglas (de frente): sessão de fotos frustrada Fábio Mazzitelli / R7

As fotografias, planejadas para compor um book para mostrar na festa do casório, tiveram que ser improvisadas na frente do portão principal. Isso depois de, ao lado do companheiro e de um fotógrafo profissional, a noiva ter percorrido quase todas as entradas do parque. "Estava quase chorando", diz. 

A estratégia de fechar o Horto Florestal e o Parque Estadual da Cantareira foi tomada após a confirmação da morte por febre amarela de um macaco. O animal foi encontrato morto em 9 de outubro e os resultados dos exames ficaram prontos nesta sexta-feira (20). Não há prazo para a reabertura dos equipamentos turísticos, que estão entre as principais atrações naturais da capital paulista.

"Eu me surpreendi com a decisão. Mas acho que foi a atitude correta", afirma Carlos Cordeiro, dirigente da Associação Amigos do Horto.

Em um final de semana, costumam passar pelo Horto Florestal e pelo Parque da Cantareira cerca de 140 mil pessoas, segundo Cordeiro, que também já tomou a vacina contra a febre amarela. No vídeo, o dirigente da associação fala da surpresa que o fechamento causou nos frequentadores dos parques.

Sinal de alerta

As mortes de macacos por febre amarela são, tecnicamente, chamadas de epizootia --doença de rápida disseminação entre primatas não humanos-- e um indicador importante para ações preventivas dos gestores públicos na área de vigilância em saúde.

A intenção da imunização em andamento na zona norte de São Paulo é para fechar uma possível "porta de entrada" da febre amarela na cidade --não há casos de febre amarela urbana no Brasil desde 1942 e não há transmissão da doença em São Paulo.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, em 2017, houve 22 casos e dez mortes por febre amarela silvestre autóctones (transmissão local) confirmados no Estado. Na capital, não houve registro de caso autóctone de febre amarela silvestre em 2017 --apenas 12 casos importados.